A histeria de todos nós

O histrionismo (atitude histérica) sempre existiu na história humana, sempre acompanhou o ser humano desde sua introdução na vida gregária.

A histeria é um padrão psíquico e comportamental eminentemente humano, atribuído universalmente a todas as pessoas em doses variáveis. Grosso modo, trata-se de uma espécie de desonestidade mental das pessoas para com os outros e para consigo próprias, um tipo de hipocrisia fisiológica à qual todos estamos condenados.

Para entender bem a teatralidade inata de cada um é importante refletir sobre o Ego humano, princípio de todas nossas dificuldades de relacionamento com os outros e conosco mesmos.

A compreensão do Ego é importante para o entendimento de todos os aspectos da convivência social, da violência em todas suas formas, das frustrações pessoais, enfim, estudando o Ego, estaremos estudando como se conduz o ser humano em sua vida.

Os desejos da intimidade sincera do sujeito e os recursos que seu Ego dispõe para conseguir esses objetivos pode acontecer sob certa teatralidade, variavelmente dissimulada entre as pessoas.

Para compreender a fisiologia do potencial histérico de todos é importante reconhecer existirem três maneiras da pessoa ser: como ou o que é para si mesma; como ou o que é para o outro e; como é de fato ou essencialmente.

1- Como a pessoa é representada para si mesma
O que a pessoa representa para si mesma é a chamada Autoestima. É como se a pessoa olhasse em um espelho hipotético e pudesse auto avaliar-se de forma global, em todos os sentidos.

Normalmente há discrepância entre aquilo que a pessoa acha que é e aquilo que os outros pensam que ela é. Em alguns casos não há uma “pequena discrepância” mas uma grande diferença entre a maneira como a pessoa se representa, daquilo que os outros acham que é.

Quando isso acontece e origina algum sofrimento, seja da própria pessoa ou de quem a rodeia, acaba causando alguma dificuldade adaptativa e se constituirá em um quadro patológico. Veja, por exemplo, a anorexia nervosa, onde a pessoa se representa gorda quando na realidade costuma ser magérrima. Aqui estão incluídas também as dismorfofobias ou alterações do esquema corporal, que são representações patológicas da autoimagem.

Mas a representação que a pessoa faz dela mesma não é, evidentemente, apenas estética. Trata-se de uma auto-avaliação global, envolvendo o desempenho global da pessoa; como considera sua competência, sua sensação de ser gostado, sua sorte, sua saúde física, seus atributos (positivos ou negativos), enfim, seriam as notas que a pessoa se auto atribui em todos aspectos de sua existência.

Na depressão, por exemplo, a autoestima tem discrepância para baixo, em relação àquilo que a pessoa é, enquanto nos estados eufóricos a discrepância é para cima. Nesse caso a pessoa se representa de maneira muito mais valorizada do que de fato é. Evidentemente a desadaptação dos eufóricos se dá na empáfia, arrogância, orgulho desmedido, tendência à humilhar, querelância e assim por diante.

Os narcisistas, de acordo com traços de sua personalidade, têm sua própria autoestima muito ampliada de acordo com valores idealizados. Eles tendem a insistir em ser atendidos apenas pelos “melhores” (médicos, advogados, instrutores, cabeleireiros) ou em afiliar-se às “melhores” instituições, mas podem desvalorizar as credenciais daqueles que os desapontam.

Normalmente os narcisistas exigem admiração excessiva, mas sua autoestima é, quase invariavelmente, muito frágil. Eles podem preocupar-se com o modo como estão se saindo e no quanto são considerados pelos outros. Isto tudo assume frequentemente a forma de necessidade constante atenção e admiração, tal qual as atitudes dos histéricos ou histriônicos.

Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquiva, devido a seus sentimentos de inadequação e baixa autoestima, demonstram inibição em situações interpessoais. Estão sempre em dúvida sobre sua competência social e atrativos pessoais, principalmente em situações que envolvem interações com estranhos. Essas pessoas se consideram socialmente ineptas, sem atrativos pessoais ou inferiores.

Hysteria by Terry Johnson performed at the Hampstead Theatre...Hysteria at Hampstead Theatre
Lydia Wilson as Jessica, Antony Sher as Freud, David Horovitch as Yahuda, Adrian Schiller as Dali
Alastair Muir

Há tempos destaquei uma breve e precisa descrição a Neurose Histérica no site Ansiedade.Com . Veja um trecho:

“… com certeza é a forma mais tradicional, conhecida e falada de neurose. Esta fama se deve a 2 grandes investigadores da mente humana que foram Charcot e Freud. A histeria também foi a principal doença investigada por Freud e que acabou dando origem a Psicanálise. A histeria pode ser dividida em duas manifestações fundamentais, a histeria conversiva e a histeria dissociativa.

Freud explica a histeria conversiva da seguinte maneira: Na histeria conversiva haveria um conflito inconsciente, uma ansiedade que não consegue emergir para o consciente por mecanismos repressivos da própria mente(Superego) mas que contem uma energia que precisa se manifestar e acaba eclodindo como um sintoma físico que mantém uma relação simbólica com o conflito.

Está achando complicado, então eu vou trocar em miúdos. Imagine que você tem ódio de seu irmão ou de seu pai. As vezes até com razão, mas imagine também que você recebeu uma educação super rígida onde o que se ensinou que é muito negativo ter ódio.

Você sente culpa por estes sentimentos e acha que não pode mostra-los, ao mesmo tempo em que seu ódio por seu pai vai aumentado, e você sente (embora não tenha consciência) que deseja dar um soco nele. De repente pinta o sintoma histérico conversivo, uma paralisia do braço, não conseguindo mexe-lo e portanto não podendo concretizar o seu desejo proibido inconsciente. Acho que agora deu pra entender o que é a histeria conversiva.”

histeri

Taciana de Melo Mafra faz uma comunicação preliminar sobre psicanálise, abordando enfaticamente o problema da Histeria. Veja um trecho:
“… E foi Charcot, médico francês, quem suspeitou de que certas paralisias ocorridas após um trauma, eram de natureza histérica. A partir daí demonstrará que pela sugestão de um trauma, sob hipnose, podia provocar artificialmente paralisias do mesmo tipo, o que causou a expectativa de que influências traumáticas poderiam produzir sintomas histéricos. Não se esforçou, no entanto, no sentido de uma compreensão psicológica da histeria, o que fez seu aluno, Pierre Janet, que retomou a questão e demonstrou com a hipnose que os sintomas da histeria dependiam de certos pensamentos inconscientes, atribuindo à histeria uma suposta incapacidade constitucional de manter reunidos processos mentais – incapacidade que levava a uma desintegração (dissociação) da vida mental.

No entanto, não vem de Janet as bases da psicanálise e sim, segundo Freud, do médico vienense Josef Breuer, que com o auxílio da hipnose estudou e restituiu a saúde a uma jovem que sofria de histeria. Só quinze anos mais tarde com a investigação e elaboração de Freud é que a comunicação desse caso veio a público, com o nome de Anna O.

Breuer comparava as causas dos sintomas com os traumas de Charcot. Para ele essas causas se perdiam na memória como se jamais houvessem acontecido, enquanto os sintomas – seus produtos – persistam como se o tempo não os apagasse, no lugar do que se apagou. …

Na década de 1890 Freud confirma os êxitos da técnica de Breuer em considerável número de pacientes e ambos decidem publicar juntos, “Estudos sobre Histeria” (1895), coletânea de suas descobertas e tentativa de teorização nelas baseadas.” Veja o texto todo

2 – Como a pessoa é para os outros
O que a pessoa representa para os outros será sempre reflexo de sua atitude interpessoal ou postura social. Esse desempenho chama-se Papel Social. Os Papeis Sociais são as interpretações do sujeito consoantes ao que se espera dele nas diversas situações do cotidiano. A pessoa se apresenta de diferentes formas na praia, no velório, no trabalho, no futebol e assim por diante.

Entende-se os Papeis Sociais como se fossem as roupas com as quais as pessoas se apresentam aos outros. Normalmente, em nome do bom senso, a pessoa deve se apresentar adequadamente às expectativas de seu público, portanto, de alguma forma estará quase sempre desempenhando algum tipo de papel atendendo seus expectadores, mais precisamente, de acordo com a expectativa cultural.

Para o sucesso do ser humano social há uma imperiosa necessidade da pessoa se apresentar ao outro através de uma identidade social adequada. Não se vai à praia com traje social e nem à um casamento de maiô. Embora isso seja democraticamente possível, corre-se o risco de uma internação psiquiátrica.

A função dos Papeis Sociais está relacionada à identidade da pessoa em seu meio social, uma maneira desejável de se apresentar aos seus semelhantes e assegurar uma identidade mais aceitável possível. Para Jung, os Papeis Sociais significam a Persona.

Embora a pessoa deva estar sempre adequada às circunstâncias através de comportamentos, atitudes, indumentárias, postura, ela continua sendo essencialmente a mesma; é a mesma pessoa que se apresenta formalmente para um jantar de gala e se apresenta descontraidamente na praia.

Ao logo do dia a pessoa desempenha vários Papeis Sociais; de pai, de filho, esposo ou irmão, de pessoa compreensiva e amável, de motoristas arrojados no trânsito, empresários ardilosos no banco, compradores exigentes ou vendedores flexíveis e assim por diante.

O simples vestuário pode modificar a identidade da pessoa para seus observadores, de forma que, vestindo roupas sociais (terno e gravata) não será considerada da mesma maneira como se estivesse usando apenas roupas íntimas, embora seja a mesma pessoa.

O sucesso social da pessoa, valorizado como um verdadeiro fascínio cultural, é conquistado na proporção de um desempenho basicamente histriônico, artístico, de certa forma histérico. Quanto mais satisfeita for a expectativa do espectador, maiores as chances de sucesso social.

O risco psíquico dos papeis sociais está no fato da pessoa poder confundir ela própria com o papel social que desempenha. Como diz a música de Chico Buarque, … “quem brincava de princesa acostumou com a fantasia…”

Para evitar transtornos da adaptação e frustrações no convívio com os demais, a pessoa deve ter sempre a clara noção do ponto onde termina seu Papel Social e começa sua própria pessoa.

A sociedade define e caracteriza os diversos papeis sociais e, ao assumi-los, as pessoas devem se enquadrar naquilo que seus espectadores esperam delas. Caso contrário correm o risco de serem excluídas do cenário social e devidamente apenadas.

Por isso, acredita-se que o melhor modo de alguém se tornar um certo tipo de pessoa, é atribuir-se características do papel social desejado. Dizendo à criança que ela é uma boa criança, a tendência é que assuma, de fato, o papel de boa criança. E o inverso parece ser verdadeiro. O soldado deve ser corajoso, o filho amoroso, a sogra ciumenta, o psiquiatra compreensivo, o financista frio, o sacerdote atencioso, e assim por diante e, porque se espera deles essas características, assim serão.

3- Como a pessoa é de fato
Por mais que a pessoa queira representar-se maior do que é, menor do que é ou diferente do que é, de uma realidade ela não consegue escapar: ela é, de fato, mais um representante da espécie humana, tanto quanto o são todos outros mais de sete bilhões de semelhantes. Esse aspecto do ser (ser humano) desaponta algumas pessoas que se julgam muito diferentes, especiais. Estamos falando da essência humana e não da função humana; somos todos essencialmente iguais e funcionalmente diferentes.

Portanto, essencialmente falando, a personalidade de uma pessoa tem os traços encontrados em todas as demais pessoas. Não faz parte da personalidade algum traço alienígena que não exista no restante da humanidade. O que torna uma pessoa única não é algum traço diferente, mas sim a combinação exclusiva e peculiar dos traços da personalidade humana naquela determinada pessoa de forma a torná-la única.

Se fosse possível listar todas as características do ser humano, tais como lealdade, ambição, fraternidade, inveja, maldade, companheirismo, egoísmo, caridade, etc., veríamos que esses infindáveis atributos, independentemente de seus méritos e deméritos, existem todos em todas as pessoas.

Acontece que todas essas características se combinam entre si para constituir uma personalidade particular, umas características (traços) sobressaindo-se à outras, algumas se manifestando em quantidades diversas, algumas permanecendo dormentes, enfim, todas se arranjam de forma a tornar a pessoa única.

A pessoa é, de fato e essencialmente, uma organização dinâmica dos traços no interior do eu, sobre os quais se assentam as experiências singulares vividas e as percepções individuais do mundo e esse conjunto é capaz de tornar cada indivíduo único em sua maneira de ser e de sentir a vida.

Alguns dos traços mais primitivos e instintivos são domesticados e passam a se apresentar socialmente dissimulados através dos papeis sociais. A gula, a avidez, a sedução, a inclinação para a posse e o orgulho, por exemplo, podem ser perfeitamente domesticados e se apresentarão através dos mais variados subterfúgios sociais. A gula em bom apetite, a avidez em determinação, a sedução em simpatia, a inclinação para a posse em ambição e o orgulho em exercício de seus direitos.

Da mesma forma, a vingança, a ira e a crueldade podem vestir uma roupagem de justiça, o sentimento de culpa e a inclinação à barganha com vantagens podem se apresentar socialmente como atitudes caridosas e filantrópicas.

Normalmente existe uma tendência em recriminar nos outros aquilo que a pessoa não consegue ou não se permite fazer. Causa profundo constrangimento e irritação observar nos outros a manifestação livre de alguns traços primitivos, os quais não costuma ser permitido usar escrachadamente. Entretanto, uma avaliação sincera mostra que o julgador possui também esses mesmos traços, apenas não se permite usá-los.

A frustração de ver nos outros atitudes que a pessoa não se permite, mas que pululam em suas pulsões subterrâneas, se transforma em ressentimento dissimulado em rótulos socialmente enobrecedores, tais como “prefiro ficar com a consciência tranquila” ou “isso está moralmente errado“, ou finalmente, “quero estar de bem com Deus“.

É o caso, por exemplo, do sentimento de rancor ao constatar, num congestionamento de trânsito, pessoas que passam pelo acostamento e deixam para trás e paradas todas as demais. O desejo geral é que os contraventores encontrem um caminhão parado no acostamento que os impeça de prosseguir ou que tenha lá um policial austero e multe todos eles. Existe também em todos a pulsão de se desvencilhar do congestionamento, tanto quanto existe nas pessoas que fazem valer efetivamente essa inclinação.

Poderíamos comparar esse “O que a pessoa é de fato” com a figura junguiana da Sombra. Para Jung a Sombra inclui as tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a manifestação pública da Persona (Papel Social) e contrárias aos padrões e ideais sociais. E esse “O que a pessoa é de fato” representaria não apenas as peculiaridades humanas impossíveis de serem demonstradas em estado bruto, mas também os atributos meritosos, como a necessidade de carinho, de amor, de compreensão, etc.

A essência bruta do ser humano, ou que ele é de fato, foi muito bem descrita através daquilo que Thomas Hobbes chamava de “Estado Natural do ser humano”. São os valores éticos, a moral e as normas sociais que acabam por lapidar as pulsões naturais de forma à podermos viver em sociedade.

Excluindo-se aberrações e anomalias de nossa espécie, somos o mesmo que o outro, tão humano quanto ele, tão ávidos de prazeres, tão necessitados de bem-estar quanto ele e, se alguma grande diferença pode ser observada, é o fato de estarmos do lado de cá do balcão e ele, o outro, do lado de lá. Como o tema desse caderno especial é a Histeria, pode-se dizer, sem nenhum medo de errar, que o traço histriônico está presente em graus variados em todos nós.

O Conceito de Normalidade
A psicopatologia e a validade do diagnóstico clínico na perspectiva humanista é um brilhante artigo de Leon Gonzaga de Vasconcelos Lopes. Ele fala sobre os conceitos de normalidade. Veja um trecho:

A normalidade é concebida, por um lado, como a ausência de patologia, e , por outro, como a conformidade com o tipo médio. Vale ressaltar que a média é uma medida estatística, puramente descritiva e operacional, que tende a ser considerada como regra e como valor, podendo proporcionar uma interpretação equivocada, uma vez que não leva em conta as singularidades, as dissidências e as anomalias, baseando-se em valores atribuídos ao indivíduo e ao comportamento, cuja função é avaliar e detectar a utilidade social das condutas e dos indivíduos (Doron & Parot, 2000). No quadro de conceituação da normalidade, existem diversos referenciais que podem ser considerados como critério para a diferenciação entre o normal e o patológico. Entre eles, podemos mencionar, as quatro principais perspectivas do enfoque das ciências comportamentais e sociais para à normalidade, formuladas por Offer e Dabshin (Kaplan, 1997). São elas:

– Normalidade como saúde: é fundamentado no enfoque psiquiátrico tradicional que diferencia saúde e de doença. “A maioria dos médicos iguala normalidade com saúde, e vêem a saúde como um fenômeno quase universal” (Kaplan, 1997, p.18). Entende-se, desta maneira, que os sinais e os sintomas que estejam em “desajuste” com o que é comum (ou normal), são um sinal de que algo está errado (ou é anormal). Por outro lado, a falta de sinais e sintomas indicaria um organismo saudável.

– Normalidade como média: é baseada em uma média estatística dos estudos normativos do comportamento, na qual traços da personalidade são entendidos como um meio de medida estatística ou de medida padronizada do comportamento, como no psicodiagnóstico. A variabilidade restringe-se ao contexto de grupos e não no contexto singular. “Neste modelo presume-se que as tipologias de caráter podem ser medidas estatisticamente”(Kaplan & Sadok, 1998).

– Normalidade como processo: admite esta concepção que o comportamento está relacionado a situações ou a fases de desenvolvimento da personalidade, cada estágio é possuidor de características intrínsecas. A temporalidade é essencial para uma definição completa de normalidade. A teoria que mais caracteriza esta visão é a de Erik Erikson, que aborda os oito estágios evolutivos imprescindíveis para a conquista de um funcionamento adulto maduro, onde o comportamento normal é caracterizado como o resultado final de sistemas que interagem entre si.” Fonte

Para referir:
Ballone GJ A histeria de todos nós – in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.net/, revisto em 2015.