Eutimia – humor normal

De fato, falando dA Tranquilidade da Alma, Sêneca fala do perfil afetivo da personalidade e das alterações humorais que afligem os portadores de transtornos afetivos. Se o sentido atribuído por Sêneca à tranquilidade está claro, que sentido ele atribuía à Alma?

A palavra grega Eutimia significa humor normal (eu=normal; timo=humor). A partir da última CID (Classificação Internacional das Doenças da OMS) aparece o termo Distimia (dis=alteração + timia = humor), classificado como um dos tipos de Transtorno Persistente do Humor, onde a principal característica é a tendência constitucional do paciente em viver sob uma tonalidade afetiva tendendo à depressão durante a maior parte do tempo. Por isso está incluída nos transtornos ditos persistentes.

Saber exatamente quando o termo Eutimia aparece na história dos sintomas humanos é difícil, mas na obra do filósofo romano Sêneca (4aC-65dC) podemos ter uma ideia da importância do equilíbrio do humor na vida das pessoas.

Em A Tranquilidade da Alma, Sereno pede à Sêneca uma orientação sobre importante questão existencial, perguntava o que fazer com uma espécie de inconstância da alma que o incomodava. Sêneca responde que – “o objeto de tuas aspirações é, aliás, uma grande e nobre coisa, e bem próxima de ser divina, pois que é a ausência da inquietação.

Os gregos chamam este equilíbrio da alma de “euthymia” e existe sobre este assunto uma muito bela obra de Demócrito. Eu chamo de “tranquilidade” pois é inútil pedir palavras emprestadas para nosso vocabulário e imitar a forma destas mesmas: é a ideia que se deve exprimir, por meio de um termo que tenha a significação da palavra grega, sem no entanto reproduzir a forma.”

Portanto, pode ter sido esta uma das primeiras vezes que se conheceu a palavra Eutimia, para a qual Sêneca encontra como correspondente latino a ideia de tranquilidade ou a ausência de inquietação.

Em seguida, Sêneca diz o que entende por tranquilidade: “Vamos, pois, procurar como é possível à alma caminhar numa conduta sempre igual e firme, sorrindo para si mesma e comprazendo-se com seu próprio espetáculo e prolongando indefinidamente esta agradável sensação, sem se afastar jamais de sua calma, sem se exaltar, nem se deprimir. Isto será tranquilidade“.

Neste trecho, definitivamente Sêneca considera a Eutimia (ou sua tranquilidade) como um estado de espírito equilibrado, entre sem se exaltar, sem se deprimir e sem se afastar da calma. Essa ideia de equilíbrio sensato deve ter sido baseado na definição de Aristóteles sobre a virtude, que para ele era a equidistância entre dois vícios, um por excesso e outro por falta.

Sêneca descreve pessoas vitimadas pela inconstância do humor, portanto, pessoas que se afastam da Eutimia, como se fosse um discurso atual mostrando que os estados emocionais angustiantes do homem moderno não são, definitivamente, monopólio de nosso tempo.

Para todos os doentes o caso é o mesmo: tanto tratando-se daqueles que se atormentam por uma inconstância de humor, seus desgostos, sua perpétua versatilidade e sempre amam somente aquilo que abandonaram, como aqueles que só sabem suspirar e bocejar. Acrescenta-lhes aqueles que se viram e reviram como as pessoas que não conseguem dormir, e experimentam sucessivamente todas as posições até que a fadiga as faça encontrar o repouso: depois de ter modificado cem vezes o plano de sua existência, eles acabam por ficar na posição onde os surpreende não a impaciência da variação mas a velhice, cuja indolência rejeita as inovações. Ajunta, ainda, aqueles que não mudam nunca, não por obstinação, mas por preguiça, e que vivem não como desejam, mas como sempre viveram.”

Vemos claramente neste texto os tipos psicológicos dos depressivos clássicos, que amam aquilo que abandonaram, os deprimidos ansiosos, que se viram e reviram, os distímicos mal adaptados que rejeitam inovações e não suportam o amadurecimento e os depressivos introvertidos, apáticos por natureza. Mais um trecho, onde diz:

Há, enfim, inúmeras variedades do mal, mas todas conduzem ao mesmo resultado: o descontentamento de si mesmo. Mal-estar que tem por origem uma falta de equilíbrio da alma e das aspirações tímidas ou infelizes, que não se atrevem a tanto quanto desejam, ou que se tenta em vão realizar e pelas quais nos cansamos de esperar. É uma inconstância, uma agitação perpétua, inevitável, que nasce dos caracteres irresolutos…”

De fato, falando dA Tranquilidade da Alma, Sêneca fala do perfil afetivo da personalidade e das alterações humorais que afligem os portadores de transtornos afetivos. Se o sentido atribuído por Sêneca à tranquilidade está claro, que sentido ele atribuía à Alma?

Vinte séculos depois de Sêneca, Karl Jaspers também entendia a Alma humana como um atributo mental responsável pela consciência existencial do ser e da realidade. É a parte sublime e sensível de nosso ser, a parte que transcende o objeto, que abstrai e vai além do significado simples das coisas, diz respeito mais ao significante e ao subjetivo que ao significado e objetivo. Na realidade, percebemos a vida pelos órgão dos sentidos (senso-percepção) mas, de fato, sentimos a vida através da Alma.

Em termos qualitativos poderíamos avaliar a Alma da mesma forma como avaliamos a qualidade da consciência e, entre tantas variáveis que influem na qualidade da consciência, teríamos de destacar também as disposições individuais que caracterizam a maneira como as pessoas representam o mundo e a si próprias.

Dependendo da maneira como nossa consciência representa a existência, nossa e do mundo, reagiríamos emocionalmente, vivendo dessa ou daquela maneira. Sobre predisposições Sêneca alertava para a necessidade de “examinar se nossas disposições naturais nos tornam mais aptos para a ação ou aos trabalhos sedentários e à contemplação pura“.

No âmago da questão vivencial conclui-se que a existência é sentida mais pelas representações que a pessoa tem do mundo e pelos sentimentos desencadeados por essas representações, do que da vida e do mundo em si mesmos. Assim sendo, a responsabilidade pelos sentimentos não pode recair exclusivamente sobre o teor dos fatos, objetos e acontecimentos. Esses sentimentos dependem fortemente da Alma do sujeito que vivencia tais acontecimentos, dependem daquilo que esses acontecimentos representam exatamente ao sujeito.

Uma flor pode representar algo diferente para diferentes pessoas, representações que ultrapassam o significado do simples objeto flor; pode representar um mimo comemorativo, uma paixão, uma mercadoria comercial, um objeto de estudo científico…

De modo geral podemos dizer que o valor representativo dos objetos (o significante das coisas), nasce e flui do sujeito em direção ao objeto e não ao contrário, como somos levados a crer. Os acontecimentos podem estimular sentimentos diferentes em diferentes pessoas; um selo perdido, por exemplo, pode estimular sentimentos diferentes entre um filatelista e um botânico, assim como a morte de uma árvore terá representações diferentemente entre os dois. Quando temos consciência de que estamos tomando algum medicamento, seu efeito pode não depender apenas do real valor terapêutico do mesmo, dependerá também daquilo que o medicamento representa para o sujeito.

Sêneca

seneca

Nascido em Córdoba entre os anos 4 e 1 a.C., Lucius Annaeus Sêneca era a própria imagem de sua época. Segundo filho de Sêneca, o Orador, e por isso também conhecido como Sêneca, o Jovem, mudou-se cedo para Roma. Tinha um vivo interesse pela filosofia dos mestres, como o estóico Átalo, ou o pitagórico Sótio. Para eles, a moral tinha prioridade absoluta. Sêneca conseguiu se destacar em uma sociedade cuja elite valorizava um mesmo ideal: ser orador.

Em torno da eloqüência organizavam-se reuniões de salão e leituras públicas. Sêneca fez parte da Corte romana, e se comprazia em uma vida requintada que não combinava com seus ensinamentos. Não se deixar corromper, não ser tentado pelo luxo e pela luxúria, levar uma vida simples e honesta: essa era a sua filosofia. Mas não sua vida. Foi mais retórico que estóico, mais trapaceiro que honesto e mais ligado ao artifício que à verdade.

Nero ordenou a condenação de Sêneca à morte. Tiberius Plautius Silvanus Aelianus, que também havia feito parte da conspiração, mas tinha o pudor de não se mostrar em público, mandou um de seus centuriões avisar Sêneca da sentença fatal. Fiel no fim ao estoicismo que havia ensinado durante toda a vida, Sêneca ditou seu testamento e instou os amigos que choravam a se manterem fortes. Sua esposa, Pompéia Paulina, disse-lhe que estava disposta a morrer com ele. Temendo que ela fosse ultrajada depois de sua morte, Sêneca não se opôs. A mesma lâmina cortou as veias de seus braços e dos dela. Sêneca mandou que lhe abrissem também as veias das pernas e da parte posterior dos joelhos, porque seu sangue escorria demasiado lentamente.

Sendo a Eutimia o equilíbrio do humor (ou afetivo), considera-se que neste estado a consciência da realidade vivida se acompanha de sentimentos equilibrados, nem exaltados e nem deprimidos, portanto, como queria Sêneca, com tranquilidade. Dessa forma, a Tranquilidade da Alma será um estado ou uma certa disposição de nosso espírito (ou consciência) para com a vida, de forma a atribuirmos para as coisas e para os fatos da vida valores compatíveis com nosso bem estar.

No ser humano a relação entre a consciência e o sentimento é tão íntima que à cada consciência deve corresponder, obrigatoriamente, algum sentimento. A neurociência tem se esforçado em explicar o aspecto neurológico da consciência, sendo o modelo das assembleias neuronais um dos mais creditados atualmente. Segundo esse modelo, os neurônios são capazes de se associarem rapidamente, formando grupos (assembleias) funcionais para realizarem uma determinada tarefa. Uma vez que esta tarefa esteja terminada, o grupo é dissolvido e os neurônios novamente ficam aptos a se engajarem em outras assembleias para cumprirem uma nova tarefa e assim, continuamente, as consciências vão se sucedendo . Evidentemente os sentimentos vão acompanhando as consciências que temos da nossa realidade.

A dúvida (entre muitas) que os psiquiatras experimentam é acerca da valorização emocional e pessoal dessa consciência. Seria a atribuição da Alma de valorizar tudo aquilo que é vivido, simultânea ou posterior à consciência que se tem do vivido? Em termos mais neurocientíficos, os sentimentos seriam anteriores, simultâneos ou posteriores às assembleias neuronais constituídas?

Se os sentimentos, sejam de alegria, tristeza, prazer, ansiedade, angústia, medo, tédio, júbilo, etc., fossem simples respostas do afeto à sucessão de fatos e acontecimentos da realidade, então tais sentimentos seriam simultâneos ou posteriores e proporcionais à consciência que temos da realidade. Se fosse tão lógica a resposta dos sentimentos aos fatos, seria obrigatório e automático a pessoa experimentar sentimentos agradáveis em resposta aos estímulos (consciências) agradáveis e, inversamente, sentimentos desagradáveis aos estímulos desagradáveis.

Mas não é isso que se observa sempre. Há pessoas que ao tomarem consciência do vivido experimentam sentimentos variados, depressivos, angustiosos ou ansiosos, de forma quase emancipada do valor objetivo dos fatos, dos objetos e eventos. Essa não-concordância absoluta dos sentimentos aos acontecimentos explica porque uma promoção profissional, por exemplo, para alguns é recebida com sentimentos de satisfação e para outros com sentimentos de medo ou de desespero. Também poderia responder porque o nascimento de um filho pode ser acompanhado de grande alegria, de angústia patológica ou depressão pós-parto, dependendo da pessoa que vive esse acontecimento.

Pessoas que não gozam da Eutimia, que não vivem a tranquilidade da Alma, têm disposições afetivas que favorecem uma consciência predominantemente sofrível, temerária ou negativa do que é vivido. Pensando na tonalidade do humor ou tônus afetivo como uma espécie de matizes sentimentais prévias a colorir a consciência da realidade.

Trazendo tão complexo tema para a simplicidade da cultura popular, cabe a indagação  se “é a situação que faz o ladrão ou se, de fato, o ladrão já está feito e esperando o melhor momento para roubar?

EMOÇÕES E SENTIMENTOS

O que são Emoções e o que são Sentimentos? Emoções são complexos psicofisiológicos que se caracterizam por súbitas rupturas de curta duração no equilíbrio afetivo com repercussões consecutivas sobre a integridade da consciência e sobre a atividade funcional de diversos órgãos.

Por outro lado, Sentimentos são estados afetivos mais duráveis, mais atenuados que as emoções em sua intensidade vivencial, geralmente revestidos de ricas e nobres tonalidades intelectuais e morais e não acompanhados, obrigatoriamente, de correspondentes sintomas orgânicos dignos de nota.

Admite-se que os Sentimentos possam provir das emoções que lhes são cronologicamente anteriores e com as quais guardam correlações compreensíveis, quanto aos seus conteúdos respectivos.

As emoções podem ser divididas em: Primárias, Secundárias, Mistas e Espirituais, conforme vão se afastando da sensação e se aproximando da espiritualidade. Há uma tendência biológica, portanto uma tendência animalesca, de fazer com que os sentimentos e emoções regridam à níveis inferiores sempre que houver ameaças concretas e diretas à sobrevivência.

Isso quer dizer que podemos regredir da cordialidade e polidez para a cólera ou estado de choque diante de uma ameaça brutal à sobrevivência.

Diz um ditado que “quando a miséria entra pela porta da frente a virtude sai pela janela”. Pois bem. O que diferencia os seres humanos, já que todos temos esse potencial de regredir na escala das emoções, é o limiar além do qual cada um permite “sua virtude sair pela janela”.

Os sentimentos são mais atenuados em sua intensidade vivencial e em seus concomitantes fisiológicos (corporais) em comparação à exuberância das emoções. Intimamente entrelaçados com as sensações e as emoções, os sentimentos se mostram muito mais duradouros, além de infinitamente mais numerosos e variados que os estados afetivos básicos dos quais se originam.

Assim, da emoção primária de choque-pânico, provém emoções mistas (espanto, susto, terror…) e, destas, os sentimentos de insegurança, desconfiança, receio, medo, etc.; da emoção colérica, resultam vivências emocionais impulsivo-agressivas, bem como sentimentos de vingança, ódio, rancor, crueldade . . . ; da emoção afetuosa, originam-se reações emocionais de envaidecimento e de autoestima elevada, sentimentos de simpatia, cordialidade, compaixão, amizade, amor, sob todas as suas formas (de pessoa a pessoa, à família, à pátria, a Deus, à ciência, à arte, à liberdade, à humanidade, etc.); enfim, das emoções secundárias, de desprazer e mal-estar, de um lado, e de prazer e bem-estar, do outro, também, derivam, respectivamente, sentimentos de pesar, tristeza, desgosto, asco, aversão, desespero. . . ; bem como os sentimentos de júbilo, alegria, esperança, satisfação, felicidade, etc.

 

Emoções e sentimentos simples e puros se observa na infância mas, com a puberdade e adolescência, esses elementos se associam indefinidamente, combinando-se de modo crescente e resultando sentimentos muito mais complexos.

A afirmação juvenil da sexualidade e o processo de integração social do adolescente proporcionam questionamentos de muitos valores instituídos na infância, levando à adoção e introspecção de valores novos, que alteram profundamente o sistema referencial do indivíduo (sistema de valores) ampliando e enriquecendo, cada vez mais, a sua vida afetiva e, por fim, favorecendo o desenvolvimento dos chamados sentimentos espirituais. Estes últimos imprimem a feição final do quadro afetivo geral da psique humana e constituem, a bem dizer, a principal característica de nossa espécie.

Esses sentimentos (valores) espirituais permitem ao homem, com exclusividade, elevar-se continuamente no plano das ideias, dos juízos e dos atos e, com isso, caracterizar a totalidade de seu comportamento social.

A REPRESENTAÇÃO da realidade, então, determinará a significação das coisas no âmbito de cada camada afetiva (Primárias, Secundárias, Mistas e Espirituais). Isso não quer dizer que essas categorias sejam herméticas ou estanques.

para referir:
Ballone GJEutimia- in. PsiqWeb, Internet – disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2015.

REFERÊNCIAS
1. Os Pensadores, Vol. V, Abril Cultural, S. Paulo, 1973, p.192
2. SÊNECA, Sobre a Brevidade da Vida, trad. William Li, Novalexandria, S.Paulo, 1993.
3. AERTSEN A, DIESMANN M, GRŸN S, ARNDT M, GEWALTIG MO.: Coupling dynamics and coincident spiking in cortical neural networks. In: Supercomputers in Brain Research: pp 213-223. Herrmann H, et al.(eds). Singapore, World Scientific Publ., 1995.
4. AERTSEN A, ERB M, PALM G.: Dynamics of functional coupling in the cerebral cortex: a model-based interpretation. Physica D 75:103-128, 1994