Ciúme patológico

Em questões de ciúme a linha divisória entre imaginação, fantasia, crença e certeza frequentemente é vaga e imprecisa. No ciúme as dúvidas podem se transformar em ideias distorcidas ou francamente delirantes.

Considerando o ciúme como um sentimento que surge quando o sujeito percebe que não é a prioridade para o outro, não necessariamente a pessoa amada, então existem ciúmes em várias circunstâncias. Nesse caso pode haver ciúme entre irmãos, em relação a um animal de estimação, a um amigo, etc.

Entre todos os tipos de ciúme citados na literatura científica, o ciúme romântico, isto é, aquele que ocorre em relacionamentos amorosos é um dos que tem despertado maior atenção de psicólogos e leigos. E será para esse tipo de ciúme que se dedica esta pagina.

Em questões de ciúme a linha divisória entre imaginação, fantasia, crença e certeza frequentemente é vaga e imprecisa. No ciúme as dúvidas podem se transformar em ideias distorcidas ou francamente delirantes. Depois das ideias de ciúme, a pessoa é compelida à verificação compulsória de suas dúvidas. O(a) ciumento(a) verifica se a pessoa está onde e com quem disse que estaria, abre correspondências, ouve telefonemas, examina bolsos, bolsas, carteiras, recibos, roupas íntimas, segue o companheiro(a), contrata detetives particulares, etc. Toda essa tentativa de aliviar sentimentos, além de reconhecidamente ridícula até pelo próprio ciumento, não ameniza o mal estar da dúvida.

Entre absurdos e ridículos, há um caso de portadora de Ciúme Patológico que marcava o pênis do marido assinando-o no início do dia com uma caneta e verificava a marca desse sinal no final do dia (Wright). Mais absurda ainda é a história de outro paciente, com ciúme obsessivo, que chegava a examinar as fezes da namorada, procurando possíveis vestígios de bilhetes engolidos (Torres).

Os ciumentos estão em constante busca de evidências e confissões que confirmem suas suspeitas, mas ainda que confirmadas pelo(a) companheiro(a), essas inquisições permanentes parecem trazer mais dúvidas ainda ao invés de tranquilidade. Depois da capitulação a confissão do companheiro(a) nunca é suficientemente detalhada ou fidedigna e tudo volta à torturante inquisição anterior.

Os portadores de Ciúme Patológico comumente realizam visitas ou telefonemas de surpresa em casa ou no trabalho para confirmar suas suspeitas. Os companheiros(as) desses pacientes vivem ocultando e dissimulando elogios e presentes recebidos ou omitindo fatos e informações na tentativa de minimizar os graves problemas de ciúme, mas geralmente agravam ainda mais.

O que aparece no Ciúme Patológico é um grande desejo de controle total sobre os sentimentos e comportamentos do companheiro(a). Há ainda preocupações excessivas sobre relacionamentos anteriores, as quais podem ocorrer como pensamentos repetitivos, imagens intrusivas e ruminações intermináveis sobre fatos passados e seus detalhes.

O Ciúme Patológico é um problema importante para a psiquiatria, envolvendo riscos e sofrimentos. Na psicopatologia o ciúme pode se relacionar a diversos transtornos emocionais. Mais comumente está relacionado aos Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo. Ha autores que diferenciam o Ciúme Patológico do Ciúme Delirante.

De fato, o Ciúme Delirante está relacionado ao Transtorno Delirante Persistente e pode ser conhecido por Amor Obsessivo. Esse tipo de Transtorno Delirante Persistente, apesar de bem conhecido é raro, com incidência estimada em menos de 0,1% (Bogerts) e predomina em mulheres. Outro quadro onde a presença de Ciúme Patológico é constante é o alcoolismo crônico, bem como nas dependências químicas (Jiménez-Arriero).

O ciúme é uma emoção humana extremamente comum, universal, podendo ser difícil distinguir o ciúme normal do patológico (Kast). Na verdade, pouco se sabe sobre experiências e comportamentos associados ao ciúme na população geral, mas em determinado estudo populacional todos os entrevistados (100%) responderam positivamente a uma pergunta indicativa de ciúme, embora menos de 10% reconheceu que este sentimento acarretava problemas no relacionamento (Mullen).

O ciúme pode ser um conjunto de emoções desencadeadas por sentimentos de alguma ameaça à estabilidade ou qualidade de um relacionamento íntimo valorizado. As definições de ciúme são muitas, mas todas têm em comum três elementos:

1) ser uma reação frente a uma ameaça percebida;
2) haver um objeto real ou imaginário que rivaliza com o sujeito;
3) a reação visa eliminar riscos da perda do objeto valorizado.

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Percebe-se, no ciúme romântico, que não se trata de um sentimento voltado para o outro, mas voltado para quem o sente. Trata-se, na verdade, do medo que a pessoa sente de perder o outro ou perder sua exclusividade sobre esse outro.

É um sentimento egocêntrico associado à terrível sensação de ser excluído do sentimento do outro. O mais comum, é a pessoa sentir-se enciumada em situações nas quais, de alguma forma, se veja excluído ou ameaçado de exclusão na relação com o outro.

Em certa dose o sentimento de ciúme é bastante fisiológico e de ocorrência normal no ser humano. Entretanto, em grau de comprometimento emocional maior, quando há instabilidade afetiva ou de baixa autoestima, a pessoa pode apresentar um ciúme patológico.

Neste caso, a angústia e instabilidade afetiva, a insegurança em relação a si mesmo e ao outro, além da fragilidade da relação podem levar a pessoa a manter permanente tensão, temendo ser traído ou abandonado.

O ciúme patológico pode se manifestar através de ideias delirantes.

No delírio tipo ciumento do Transtorno Delirante, o tema central do delírio é ter um parceiro infiel. Essa crença é injustificada e está baseada em inferências incorretas apoiadas por pequenas “evidências” (p. ex., roupas desalinhadas). A pessoa com o delírio costuma confrontar o cônjuge ou o parceiro e tenta intervir na infidelidade imaginada.

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Como saber se o ciúme é normal ou doentio?
O ciúme normal e transitório é baseado em fatos. O maior desejo seria preservar o relacionamento. No ciúme patológico há geralmente o desejo inconsciente da ameaça de um rival. Para algumas pessoas o ciúme é visto como zelo, sinal de amor ou valorização do parceiro; para outros é uma prova de insegurança e baixa autoestima. Em ambos os casos existe uma gama de sofrimento para ambos os lados envolvidos.

Mas quando se trata do ciúme patológico é necessária uma intervenção profissional, porque existem muitos casos de mortes e tragédias familiares que apresentam como pano de fundo esta enfermidade.

No ciúme patológico qualquer sinal do outro pode significar algo e a angústia da dúvida corrói a alma de quem é ciumento. Em uma terceira situação, ainda mais grave sob o ponto de vista de comprometimento do psiquismo, podem ocorrer situações delirantes em que a desconfiança do ciumento cede lugar a uma certeza infundada de que está mesmo sendo traído ou abandonado.

No ciúme patológico há um grande desejo de controle total sobre os sentimentos e comportamento do outro. Há ainda preocupações excessivas sobre relacionamentos anteriores. Essas preocupações podem surgir como pensamentos repetitivos, imagens intrusivas e ruminações sem fim sobre fatos passados e seus detalhes.

O ciúme patológico é um problema importante para a psiquiatria, envolve riscos e sofrimentos, podendo ocorrer em diversos transtornos mentais. Na psicopatologia o ciúme pode se apresentar de formas distintas, tais como ideias obsessivas, ideias prevalentes ou ideias delirantes sobre a infidelidade. No Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), o ciúme surge como uma obsessão, normalmente associada a rituais de verificação.

A maneira como o ciúme é visto tem variações importantes nas diferentes culturas e épocas. No século XIV relacionava-se à paixão, devoção e zelo, também à necessidade de preservar algo importante, sem conotações pejorativas de possessividade e desconfiança.

Nas sociedades monogâmicas o ciúme se associa à honra e moral, sendo até um instrumento de proteção da família, talvez um imperativo biológico ou uma adaptação à necessidade de certeza da paternidade. Até bem pouco tempo atrás, dava-se grande ênfase à fidelidade feminina, enquanto a infidelidade masculina era mais bem aceita. Mesmo em tempos modernos, atribui-se um papel positivo a alguma manifestação ciúme, considerando-o um sinal de amor e cuidado.

O conceito de Ciúme Patológico compreende vários sentimentos perturbadores, desproporcionais e absurdos, os quais determinam comportamentos inaceitáveis ou bizarros. Esses sentimentos envolveriam um medo desproporcional de perder o parceiro(a) para um(a) rival, era uma desconfiança excessiva e infundada gerando significativo prejuízo no relacionamento interpessoal.

Para o diagnóstico, alguns autores não consideram fundamental a crença superestimada da infidelidade, sendo mais importante o medo da perda do outro, ou do espaço afetivo ocupado pelo ciumento na vida do objeto amado. Para outros a base do Ciúme Patológico estaria em seu aspecto absurdo, na sua irracionalidade e não em seu caráter excessivo (Mooney).

Em psiquiatria o Ciúme Patológico aparece como sintoma de diversos quadros, desde nos Transtornos de Personalidade até em doenças emocionais francas. Enquanto o ciúme normal é transitório, específico e baseado em fatos reais, o Ciúme Patológico aparece como uma preocupação infundada, absurda e emancipada do contexto. Enquanto no ciúme não-patológico o maior desejo é preservar o relacionamento, no Ciúme Patológico haveria o desejo inconsciente da ameaça de um rival (Kast).

Por ser uma emoção heterogêneas que vai desde a normalidade até a patologia franca, o ciúme oferece dificuldades em considerá-lo normal ou mórbido. Marazzini aplicou um questionário a 400 estudantes universitários de ambos os sexos e, igualmente, para 14 pacientes portadores de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), cuja principal obsessão era o ciúme. Duzentos e quarenta e cinco, aproximadamente 61% dos questionários, foram preenchidos. As análises estatísticas revelaram que os pacientes com TOC tinham pontuações totais bem mais elevados do que as pessoas saudáveis.

Além disso, foi possível identificar um grupo correspondente a 10% do total de pessoas preocupadas com manifestações de ciúme em torno do(a) parceiro(a). A conclusão do estudo mostrou que 10% de uma população de estudantes universitários, embora psiquiatricamente fossem considerados normais, tem acentuadas conjecturas sobre ciúme em torno do(a) parceiro(a). Essa pesquisa permitiu distinguir claramente o grupo de ciúme acentuado, os pacientes com TOC e as pessoas saudáveis, sem esse tipo de preocupação.

No Ciúme Patológico várias emoções são experimentadas, tais como a ansiedade, depressão, raiva, vergonha, insegurança, humilhação, perplexidade, culpa, aumento do desejo sexual e desejo de vingança. Haveria, clara correlação entre autoestima rebaixada, consequentemente, a sensação de insegurança e o ciúme. O portador de Ciúme Patológico é um vulcão emocional sempre prestes à erupção e apresenta um modo distorcido de vivenciar o amor, algo doentio.

Os pacientes com Ciúme Patológico seriam extremamente sensíveis, vulneráveis e muito desconfiados, com autoestima muito rebaixada e tendo como defesa um comportamento impulsivo, egoísta e agressivo. O potencial para atitudes violentas é destacado no Ciúme Patológico, despertando importante interesse na psiquiatria forense.

As estatísticas policiais sobre as vítimas do Ciúme Patológico normalmente são incompletas, tendo em vista o fato das mulheres raramente darem queixa das agressões que sofrem por esse motivo. O Ciúme Patológico pode até motivar homicídios e muitas dessas pessoas sequer chegam aos serviços médicos.

Para Palermo a maioria dos homicídios seguidos de suicídio são crimes de paixão, ou seja, relacionados à ideias geralmente delirantes de Ciúme Patológico. Frequentemente são crimes cometidos por homens com algum problema psicoemocional, tais como transtornos de personalidade, alcoolismo, drogas, depressão, obsessão até a franca esquizofrenia.

Ciúme e Doença Mental
Diante da pessoa com preocupações de ciúme é importante avaliar a proporção, adequação, racionalidade e eventual caráter delirante dessas preocupações, assim como o grau de sofrimento que acarretam. O grau de sofrimento costuma ser diretamente proporcional ao caráter patológico. Não raro as preocupações com fidelidade não chegam a ser absurdas e muitas vezes são bastante compreensíveis.

Deve se buscar um entendimento psicopatológico do sintoma, diferenciar se o fenômeno se trata de uma ideia obsessiva, prevalente ou delirante. Nesse sentido é fundamental avaliar o grau de crítica do indivíduo em relação a essas preocupações ou ideias. Como se sabe, uma pessoa pode estar delirante, ainda que o cônjuge o(a) esteja traindo de fato. Isso ocorre quando a crença na infidelidade for baseada em fatos ou atitudes que em nada a justifiquem a ideia de ciúme, e se essa ideia for inabalável e irremovível pela crítica racional.

O terceiro aspecto seria a busca do diagnóstico responsável pelo sintoma, o qual, como dissemos, pode se tratar de uma obsessão, ideia prevalente ou delírio. Nunca é demais ressaltar que, da mesma forma que a ocorrência de delírios não implica em algum diagnóstico específico, obsessões e compulsões também não são sintomas característicos e exclusivos do Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

As obsessões podem acompanhar outros quadros psiquiátricos como, principalmente, as depressões, demências e esquizofrenias. Sintomas depressivos podem ainda ser comórbidos e secundários ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o que ocorre com muita freqüência e dificulta o diagnóstico diferencial.

Além da análise dos sintomas, investigando a natureza da preocupação de ciúme e a força dessa crença, é fundamental avaliar também se o sofrimento gerado, tanto para o indivíduo quanto para o(a) companheiro(a), o grau de comprometimento do trabalho, da vida conjugal, do laser e da vida social é significativo. É necessário avaliar também o risco de atos violentos e a qualidade global do relacionamento.

Deve-se ainda considerar os fatores de predisposição emocional facilitadora, como por exemplo, os sentimentos de inferioridade e insegurança, os transtornos psicológicos atuais ou anteriores, as experiências passadas de separação ou traição, traumas de relacionamento dos pais.

Os fatores precipitantes das crises de ciúme também merecem atenção, como é o caso do estresse atual, das perdas, das mudanças e comportamentos provocativos do cônjuge. É sempre necessária uma avaliação cuidadosa e global em cada caso em particular.

A relação do Ciúme Patológico com Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo parece clara (Zacher). O Ciúme Patológico pode tornar a vida insuportável para todos envolvidos. A afinidade do Ciúme Patológico para com os Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo deu origem à ideia de que poderia responder ao tratamento com substâncias utilizadas também no tratamento de Transtornos Obsessivo-Compulsivo.

De fato é grande o número de pacientes com Ciúme Patológico que respondem bem ao tratamento com antidepressivos. O tratamento com antidepressivos melhora a preocupação exagerada do ciúme e alivia a angústia do paciente (Zacher).

O Ciúme Patológico pode coexistir com qualquer diagnóstico psiquiátrico. Entre pacientes psiquiátricos internados os delírios de ciúme foram encontrados em 1,1 % deles. As prevalências diagnósticas foram as seguintes: psicoses orgânicas em 7%, transtornos delirantes paranoides em 6,7%, psicoses alcoólicas em 5,6% e esquizofrenias em 2,5% (Soyka).

Em pacientes ambulatoriais o Ciúme Patológico relaciona-se em grande parte a quadros depressivos, ansiosos e obsessivos. A maciça maioria dos portadores de Ciúme Patológico, entretanto, não está dentro dos hospitais e nem nos ambulatórios (Shepherd).

São bastante conhecidos os delírios de ciúme de alcoolistas, a ponto desse sintoma ser considerado, durante algum tempo e por alguns autores, característico do alcoolismo. Destacava-se a impotência sexual proveniente do alcoolismo como importante fator agravante no desenvolvimento de ideias de infidelidade, relacionadas a sentimentos de inferioridade e rejeição.

Nas mulheres, fases de menor interesse sexual ou atratividade física, como ocorre na gravidez e menopausa, produziriam redução da autoestima, aumentando a insegurança e a ocorrência do Ciúme Patológico.

A prevalência do Ciúme Patológico no Alcoolismo gira em torno de 34% (Michael). A evolução comum do Ciúme Patológico como sintoma do alcoolismo pode ser, inicialmente, apenas durante a intoxicação alcoólica e, posteriormente, também nos períodos de sobriedade.

Na Esquizofrenia, a prevalência do Ciúme Patológico com características delirantes em pacientes internados costuma ser de apenas 1 a 2,5%. Seria bem mais freqüente em transtornos demenciais e em quadros depressivos do que na esquizofrenia (Soyka). No Transtorno Paranoide os delírios de ciúme costumam aparecer em 16% deles (Shaji).

Pode-se haver ainda o delírio de ciúme bem sistematizado em sua forma pura, sem alucinações ou deterioração da personalidade, em uma apresentação monossintomática. Este quadro atualmente denominado Transtorno Delirante de Ciúme, seria bem mais raro.

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…parece TOC
O ciúme considerado normal dá-se num contexto interpessoal, entre o sujeito e o objeto, enquanto o ciúme que pode existir junto com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo seria intrapessoal, só dentro do sujeito. O ciúme normal envolveria sempre duas pessoas e seus portadores melhorariam quando estivessem sem relacionamentos amorosos.

No ciúme patológico o amor do outro é sempre questionado e o medo da perda é continuado, enquanto no amor normal (ou ideal) o medo não é prevalente e o amor não é questionado. Normalmente existe no Transtorno Obsessivo-Compulsivo a dúvida patológica com verificações repetidas e esse mesmo fenômeno pode se observar no ciúme patológico.

O medo da perda é também um sintoma proeminente no TOC, tanto quanto no ciúme patológico. Neste, a perda do ser amado não diz respeito à perda pela morte, como ocorre num relacionamento normal, mas o temor maior, o sofrimento mais assustador é a perda para outro.

Geralmente o que move o ciumento é um desejo de controle total sobre a outra pessoa. Porém, por mais controle tenha nunca é suficiente. A pessoa que sofre deste mal está sempre à procura de confirmações para suas suspeitas através principalmente de confissões que nunca deixa satisfeita a pessoa ciumenta porque sempre surgem outras suspeitas.

O ciumento vive um eterno sofrimento, e acaba experimentando stress, descontrole emocional, terminando por causar um tremendo clima de tensão e desajuste familiar, aliando a este clima cenas públicas constrangedoras para ela e para a família.

Esse tipo de ciúme é também conhecido como “Síndrome de Otelo”, em referência ao personagem shakespeariano que sofria deste mal. Isso pode levar a pessoa a cometer atos de extrema agressividade física, configurando aqueles casos que recheiam as crônicas policiais de suicídios e homicídios passionais.

Enquanto os casos mais brandos de ciúme podem ser uma manifestação de fragilidade da autoestima, os intermediários refletem estados afetivamente mais complicados e os casos da “Síndrome de Otelo” são, indiscutivelmente, causados por patologias psiquiátricas graves, tais como as psicoses ou ainda, por problemas neuropsiquiátricos como os diversos tipos de disritmia cerebral descritas na medicina.

 

DSM.5 – CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO PARA TRANSTORNO DELIRANTE (F22.0 – 297.1), onde se inclui o Transtorno Delirante de Ciúme
A. A presença de um delírio (ou mais) com duração de um mês ou mais.
B. O Critério A para esquizofrenia jamais foi atendido.
Nota: Alucinações, quando presentes, não são proeminentes e têm relação com o tema do delírio (p. ex., a sensação de estar infestado de insetos associada a delírios de infestação).
C. Exceto pelo impacto do(s) delírio(s) ou de seus desdobramentos, o funcionamento não está acentuadamente prejudicado, e o comportamento não é claramente bizarro ou esquisito.
D. Se episódios maníacos ou depressivos ocorreram, eles foram breves em comparação com a duração dos períodos delirantes.
E. A perturbação não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou a outra condição médica, não sendo mais bem explicada por outro transtorno mental, como transtorno dismórfico corporal ou transtorno obsessivo-compulsivo.
Determinar o subtipo:
Tipo erotomaníaco: Esse subtipo aplica-se quando o tema central do delírio é o de que outra pessoa está apaixonada pelo indivíduo.
Tipo grandioso: Esse subtipo aplica-se quando o tema central do delírio é a convicção de ter algum grande talento (embora não reconhecido), insight ou ter feito uma descoberta importante.
Tipo ciumento: Esse subtipo aplica-se quando o tema central do delírio do indivíduo é o de que o cônjuge ou parceiro é infiel.
Tipo persecutório: Esse subtipo aplica-se quando o tema central do delírio envolve a crença de que o próprio indivíduo está sendo vítima de conspiração, enganado, espionado, perseguido, envenenado ou drogado, difamado maliciosamente, assediado ou obstruído na busca de objetivos de longo prazo.
Tipo somático: Esse subtipo aplica-se quando o tema central do delírio envolve funções ou sensações corporais. Tipo misto: Esse subtipo aplica-se quando não há um tema delirante predominante. Tipo não especificado: Esse subtipo aplica-se quando a crença delirante dominante não pode ser determinada com clareza ou não está descrita nos tipos específicos (p. ex., delírios referenciais sem um componente persecutório ou grandioso proeminente).
Especificar se: Com conteúdo bizarro: Os delírios são considerados bizarros se são claramente implausíveis, incompreensíveis e não originados de experiências comuns da vida (p. ex., a crença de um indivíduo de que um estranho retirou seus órgãos internos, substituindo-os pelos de outro sem deixar feridas ou cicatrizes).

Ciúme e TOC
Há vários anos suspeita-se que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo poderia se manifestar como Ciúme Patológico. Nesse caso os pensamentos atrelados ao Ciúme Patológico seriam indistinguíveis dos pensamentos obsessivos. Os pensamentos de ciúme seriam ruminações e as buscas por evidências da infidelidade, rituais compulsivos de verificação.

Muitos pacientes teriam crítica e constrangimento por esses pensamentos e se esforçariam para afastá-los. Albina Torres e cols. citam a famosa frase de Barthes em Fragmentos de um Discurso Amoroso: “Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum“(Torres).

De algum tempo para cá vários autores têm sugerido a relação entre Ciúme Patológico e Transtornos Obsessivo-Compulsivos (Shepherd). Desta forma, pensamentos de ciúme podem ser vivenciados como excessivos, irracionais ou intrusivos e podem levar a comportamentos compulsivos, tais como os de verificação compulsiva.

Ao se considerar os tipos de Ciúme Patológico podemos observar que, enquanto no Ciúme Delirante o paciente está solidamente convencido da traição, no Ciúme Obsessivo ele sentirá dúvidas e ruminações sobre provas inconclusivas, em que certeza e incerteza, raiva e remorso alternam-se a cada momento.

É importante ressaltar que em estudos sobre TOC, o tema do Ciúme Patológico é pouco abordado, possivelmente por não ser um sintoma muito típico e em trabalhos que estudam o Ciúme Patológico em geral, sua apresentação como uma manifestação sintomatológica do TOC também é pouco enfatizada, talvez por não estar entre os sintomas mais frequentes.

Sob vários aspectos constata-se que os pensamentos de ciúme partilham várias características com os pensamentos das obsessões: são frequentemente intrusivos, indesejados, desagradáveis e por vezes considerados irracionais, em geral acompanhados de atos de verificação ou busca de reasseguramento. Os indivíduos que avaliam suas atitudes como inadequadas ou injustificadas teriam mais sentimentos de culpa e depressão, enquanto os demais apresentariam mais raiva e comportamentos violentos.

Os pensamentos ou ruminações obsessivas de ciúme diferem das simples suspeitas de ciúme na medida em que são facilmente reconhecidos pelo paciente como egodistônicos, ou seja, irracionais e associados à resistência e culpa, enquanto as preocupações mórbidas são egosintônicas, consistentes com o estilo de vida e centradas em problemas realísticos do indivíduo, raramente resistidas e só algumas vezes associadas à culpa.

Assim, nos pacientes obsessivos as preocupações de ciúme tipicamente envolvem maior preservação da crítica, mais vergonha, culpa e sintomas depressivos, menor agressividade expressa e muitas ruminações e rituais de verificação sobre acontecimentos passados. De fato, há casos em que predominam comportamentos relacionados à depressão, tais como: retraimento, dependência e maior demanda por demonstrações afetivas, por vezes alternados com raiva, ameaças e agressões.

O ciúme considerado normal dá-se num contexto interpessoal, entre o sujeito e o objeto, enquanto o ciúme no Transtorno Obsessivo-Compulsivo seria intrapessoal, só dentro do sujeito. O ciúme normal envolveria sempre duas pessoas e os pacientes melhorariam quando sem relacionamentos amorosos (Parker e Barret).

No Ciúme Patológico o amor do outro é sempre questionado e o medo da perda é continuado, enquanto no amor normal (ou ideal) o medo não é prevalente e o amor não é questionado. No Transtorno Obsessivo-Compulsivo há sempre dúvida patológica com verificações repetidas, mesmo fenômeno que se observa no Ciúme Patológico. O medo da perda é também um sintoma proeminente no TOC, tanto quanto no Ciúme Patológico. Neste, a perda do ser amado não diz respeito à perda pela morte, como ocorre num relacionamento normal, mas o temor maior, o sofrimento mais assustador é a perda para outro(a).

AS OBSESSÕES SE CARACTERIZAM POR:

(1) pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes que, em algum momento durante a perturbação, são experimentados como intrusivos e inadequados e causam acentuada ansiedade ou sofrimento.

(2) os pensamentos, impulsos ou imagens não são meras preocupações excessivas com problemas da vida real.

(3) a pessoa tenta ignorar ou suprimir tais pensamentos, impulsos ou imagens, ou neutralizá-los com algum outro pensamento ou ação.

(4) a pessoa reconhece que os pensamentos, impulsos ou imagens obsessivas são produto de sua própria mente (não impostos a partir de fora, como na inserção de pensamentos).

A ausência do termo ciúme nesses critérios seria o maior responsável pela relutância de muitos autores em diagnosticar o TOC em casos cuja apresentação é centrada em preocupações de infidelidade. Apesar de haver temas de ideias obsessivas mais frequentes no TOC, as possibilidades de conteúdos obsessivos e rituais compulsivos são infindáveis. Não há também nenhuma regra proibindo as ideias obsessivas de envolverem o tema ciúme com a mesma força que envolve a contaminação, sujeira, doença, etc.

Devido a essa resistência em se considerar o Ciúme Patológico como um Transtorno Obsessivo-Compulsivo normal com a diferença única no tema da ideia obsessiva, existem termos variantes do TOC, tais como:

Ciúme Obsessivo,
Ciúme Obsessivo-Suspeitoso,
Forma Obsessivo-Compulsiva de Ciúme Patológico
Ciúme com Características Obsessivas,

Evita-se falar diretamente em Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Talvez pelo tema ciúme ter forte natureza paranoide, a aproximação mais natural do transtorno seria com ideias delirantes e quadros tradicionalmente psicóticos.

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para referir:
Ballone GJCiúme Patológico. in. PsiqWeb, Internet – disponível em http://www.psiqweb.net, 2016