Acumuladores compulsivos

Acumulação compulsiva é um transtorno emocional com fortíssima repercussão comportamental e cognitiva caracterizado por recolhimento excessivo e incapacidade para descartar coisas, geralmente sem utilidade.

A acumulação compulsiva, colecionismo ou disposofobia (fobia em dispor das coisas), consiste na aquisição ou recolha ilimitada de objetos de pouca ou nenhuma utilidade, muitas vezes já deixados no lixo por outras pessoas. A acumulação compulsiva também é conhecida como Síndrome de Miséria Senil, por muitas vezes (mas nem sempre) acometer pessoas de mais idade ou Síndrome de Diógenes, devido ao filósofo grego que vivia como um mendigo recolhia da rua inúmeros objetos sem valor. Talvez seja esse o primeiro relato de acumulação compulsiva na história.

Acumulação compulsiva é um transtorno emocional com fortíssima repercussão comportamental e cognitiva caracterizado por recolhimento excessivo e incapacidade para descartar coisas, geralmente sem utilidade. O comportamento de acumulação compulsiva geralmente causa, para a pessoa que sofre da doença e para membros da família, prejuízo emocional, social, financeiro, físico e até mesmo legal.

Os acumuladores compulsivos juntam grande quantidade de coisas, geralmente em completa desordem, ocupando áreas excessivas da casa ou do local de trabalho que fazem falta às demais pessoas. Nos casos graves o paciente começa enchendo um quarto de quinquilharias, depois outro, a sala, cozinha e logo não sobra espaço para mais nada na casa.

Algumas pessoas acumuladoras compulsivas podem não ter senso crítico da anormalidade e morbidade de sua atitude, mas, não obstante, seu comportamento costuma ser angustiante para outras pessoas, como por exemplo familiares, vizinhos, amigos.

Muitas vezes a pessoa acumuladora compulsiva perde o controle para organizar e selecionar seus objetos acumulados gastando todo seu tempo disponível nessa atividade completamente estéril. Dessa forma as coisas acumuladas passam a dominar sua vida, a qual parece fazer sentido apenas para adquirir compulsivamente mais coisas sem jamais conseguir se libertar delas.

Existe uma clara separação entre o acumulador compulsivo e o colecionador. Mesmo que o colecionador seja compulsivo para adquirir objetos de sua coleção, como selos, carros, borboletas, bonecas, games, bichos de estimação, relógios, etc., ele tende a organizar os objetos racionalmente, respeita sensatamente o espaço, os valores e as possibilidades práticas de aquisição. Os acumuladores compulsivos, por sua vez, são incapazes de organizar o seu espaço de convivência, perdem o autocontrole para adquirir ou de se desfazer das coisas.

Acumulação Compulsiva e TOC 
Há uma tendência em aceitar a hipótese da acumulação compulsiva ser uma síndrome separada do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), mas com alta comorbidade com ele e com outras patologias emocionais, como por exemplo, quadros fóbico-ansiosos e depressivos (Samuels). Alguns autores perceberam que pacientes com acumulação compulsiva grave nem sempre satisfaziam os critérios diagnósticos para o TOC (Grisham).

Atualmente o Transtorno de Acumulação Compulsiva está classificado isoladamente no DSM-5 (Classificação Norte-americana de Psiquiatria), como se tratasse de um distúrbio distinto do TOC, diferentemente do que se pensava antes. 

Por outro lado, a acumulação compulsiva pode ser de um sintoma de certos casos de TOC, quando recebe o nome de “colecionismo”, aparecendo em 15% a 40 % dos pacientes. Em cerca de 5% dos casos de Transtorno de Acumulação Compulsiva a doença é incapacitante (Rasmussen).

Segundo critérios de diagnóstico da DSM.5, os sintomas da doença são suficientes para causar sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou outras áreas importantes de funcionamento, incluindo a incapacidade para manutenção de um ambiente satisfatório para si e/ou para os outros.

A maioria dos pacientes com acumulação compulsiva tende a ser de mulheres e em idade mais madura. Na psiquiatria da infância e adolescência observa-se a mesma predileção, com 53% de meninas versus 36% de meninos (Mataix e cols.).

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O canal de televisão Discovery Health produziu uma série sobre acumuladores compulsivos, e começa relatando o seguinte caso:
 
“Um dos casos mais severos de acumulação extrema ou hoarding veio à luz em março de 1947, quando a polícia de Nova York foi chamada para investigar a descoberta de um cadáver em um edifício de três andares no Harlem. O lugar pertencia a dois irmãos idosos, Langley e Homer Collyer. Quando os agentes entraram no imóvel, ficaram estarrecidos com o que viram.
 
Montanhas de lixo chegavam até o teto, incluindo 14 pianos, um automóvel Ford modelo T e os restos de um feto de duas cabeças. Dentro de um sistema de sistema de túneis que usavam para andar entre os dejetos, jaziam os corpos sem vida dos idosos: um foi esmagado pelo lixo, e o outro morreu de inanição.
 
A história dos irmãos Collyer é um dos casos mais extremos de hoarding já registrados nos Estados Unidos, mas é um fenômeno mais comum do que se imagina.” 
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O site da psiquiatra dra. Vera Garcia da Silva (não encontrado mais) refere um caso clínico que exemplifica um quadro de Acumulação Compulsiva comórbido ao TOC.”Adelaide tem 50 anos, é professora universitária, solteira, sem filhos.

Chegou ao consultório em 2009 queixando-se de alternância do humor e um quadro que variou, ao longo da sua vida, entre sintomas de depressão, euforia, variação de energia, compras excessivas e desnecessárias, insônia crônica, dificuldades de organização e concentração, com lapsos de memória crescentes.

Anteriormente, fez tratamentos diversos com neurologistas e psiquiatras e foi diagnosticada com depressão e TDAH. Já foi medicada com antidepressivos, indutores do sono e ritalina. Iniciamos o processo de reavaliação diagnóstica e levantamos a hipótese do Transtorno de Humor Bipolar e TDAH. 

Iniciamos o tratamento  com estabilizadores do humor e antidepressivos que resultaram em melhora da oscilação do humor, da depressão e da insônia.

Somente após 1 ano de acompanhamento, Adelaide passou a referir um problema que ela apresenta desde os 16 anos e que vem lhe causando enormes prejuízos sociais e financeiros.  

Ela começa contando que leva muito tempo escovando os dentes e tomando banho, perdendo, habitualmente, de meia a uma hora com estes cuidados. Pensa sempre que não está suficientemente limpa. 

Em seguida, traz a sua preocupação com os gastos excessivos com roupas, perfumes e objetos repetidos. Acredita que precisa estocar aquilo que gosta, porque um dia, pode precisar.

Guarda também revistas e jornais com temas que lhe interessam, mesmo que nunca consiga lê-los. Tem objetos pessoais desde os 6 anos de idade.

Não consegue se desfazer de nada. Saber que estão à mão lhe conforta, porém ao mesmo tempo, começa a perceber que pode não ser normal guardar tantas coisas, afinal, está super endividada.

Atualmente, precisa manter um apartamento alugado só para guardar suas coisas. Também se afastou dos amigos, porque ficou sem espaço disponível em casa para recebê-los.

Teme que as pessoas não entendam o seu comportamento, diz ter muita vergonha, porém não entende “como existem pessoas tão  frias e insensíveis, que se desfazem das suas histórias”. O caso de Adelaide ilustra bem o que chamamos de acumulação compulsiva”

 

Diagnóstico
Alguns sinais da Acumulação Compulsiva são de utilidade para o diagnóstico:

– Recolher e acumular excessivamente bens e objetos que a maioria das pessoas joga fora, tais como sucatas ou lixo, embalagens, jornais velhos, etc. e amontoá-los em pilhas.

– Incapacidade ou grande dificuldade, angústia e indecisão ansiosa associado às tentativas e solicitações para descartar os objetos acumulados.

– Viver em condições precárias de salubridade e em desorganização por conta do acumulo excessivo de bens e objetos, além de não permitir que alguém arrume ou limpe essa desorganização.

– Desvirtuar o espaço da casa da real finalidade a que se destina (cozinha para cozinhar, banheiro para tomar banho, quarto para dormir…) para ocupá-lo pelos objetos acumulados.

– Em alguns casos, ter muitos animais de estimação e não cuidar deles da melhor maneira — transtorno de acumulação de animais.

– Negar que seja exagerado o acúmulo compulsivo, ter vergonha e constrangimento deste hábito e, mesmo assim, não conseguir controlar o impulso.

– Os sintomas causam sofrimento significativo ou prejuízo em áreas sociais, ocupacionais ou outras importantes de funcionamento da pessoa.

Uma das recomendações dos manuais de classificação com a finalidades de avaliar a gravidade do quadro é sobre o juízo crítico e noção da morbidade que o portador do transtorno tem sobre sua situação.

Um outro requisito para o diagnóstico de acumulação compulsiva é que todos esses sintomas não fazem parte do quadro sintomático de outro transtorno mental, como por exemplo a demência, estados confusionais e, inclusive, o TOC. Nesse último caso, por exemplo, o diagnóstico seria de TOC com sintoma de colecionismo.

Devem ser investigadas a crítica e as crenças dos pacientes sobre seu comportamento de coleta excessiva de objetos, principalmente quando não há espaço disponível. No caso da acumulação de animais avalia-se, da mesma forma, o juízo crítico sobre o controle do espaço, os eventuais problemas sanitários envolvidos, a qualidade de cuidados dispensada aos animais, entre outros.

Alguns critérios de insucesso no tratamento do TOC se aplicam também no caso dos acumuladores compulsivos. Um desses critérios mais importante de sucesso está atrelado à autocrítica, aqui sistematizada em três possibilidades.

  1. Visão boa ou razoável: Quando o paciente reconhece que as crenças e comportamentos referentes à dificuldade de descartar objetos recolhidos, à desordem, a ocupação do espaço ou aquisição excessiva são realmente problemáticas e gostaria que não fosse assim.
  2. Percepção Pobre (insight pobre): É quando o paciente acredita, sem muita convicção, de que as crenças e comportamentos referentes a dificuldade para descartar objetos, a desordem ou aquisição excessiva não são problemáticas, apesar das evidências em contrário.
  3. Percepção Delirante: Quando o paciente está completamente convencido de que as crenças e comportamentos referentes a dificuldade para descartar objetos, a desordem ou aquisição excessiva não são problemáticas, apesar das evidências em contrário.

A ausência de insight ou percepção pobre da morbidade da doença é um dos fatores consistentemente associados ao insucesso do tratamento, ao abandono dos medicamentos e da terapia, ou seja, à não-resposta aos tratamentos tanto farmacológicos como psicoterápicos (Catapano, 2010).

Obviamente, se o paciente não acredita que seu comportamento seja bizarro, anômalo, doentio, mórbido e que ele precisa de ajuda, até mesmo para benefício e alívio das pessoas que convivem com ele, então ele jamais acreditará que precisa de tratamento. Não haverá disposição ou motivação para empenhar-se em ser uma pessoa melhor.

Os acumuladores compulsivos e os portadores de TOC com sintoma de colecionismo são os pacientes que menos respondem ao tratamento, especialmente quando os sintomas são graves, com insight pobre ou ausente. Esses pacientes respondem muito pouco tanto à Terapia Cognitivo Comportamental como aos tratamentos farmacológicos.

Com frequência a perturbação conduz o paciente ao isolamento, restringe sua mobilidade social e chega a interferir na realização das tarefas básicas do dia-a-dia, tais como a alimentação, a higiene, a forma de se vestir e a utilização mais saudável de seu tempo.

Embora a acumulação compulsiva não seja uma perturbação mental presente desde sempre na vida da pessoa, alguns traços de personalidade cumulativa e comuns nesse transtorno podem ter existido precocemente. Em momento oportuno eclode a doença, seja depois da morte de um familiar, diante de dificuldades econômicas, de conflitos pessoais ou profissionais, enfim, depois de uma experiência vivencial mais traumática.

Pessoas com distúrbio de acumulação compulsiva apresentam diferenças na função cerebral quando comparadas à população geral. Segundo Tolin, o cérebro dos acumuladores compulsivos responde de maneira diferente em relação à outras pessoas quando estimuladas a descartar objetos, geralmente manifestando ativação excessiva no córtex cingulado anterior, região do cerebral envolvida na tomada de decisões, principalmente decisões que envolvam informações conflituosas e falta de certeza.

A atividade também se mostrou elevada na insula, região que monitora o estado emocional e físico. Essa região está envolvida em sensações como nojo, vergonha e outras emoções negativas fortes. Juntas, essas regiões ajudam o indivíduo a decidir a importância dos objetos (Tolin).

Referências

Catapano F, Perris F, Fabrazzo M, Cioffi V, Giacco D, De Santis V, Maj M. Obsessive-compulsive disorder with poor insight: a three-year prospective study. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psychiatry. 2010 Mar 17;34(2):323-30

Grisham JR, Brown TA, Savage CR, Steketee G, Barlow DH: Neuropsychological impairment associated with compulsive hoarding. Behav Res Ther 2007; 45:1471–1483

Mataix-Cols D, Nakatani E, Micali N, Heyman I: The structure of obsessive-compulsive symptoms in pediatric OCD. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry 2008 Mar 14

Samuels JF, Bienvenu OJ 3rd, Pinto A et al. Hoarding in obsessive-compulsive disorder: results from the OCD Collaborative Genetics Study. Behav Res Ther 2007; 45:673–686

Rasmussen SA, Eisen JL: The epidemiology and clinical features of obsessive compulsive disorder. Psychiatr Clin North Am 1992; 15:743–758.

Tolin DF, Stevens MC, Villavicencio AL, et al. Neural Mechanisms of Decision Making in Hoarding Disorder. Arch Gen Psychiatry. 2012;69(8):832-841.

para referir:
Ballone GJAcumuladores Compulsivos. in. PsiqWeb, Internet – disponível em http://www.psiqweb.net, 2016