Distimia

Distimia ou Transtorno Distímico é uma forma crônica de depressão, cuja gravidade costuma ser menor do que a Depressão Maior. Parece haver um consenso de que o chamado Transtorno Depressivo Maior, a Distimia e algumas Disforias (rebaixamentos do estado de humor) transitórias seriam manifestações de um mesmo processo patológico, o qual resulta em sintomas depressivos. Tal variedade de estados de humor deprimido compartilha os mesmos sintomas, responde aos mesmos medicamentos antidepressivos e podem ser abordados por técnicas psicoterapêuticas similares.

A Distimia é um tipo de depressão que faz parte do grupo dos Transtornos do Humor, mais precisamente na categoria Transtornos Persistentes do Humor. Ela é diferente dos outros tipos de depressão porque seus sintomas são mais leves, entretanto, apesar de mais leve o quadro tem longa duração. Por causa da isso, é difícil a pessoa perceber-se deprimida, fazendo com que ela conviva com essa depressão por longos anos.

O termo Distimia tem origem na Grécia Antiga e significa “mau humor”. Na escola hipocrática, a Distimia era considerada parte do conceito de melancolia. Assim, indivíduos letárgicos, preocupados e inseguros eram predispostos a um temperamento considerado melancólico. Da Grécia Antiga até a Idade Média, a doença mental era cuidada por clérigos e religiosos, uma vez que passou a ser atribuída à magia, ao pecado e à possessão demoníaca, alvo da Santa Inquisição. Na mesma época, o mundo árabe fazia importantes releituras e descrições do conceito de melancolia, através de Avicena (980-1037), Maimonides (1135), Averrois (1126) e Constantino (1019-1087), entre outros (Cordaz).

Na Distimia a característica mais marcante é a irritabilidade, implicância e o mau humor e estes sinais com frequência acabam sendo tomadas por características pessoais do indivíduo. Alguns distímicos sentem-se assim a vida toda, chegando a achar que eles são assim mesmo, sem considerar o quadro como um estado patológico.

Os padrões essenciais do transtorno distímico habitualmente incluem tristeza, falta de alegria de viver e preocupação com a inadequação. O transtorno é melhor considerado como uma depressão de baixa intensidade, flutuante e duradoura, representando uma intensificação dos traços do temperamento depressivo.

No Brasil, podem existir até 11 milhões de pessoas que sofrem desse mal, de acordo com a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA). Eles são até 6% da população mundial e de cada 100 pacientes atendidos nos postos de saúde, 7 provavelmente têm Distimia.

A pessoa com Distimia só enxerga o lado negativo do mundo e não sente prazer em nada. A diferença entre ele e o resto dos mau-humorados é que os últimos reclamam de um problema, mas param diante da resolução. O distímico reclama até se ganha na loteria e, geralmente, não se acha anormal.

Distimia é classificada pela medicina desde a década de 1980. Trata-se de uma forma crônica de depressão, com sintomas mais leves. Uma das diferenças entre Distimia e depressão é que enquanto a pessoa com depressão grave fica bem devagar, quase parando, quem tem distimia continua tocando a vida, mas está sempre reclamando. Os pacientes com Distimia manifestam um mau humor constante como um traço da personalidade e sua rabugice é sempre atribuída aos problemas do ambiente a sua volta.

A Distimia atinge pelo menos 180 milhões de pessoas no mundo, as quais, se não tratadas, tendem a se isolar. Na entrevista uma paciente diz que “- levantar da cama era um martírio. No chuveiro, já começava a me angustiar. Pensava nas horas em que ia ficar na marginal, no papo monótono dos colegas de trabalho e no dia que vinha pela frente, cheio de decepções. Nada tinha graça”. Se existisse essa classificação, seria uma espécie de “Síndrome do Saco Cheio”

Um alerta importante é que a doença não deve ser subestimada, pois seu portador tem um risco 30% maior de desenvolver quadros depressivos graves. Este perfil de mau humor é herdado e, em geral, manifesta-se na adolescência, desencadeado por um acontecimento marcante.

Como foi visto, geralmente o paciente com Distimia costuma ter o humor algo depressivo a maior parte do tempo, mas não expressivamente depressivo como acontece na Depressão Maior. Pode apresentar inquietação, ansiedade e sintomas neurovegetativos, como por exemplo, queixas digestivas, cardiocirculatórias, musculares, dor de cabeça. É muito marcante nos distímicos a tendência em dedicar pouco tempo para atividades de lazer, valorizando em excesso atividades produtivas. Outros sintomas que chama a atenção é a tendência à irritabilidade, ironias, crises de raiva e excesso de críticas.

É certo entender a Distimia como uma síndrome depressiva de grau leve ou moderado, cujos sintomas são persistentes e cuja prevalência é maior do que a Depressão Maior.

Os critérios oficiais para diagnóstico de distimia foram estabelecidos pela primeira vez na terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Psiquiátrica Americana o DSM-III. Atualmente já estamos no DSM-5.

Depois da classificação do DSM.III a Distimia tornou-se um termo popular para definir o rebaixamento do humor, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países cientificamente alinhados, como o Brasil. Na Europa, entretanto, o termo Distimia em si enfrenta resistência, principalmente na Inglaterra, onde tal conceito está diluído dentro do diagnóstico de Depressão Menor e Depressão Ansiosa, as quais representam um grupo de transtornos comumente encontrados na prática médica geral.

Os estudos epidemiológicos mais recentes mostram que existe uma comorbidade elevada na Distimia, de forma que mais de 2/3 dos pacientes apresenta também Depressão Maior, Abuso de Substância ou algum Transtorno de Ansiedade junto com a Distimia.

Resumindo, Distimia é um transtorno depressivo do humor, tem natureza crônica, se inicia insidiosamente desde a infância ou adolescência e não tem sintomas graves o suficiente para ser diagnosticada como Depressão Maior, ou seja, o transtorno é considerado como uma depressão de baixa intensidade, flutuante e duradoura.

Alguns pacientes distímicos, de fato, não se queixam propriamente de tristeza, entretanto, queixam muito apropriadamente de falta de alegria de viver: “- doutor, eu não estou com tristeza, mas também não sinto alegria ou prazer com nada”. Além disso, os próprios distímicos manifestam grande preocupação com sua inadequação. Quer dizer, eles mesmos sabem que são “chatos” e lamentam por isso.

Muitas pessoas com Distimia relatam que estiveram deprimidas durante toda a sua vida e acabam tendo uma concepção existencial deturpada pelo mau humor crônico. Geralmente elas se auto-definem como tristes ou “na fossa“, mas geralmente são definidas pelas outras como mal humoradas, amargas, irônicas e implicantes. Embora a Distimia seja considerada menos grave que a Depressão Maior, suas consequências podem ser graves e incluem prejuízo grave do desempenho familiar, social e profissional, aumento de sintomas físicos e doenças psicossomáticas e aumento do risco de desenvolver Depressão Maior.

Em geral esses pacientes costumam ser tensos, rígidos e resistentes às sugestões de terapia. Como frequentemente eles podem ser sarcásticos, rabugentos, exigentes e queixosos, não é raro que o médico de outras especialidades sinta-se irritado com eles. Apesar disso, o funcionamento social das pessoas com Distimia é relativamente estável e muitas delas investem sua energia fortemente no trabalho, desprezando quase totalmente o prazer, as atividades familiares e sociais. (Akiskal)

A prevalência da Distimia na população geral é assustadora. Alguns autores cogitam ser aproximadamente de 3 a 6% da população geral os portadores de Distimia (Seretti – Akiskal – Avrichir), sendo um dos quadros clínicos mais comumente encontrados na prática médica. Em relação à distribuição da Distimia entre homens e mulheres, o transtorno é relativamente mais freqüente em mulheres, embora não tanto como acontece na Depressão Maior, onde a proporção é de 2:1.

A despeito da imensa população de distímicos, esses pacientes não procuram ou relutam muito em procurar tratamento específico para a questão emocional, apesar de se manterem sempre muito queixosos e insatisfeitos com a vida. Trata-se de uma alteração afetiva bastante incômoda, não só do ponto de vista emocional, fazendo sofrer o paciente e, comumente, quem com ele convive, como também do ponto de vista orgânico, se manifestando por inúmeros sintomas físicos, os quais acabam fazendo com que os pacientes procurem os médicos com queixas vagas e mal definidas, tais como mal-estar, letargia e fadiga.

Por outro lado, se os distímicos relutam em procurar ajuda psiquiátrica, a maioria deles procura médicos de outras especialidades e geralmente eles não serão diagnosticados corretamente (Akiskal). Por causa disso, inúmeros exames de laboratórios são inutilmente solicitados, inúmeras consultas a especialistas são marcadas, muitos medicamentos são inutilmente consumidos.

Prováveis causas
Os mecanismos neuropsiquiátricos envolvidos na Distimia ainda não foram claramente esclarecidos, entretanto, já se pode falar em alterações nos sistemas neuroendócrinos, principalmente no eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal e hipotálamo-hipófise- tireoidiano, tal como acontece nas doenças depressivas em geral.

De fato, os dados do eletroencefalograma (EEG) durante o sono e as anormalidades nos testes dos neuro-hormônios TRH-TSH das pessoas distímicas mostram os mesmos padrões neurofisiológicos encontrados no Transtorno Depressivo Maior, reforçando assim a natureza constitucional do transtorno (Akiskal).

A ideia da semelhança se reforça pelo envolvimento dos sistemas de alguns neurotransmissores e neuroreceptores, tal como também acontece nas doenças depressivas em geral, pela resposta positiva aos medicamentos que aumentam a disponibilidade de serotonina, noradrenalina e dopamina.

A causa da Distimia, como tantos outros quadros afetivos, é multifatorial. Entre esses múltiplos fatores destacam-se a hereditariedade, predisposição biológica, traços de temperamento, estressores vivenciais, entre outros. Eventos de vida estressantes na infância podem ter um papel importante no perfil afetivo distímico do adulto, segundo alguns pesquisadores (Hayden, Lizardi). Tal como se diz para as doenças depressivas, a origem da Distimia será biopsicossocial.

A grande taxa de comorbidade com outras doenças psiquiátricas (cerca de 77% dos distímicos terão comorbidades psiquiátricas) torna ainda mais importante o diagnóstico da distimia para o manejo adequado das psicopatologias comórbidas.

A Distimia é uma forma de depressão crônica, não-episódica, de sintomatologia menos intensa do que as chamadas depressões maiores. O padrão básico desses pacientes é um baixo grau de sintomas, os quais aparecem insidiosamente, na maioria dos casos antes dos 25 anos. Apesar dos sintomas mais brandos, a cronicidade e a ausência do reconhecimento da doença fazem com que o prejuízo à qualidade de vida dos pacientes seja considerado maior do que nos demais tipos de depressão.

Os pacientes com transtorno distímico frequentemente são sarcásticos, niilistas, rabugentos, exigentes e queixosos. Eles podem ser tensos, rígidos e resistentes às intervenções terapêuticas, embora compareçam regularmente às consultas. Como resultado dessas características desagradáveis, o médico pode sentir-se irritado com o paciente e até mesmo desconsiderar suas queixas.

Apesar de o transtorno cursar com um funcionamento social relativamente estável, essa estabilidade é relativa, visto que muitos desses pacientes investem a energia que têm toda no trabalho, nada sobrando para o prazer e para as atividades familiares e sociais, o que acarreta atrito conjugal característico.

Ballone, GJDistimia, in. PsiqWeb, Psiquiatria Geral, disponível na Internet em http://www.psiqweb.med.br/, revisto en 2015.

Referências
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