Crimes Sexuais

Não se deve, em hipótese alguma, homogeneizar os agressores sexuais sob rótulo de “loucos”, simplesmente por se tratarem de pessoas que representam um comportamento desviante,  diferente e indisciplinado, sem que haja antes preocupação científica para o caso de cada um.

Os atos de violência contra as pessoas por motivos sexuais constituem uma parte importante de todos os delitos sérios e podem chegar às formas mais desumanas de assassinato. O crime por prazer constitui casos extremos de sadismo, onde a vítima é assassinada e às vezes mutilada com o propósito de provocar gratificação sexual ao criminoso, o qual normalmente consegue o prazer mais pela violência do que pelo coito.

O chamado Crime Sádico Serial, ou homicídio por Parafilia, pode ser considerado homicídio por prazer, já que a causa e a razão do ato tem uma origem sexual. Deve ser tarefa da sexologia e da psiquiatria forense estabelecer os aspetos da personalidade de um criminoso sexual com características de crime serial.

O exame de todas as manifestações da conduta delinquencial deve ser investigado em função da personalidade total do criminoso e de seu inseparável contexto social. Além disso o perito médico deve descobrir o valor e a significação que a realidade tem para o criminoso, seu juízo crítico, capacidade de autodeterminar-se, entre outros quesitos.

Quando há incontestável dificuldade do criminoso para aceitar a lei, pode significar uma anomalia adaptativa no desenvolvimento de sua personalidade. Porém, não obstante, o exame psiquiátrico geral dos criminosos sexuais seriais tem mostrado que a expressiva maioria deles (80 a 90%) não apresenta nenhum sinal de alienação mental franca.

Falamos em “alienação mental franca” porque a imensa maioria desses criminosos é composta por indivíduos com Transtornos da Personalidade, Psicopatas Antissociais, portadores de Disfunções Sexuais ou Parafilias (veja Parafilia e Personalidade Psicopata) e nenhum desses quadros caracteriza uma alienação mental suficiente para a inimputabilidade.

Alguns poucos desses criminosos podem apresentar Transtornos Neuróticos, sobretudo de tonalidade Obsessivo-Compulsiva. Apenas um grupo minoritário, de 10 a 20%, é composto por indivíduos com graves problemas mentais, quadros com características psicóticas alienantes, quer dizer, juridicamente inimputáveis.

Ao contrário de outros assassinos seriais, não devemos crer, sistematicamente, que o criminoso sexual serial é sempre impelido por incontroláveis desejos ou impulsos sexuais incoercíveis, ou qualificar esses agressores sexuais seriais como doentes mentais alienados. A ausência de doença mental alienante, sobretudo nos violentadores é a regra habitual e, o que se observa em geral, é que são indivíduos com condutas aprendidas e uma socialização deficitária.

Antes de se avaliar cada caso, é importantíssimo distinguir o Desvio Sexual (Parafilia) do crime sexual. Este último transgride as leis, enquanto no Desvio Sexual essa transgressão não é obrigatória. É assim, por exemplo, que um exibicionista (Parafilia) pode ser concomitantemente um criminoso ou, ao contrário, um masoquista ou sádico passa a vida toda sem cometer delito algum.

Não se deve, em hipótese alguma, homogeneizar os agressores sexuais sob rótulo de loucos, simplesmente por se tratarem de pessoas que representam um comportamento desviante, um comportamento diferente e indisciplinado sem que haja premente preocupação científica para o caso de cada um. O perito não deve influenciar-se pela intolerância social com tais comportamentos, inclinando-se sistematicamente no diagnóstico da loucura.

A conduta violenta pode ser mais bem compreendida como sendo resultado da interação entre a personalidade prévia do autor, seu estado emocional atual, sua situação interpessoal e o contexto social em que se desenvolve o ato agressivo. Em tese, academicamente, “a violência consiste em ações de pessoas, grupos, classes ou nações que ocasionam a morte de seres humanos ou que afetam prejudicialmente sua integridade física, moral, mental ou espiritual“.

Para a psiquiatria essa definição é incompleta, na medida em que não trata de um dos aspectos mais relevantes da agressão, ou seja, da angústia, medo, fobia e toda sorte de ansiedades e depressões que as pessoas experimentam depois de serem agredidas, sabe-se lá por quanto tempo, ou do sofrimento emocional diante da simples possibilidade de agressões, antes mesmo de terem sido perpetradas.

Juridicamente, se o comportamento sexual de uma pessoa causa dano à outra, afeta a sexualidade de um menor, mesmo mediante seu consentimento, constituirá um delito, crime ou delinquência.

A Conduta Delinquencial
Para poder realizar uma perícia médica sexológica correta, deve-se partir da realização de uma boa semiologia do criminoso e da conduta delinquencial.

Ao considerar cada caso de delito sexual deve-se fazer o exame da vítima e do agressor, sobretudo deste último. Trata-se de sua bio-psicogênese, ou seja, as características de sua personalidade e os fatores ambientais. Para analisar sua personalidade basal e as influências ambientais que sobre ela se fizeram sentir, deve-se avaliar a historia vital e existencial, tentando arguir os elementos e eventuais causas para delinquir (criminogênese).

Atualmente existem várias escalas preditivas do potencial agressivo que podem ser aplicadas a possíveis criminosos seriais, como é o caso da HCR-20 (canadense) e outras que apontam para os riscos de reincidência. Infelizmente pouca coisa há traduzida para o português.

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Parafilias e Transtornos Mentais
A 10a edição da Classificação Internacional de Doenças – CID-10 – em sua seção sobre Transtornos Mentais e Comportamentais classifica as Parafilias como “transtornos da preferência sexual”, dentro dos “transtornos da personalidade e do comportamento do adulto”.

Por outro lado, a 4a edição revisada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR) localiza as Parafilias em “transtornos sexuais e da identidade e de gênero”. Ambas as classificações incluem a mesma lista de Parafilias (exibicionismo, voyeurismo, fetichismo, pedofilia, masoquismo sexual, sadismo sexual, transvestismo fetichista). O diagnóstico de Parafilia naquela classificação já exigia que os sintomas estivessem presentes por pelo menos seis meses e, como foi ressaltado, que causassem sofrimento pessoal clinicamente importante ou prejudicassem o funcionamento social.

Com o lançamento da 5a edição do DSM (DSM-5) em 2014, houve distinção entre o comportamento humano atípico e o comportamento decorrente de um transtorno, que é aquele que causa sofrimento, ameaça física ou psicológica para si ou para o bem-estar de outros indivíduos. De acordo com a descrição nova classificação, a maioria das pessoas com atitudes sexuais atípicas não tinham automaticamente um transtorno mental. Para o diagnóstico do Transtorno Parafílico, o DSM-5 requer que a pessoa com interesses sexuais atípicos.

Violência Sexual; alguns dados importantes

Em 2013 um questionário sobre violência sexual do Ipea estimou que a cada ano 0,26% da população brasileira sofre violência sexual, índice que se traduz anualmente em 527 mil casos de tentativas ou estupros consumados. Destes casos apenas 10% são reportados à polícia.

Tal informação é consistente com os dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) de 2013, que apontou que em 2012 foram notificados 50.617 casos de estupro no Brasil, de fato, 10% dos 527 mil casos apurados no questionário do IPEA.

Em 2011, foram notificados 12.087 casos de estupro no Brasil, o que equivale a cerca de 23% do total registrado no ano seguinte – 2012 – na polícia segundo o FBSP.

Do total das notificações de 2011, 88% das vítimas foram do sexo feminino, mais de 50% tinha menos de 13 anos de idade, 46% não possuía o ensino fundamental completo, 51% das vítimas eram de cor preta ou parda e apenas 12% eram ou haviam sido casados anteriormente. Por fim, mais de 70% dos estupros vitimizaram crianças e adolescentes. Tais dados são alarmante, considerando-se as consequências psicológicas para esses garotos e garotas em época do processo de formação da autoestima.

A maioria esmagadora dos agressores sexuais, de acordo com a pesquisa, é do sexo masculino, sendo que as mulheres são autoras do estupro em 1,8% dos casos, quando a vítima é criança.

Viu-se também que 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos e que 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. O indivíduo desconhecido passa a configurar paulatinamente como principal autor do estupro à medida que a idade da vítima aumenta. Na fase adulta, agressores desconhecidos das vítimas respondem por 60,5% dos casos.

No geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro da casa da vítima e que a violência nasce dentro dos lares. Pode-se afirmar também que a ingestão de álcool esteve associada ao estupro de crianças, adolescentes e adultos numa ordem de, pelo menos, 20 a 40% dos casos.

Sendo o agressor sexual conhecido ou não, a ameaça e a força corporal ou espancamento estão fortemente presentes. A prevalência do uso de objetos contundentes ou perfuro cortantes é sempre maior quando o agressor é desconhecido da vítima. As maiores diferenças no tipo do instrumento utilizado se dão em relação ao uso das armas de fogo, presentes em quase 24% dos crimes quando a vítima é adulta e desconhece o estuprador.

 

 

Fonte: Daniel Cerqueira e Danilo de Santa Cruz Coelho. Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde, Informe Técnico. IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, março de 2014.

Estado Civil
Os criminosos seriais podem ser adultos jovens ou de meia idade. É raro observar menores de 18 anos e maiores de 50. Predominam os solteiros entre os criminosos sexuais, normalmente portadores de personalidade imatura e instável, entre os 30 e 40 anos de idade, emocionalmente dependentes e habitualmente filhos únicos, convivendo em grande dependência de sua mãe, em geral viúva e dominadoras.

Entre quase 1.200 vítimas de agressão sexual atendidas no serviço do Hospital Pérola Byington, SP, observou-se que em 86,6% das adolescentes e em 88,1% das adultas o agressor era desconhecido, mas na maioria dos casos de crianças agredidas o agressor pôde ser identificado, normalmente entre os parentes e vizinhos (Aspectos Biopsicossociais da Violência Sexual, Jefferson Drezett).

Numero de Agressões
O agressor serial não costuma ter um número limite de agressões em sua vida, por exemplo, quatro crimes sexuais, sendo o último perpetrado há 10 anos ou coisas assim. Em geral o limite costuma ser determinado pela sua detenção ou morte.

Quando se trata de Criminoso Sexual Serial as agressões cumprem um ritual homicida, o corpo da vítima será o testemunho do fato e permitirá fazer a interpretação psicodinâmica da agressão. Quando as agressões terminam em lesões e, sobretudo, em atentados contra a liberdade sexual, é comum que as vítimas e testemunhas não denunciem o criminoso por medo ou constrangimento.

Observa-se atualmente maior numero de denúncias nos tribunais contra esses agressores. Até há pouco tempo as denúncias eram escassas devido ao constrangimento das vítimas, mas a crescente atitude denunciatória tem colaborado para que o criminoso seja preso cada vez mais, interrompendo trajetórias criminosas e apenado mais rapidamente.

Roupa
O Criminoso Sexual Serial agride sexualmente, sem necessariamente matar. Trata-se da grande maioria dos estupradores e violentadores sexuais. Caso ocorra a morte ou mutilação da vítima será um Assassino Sexual Serial, tipo serial killer, matando várias vítimas em algum período de tempo com propósito de gratificar-se sexualmente.

Quando se trata de um criminoso sexual serial, aos moldes de serial killer, uma constatação importante é sobre a roupa que usa o criminoso. Não raras vezes a roupa pode ser sempre a mesma, quando realiza o crime. A roupa também pode ser parte de um ritual que tem um simbolismo particular para o agressor, como se fosse um uniforme de combate, razão pela qual tende sempre a utilizar a mesma roupa.

Em geral não é frequente que o criminoso utilize um traje social sofisticado, tipo terno, blazer, etc., salvo naqueles casos em que o modo de operar requeira tal vestimenta, por exemplo, para seduzir mulheres em lugares de luxo, para ir a um Hotel ou para a residência da vítima.

Aspecto Psicofísico
Dificilmente o criminoso sexual serial e o assassino serial sexual apresentam a imagem escrachada do perverso e cruel. Em geral são, ao contrario, pessoas de razoável a bom nível social, se comportam de forma cordial, se mostram saudáveis, sedutores, educados, inteligentes e astutos. Com essas características o criminoso passa desapercebido no âmbito da comunidade e até para os conhecidos e, se têm um trabalho estável, também se mostram inocentes e bons companheiros de trabalho.

Paralelamente, quando desenvolvem sua atividade delinquencial, mudam totalmente de personalidade, como se adotassem outra identidade. Na realidade assume a personalidade autêntica e original, já que a personalidade social é um disfarce. Por isso, os criminosos sexuais seriais não só mudam a conduta social habitual, senão também assumem seu verdadeiro comportamento ritualizado que obedece aos desígnios de uma conduta perturbada e delinquencial.

A nível psíquico os criminosos sexuais seriais têm bom quociente intelectual, alguns com nível de estudo secundário e até universitário. Nestes casos, é comum que não tenham completado totalmente a universidade devido alguma frustração ou conflito.

Excepcionalmente se tem registrado criminosos sexuais e assassinos sexuais seriais com baixo nível intelectual. A linguagem que podem utilizar durante a execução do ato criminoso costuma ser de ameaças, insultos, desqualificação, agressão, provocação, autovalorização, vingança, etc.

Ocupação
Quase em todos os casos os criminosos seriais têm trabalhos efetivos e se comportam neles de forma responsável, podem ser pontuais e cumpridores dos deveres, obtêm dos chefes reconhecimento e boas referências. Alguns trabalham por conta própria, outros têm um bom passado familiar e se dedicam a tarefas recreativas, hobbys, colecionam objetos artísticos, possuem refinados gostos culturais ou realizam ações de beneficência na comunidade, em atitude paradoxal com suas tendências delituosas.

Os criminosos sexuais seriais que têm filhos podem ser pais rígidos e autoritários e impõem uma férrea disciplina familiar, com total oposição aos comportamentos transgressores que cumprem durante sua atividade delinquencial.

Modalidade da atividade sexual
A modalidade da atividade sexual que realiza o criminoso serial tem a ver com a forma de compensar as dificuldades sexuais que frequentemente apresenta ao tentar uma relação sexual convencional. Dessa maneira, a agressão sexual costuma ser, de fato, violenta e/ou intimidatória. E essa violência passa a funcionar como um estímulo erótico compensador da hipossexualidade que apresenta habitualmente diante das relações convencionais.

Apesar do ataque de violação ser, habitualmente, por via vaginal ou anal, também se observa, com assiduidade, ataque sem acesso carnal propriamente dito, como por exemplo, através de equivalentes agressivos sádicos com os quais conseguem o orgasmo.

Antecedentes penais
É raro que essas pessoas apresentem antecedentes delinquenciais públicos ou conhecidos da polícia detectados. Os criminosos seriais que possuem antecedentes criminais podem ser por fatos muitíssimo similares, mas em outras regiões do país.

Assim como há criminosos seriais que apresentam uma dupla vida, entre uma imagem social e uma delinquencial, se encontram alguns que têm também uma dupla vida dentro do próprio âmbito criminoso, quer dizer, apresentam uma “carreira” delinquencial habitual, quase sempre como ladrões e a outra vida “autêntica” de agressor serial. Às vezes utilizam a primeira para lograr a segunda.

Personalidade social
Não é certa a noção generalizada de que estes criminosos sexuais seriais sejam socialmente torpes e agressivos, ou que apresentem antecedentes públicos de condutas sociais violentas, ou que se caracterizem como libertinos sexuais. É muito raro que as condutas sexuais delituosas seriais se deem em promíscuos ou “liberados sexuais”, bem como em pessoas que se vangloriam socialmente de sua vida sexual abertamente.

O habitual é que nem tenham namorada, que sejam reprimidos sexuais, introvertidos, tímidos, ou dependentes afetivos, sobretudo da mãe. Comumente seu papel social é exatamente contrário daquele que se esperaria de uma pessoa sexualmente atirada; retraídos e acanhados.

Estado mental
É raro que esses criminosos seriais sejam francamente alienados ou psicóticos. O mais habitual é encontrarmos o criminoso sexual serial com Transtornos da Personalidade e/ou psicopatas instintivos-impulsivos, os quais descarregam sua agressão contra o ser humano do meio circundante, meio este, ao qual não se adaptam. As variantes esquizoides e hístero-paranoides são as de maior prevalência entre os Transtornos da Personalidade.

O criminoso serial em geral se mimetiza no meio social para passar desapercebido. Os neuróticos obsessivo-compulsivos, embora sejam também descritos entre os criminosos sexuais seriais, não são de observação tão freqüente como se acreditava antes.

De modo geral são pessoas psiquicamente bem orientadas e lúcidas, têm noção do certo e do errado, tem crítica de seus atos. Esse grau de consciência se corrobora pelo fato deles não agirem como agem caso tenha algum policial por perto.

Sociogênese
Deve-se investigar também os fatores ambientais que influem no desenvolvimento da personalidade básica do criminoso sexual serial. Para avaliar essa personalidade deve-se levar em conta:

1) a personalidade do delinquente e;
2) o contexto social.

A personalidade do criminoso deve ser o centro da investigação psiquiátrica forense, uma vez que ela é a unidade à qual estão referidas todas as manifestações de sua conduta, motivação, etc., portanto o estudo da conduta delinquencial deve fazer-se em função da personalidade total do indivíduo e de seu contexto ambiental.

A dificuldade crônica do criminoso para aceitar as leis e normas, bem como sua constante insensibilidade aos sentimentos dos outros, reflete as dificuldades no desenvolvimento de sua personalidade. Como se observa frequentemente no estudo das gangues, o ato criminoso do grupo pode significar uma violação ou transgressão da norma estabelecida desencadeada por uma circunstância existencial adversa, um reflexo ideológico esdrúxulo, uma desobediência social ou coisas assim. Entretanto, no caso do criminoso sexual serial nem sempre (ou quase nunca) se encontram circunstâncias socioambientais associadas ou que tenham influído decididamente em sua conduta delinquencial.

No criminoso sexual serial, na maioria dos casos, observa-se que a psicogênese (traumas psíquicos pessoais) tem maior predominância que a sociogênese (fatores ambientais). Não obstante, embora não haja circunstâncias socioambientais associadas na atualidade, mesmo assim devemos investigar o meio social onde o criminoso se criou, seu grau de educação e escolaridade, sua relação parental, o grau de marginalidade social, experiências ocupacionais, abandono familiar, negligência materna, etc.

Sempre se tem insistido em acentuar a diferença que existe entre o indivíduo criminoso e o homem socialmente adaptado. É evidente que existe uma historia pessoal com certas características no criminoso, um contexto social e disposições que falam em determinadas circunstâncias, as quais explicariam as condutas delituosas em geral e as condutas sexuais em particular. Veja ao lado a descrição do caso Pedro Alonso Lopez para ilustrar essa ideia.

O Sadismo Sexual e o Violentador Sádico
A violência sádica não é a expressão de uma explosão de agressão totalmente instintiva e impulsiva. Trata-se, de fato, de um assalto premeditado em atenção à alguma fantasia erótica. A perpetração de lesões à vítima provoca no agressor uma satisfação sexual ascendente em modo de espiral, à medida que avança a agressão.

O Sadismo simples, na imensa maioria das vezes, não tem exclusiva intensão de coito. Esse é o chamado verdadeiro sadismo, que quase na totalidade das vezes conta com a cumplicidade da companheira. Quando se trata de um violentador criminoso com características sádicas, este utiliza a agressão em forma despropositada, ou seja, não atende a fantasia erótica de possessão sexual a que motiva a sexualidade sadomasoquista.

O Violentador Sádico, que normalmente é o Criminoso Sexual Serial , tem a inclinação de violentar, agredir e humilhar sua vítima empregando uma postura de sadismo é considerado o mais perigoso dos violentadores. O propósito da violentação é a expressão de suas fantasias sádicas e tende a ferir suas vítimas psicofisicamente.

Normalmente o sadismo sexual é uma forma de erotização através de atitudes que impingem sofrimento à(o) parceira(o), exclusivamente atrelada à esfera da sexualidade e preservando todos os demais traços da personalidade, inclusive obedecendo limites dos excessos.

O Violentador Sádico é, por sua vez, possivelmente portador de um Transtorno Sádico da Personalidade, o qual se encontra incluído no DSM IV dentro das categorias que requerem estudos ulteriores (transtornos passivo-agressivos). Esse tipo patológico da personalidade tem um padrão de conduta naturalmente cruel, vexatória e agressiva, utilizada com o fim de estabelecer uma relação exclusivamente dominante.

Trata-se, como os demais Transtornos de Personalidade, de uma “maneira de ser”, completamente egosintônica, ou seja, de acordo com a vontade e arbítrio da pessoa, a qual jamais buscará atenção médica para isso.

O Ato Criminoso – Conceitos e Definições
Depois de investigar o criminoso deve-se considerar o ato da violência e, através dos mecanismos utilizados, observar a dinâmica do delito. Portanto, a conduta delinquencial é um fato criminoso que resulta da interação entre um agressor e sua vítima. Para os fins práticos devemos ter em conta um tripé inseparável:

a) personalidade do criminoso
b) dinâmica do crime
c) reação do meio

A violência sexual consiste em um conjunto de vários crimes além daquele de natureza sexual propriamente dito. A mulher pode, por exemplo, além de ser vítima de violação, também ser vítima de ofensas à integridade física, de roubo, dano moral, dano psíquico, etc. Atualmente, os termos “abuso”, “agressão” e “violência” sexual são utilizados de forma confusa e genérica. Vejamos alguns significados da terminologia empregada para essas agressões:

a) Violação Sexual
É quando alguém é forçado a manter relações sexuais com uso de violência, ameaça grave, criação de estado de inconsciência ou de impossibilidade de reação. Portanto, Violação Sexual ou Estupro é a mesma coisa, ou seja, o ato físico de atacar outra pessoa e forçá-la a praticar sexo sem seu consentimento.

 

b) Coação Sexual
Consiste em constranger outra pessoa por meio de violência, ameaça grave para esse fim, ou tornar a vítima inconsciente ou posto na impossibilidade de resistir a sofrer ou a praticar, consigo ou com outrem, ato sexual.

c) Assédio Sexual
O Assédio Sexual inclui uma aproximação sexual não-benvinda, uma solicitação de favores sexuais ou qualquer conduta física ou verbal de natureza sexual indesejável. Isso é quase igual à Coação Sexual, com a diferença que na coação há presença obrigatória de ameaça grave.

d) Abuso Sexual
É a prática de ato sexual com pessoa inconsciente ou incapaz de opor resistência, aproveitando-se do seu estado de incapacidade, mas não tendo contribuído para a criação desse estado, quando então seria coação e abuso sexual. As maiores vítimas são crianças e adolescentes, normalmente incapazes de opor resistência

e) Exploração Sexual
A Exploração Sexual ocorre quando há algum tipo de envolvimento sexual (ou intimidade) entre uma pessoa que está prestando algum serviço (de confiança e com algum poder delegado) e um indivíduo que procurou a sua ajuda profissional. Por exemplo; a mulher abusada por um médico, dentista, policial, padre, etc.

Alterações emocionais da vítima de Violência Sexual
O sofrimento imposto pelo criminoso à sua vítima não se limita ao momento desse crime. Embora seja difícil sistematizar um padrão de reação das pessoas diante de uma agressão sexual, bem como de seus efeitos emocionais, tendo em vista a grande variação da natureza, do tipo e das circunstâncias da agressão, a expressiva maioria das vítimas de um crime sexual apresentará reflexos de uma experiência traumática duradoura.

O sofrimento emocional começa a partir do momento em que se dá um ataque sexual, com ou sem lesões físicas decorrentes do ataque. Durante e depois da agressão surge o medo e uma grande ansiedade. Algumas vítimas, até por mecanismo de defesa, conseguem manter-se relativamente serenas durante a agressão mas, mais cedo ou mais tarde, haverá um rompante emocional das tensões reprimidas.

1- O Choque Imediato
Logo depois da agressão sexual a vítima apresenta um estado emocional compatível com uma confusão moderada, sentindo-se desorientada quanto ao que fazer e um dos agravantes é a preocupação com as consequências da revelação da agressão.

Essas preocupações, que podem ser de ordem moral, ética e mesmo de pavor da vingança por parte do agressor, logo se transformam em grande constrangimento. Tal constrangimento é o responsável pelo silêncio que grande número de vítimas mantém depois da violência sexual.

Algumas vezes a vítima pode recorrer à um Mecanismo de Defesa chamado Negação, onde sua consciência se recusa a acreditar que isto tenha acontecido com ela. Outras vezes sente culpa e fica ruminando a sequência dos acontecimentos para avaliar se poderia ou não ter evitado que as coisas tomassem o rumo que tomaram. É nessa linha de pensamentos que surge uma queda da autoestima, insegurança e sensação de frustração consigo mesma.

A autoestima ficará mais prejudicada ainda se o sentimento de culpa for reforçado por pessoas que insinuam haver ela provocado a situação, por ter tido uma atitude sensual, provocante e estimulado sexualmente o agressor, por ter saído em horário perigoso ou frequentado lugares de risco. Algumas vezes a vítima nutre sentimentos de vingança e raiva.

Se depois de algum tempo do ocorrido a vítima apresenta sono agitado, revivência constante do ocorrido e pesadelos sobre isso, podemos estar diante de um quadro de Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

2 – A Recuperação
Na fase da recuperação a vítima começa a se adaptar novamente à sua realidade, agora uma realidade completamente diferente daquela anterior à agressão. É comum, no início da recuperação que os sentimentos sejam revividos de tempos a tempos, com intensidade cada vez mais atenuada. Há crises de choro, medo, cisma, sensação de que algo de ruim está para acontecer, impressão de que comentam a seu respeito. Essa pseudo-paranoia é mais ou menos freqüente no início da fase de recuperação mas deve, obrigatoriamente, desaparecer depois de algumas semanas.

Caso persistam essas revivências ou caso a intensidade dos sentimentos ainda sejam intensos depois de algumas semanas, caso persistam as ideias paranoides, acompanhadas de isolamento e recusa em sair de casa, enfatizamos novamente, há possibilidade de estarmos diante de um quadro de Transtorno de Estresse Pós-Traumático ou, mais grave, diante do desenvolvimento de um Transtorno Delirante Agudo e Transitório, antiga Psicose Reativa Breve.

Ainda na fase de recuperação, a vítima emocionalmente começa a considerar o crime pelo qual passou de maneira menos emotiva e mais racionalmente. A reação emocional ao crime começa a diminuir e a vítima já se sente capaz de se dedicar a outras atividades. Via de regra, dificilmente a vítima obtém uma recuperação completa ou total, melhor dizendo, dificilmente conseguira ter a mesmo perfil emocional que havia antes da agressão.

Não se deve tentar estabelecer escalas de avaliação do tamanho do trauma sofrido em uma agressão sexual, pois só vítima, na verdade, poderá saber o estado de seu sofrimento. Muitos crimes sexuais podem ser praticados sem violência e, em muitos outros casos, a vítima pode não ter oferecido a resistência desejável, mas o significado que ela, a vítima, atribui à sua experiência, será sempre sua prerrogativa.

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Segundo pesquisa , 29% das vítimas de agressão sexual haviam sido violentadas na rua e 26%, em terrenos baldios. Além disso, 5%, das vítimas haviam sofrido agressão em colégios e outros 5% em construções. No entanto, 19% das vítimas foram violentadas em suas próprias casas. A maioria dessas mulheres (52%) tinha idades entre 15 e 25 anos, e 31% nunca haviam tido relação sexual.

Outro dado alarmante detectado foi o horário da agressão. Embora em 41% dos casos (dos 51 em que havia registro de horário) o ataque tenha ocorrido entre as 22h e as 4h, os autores encontraram dados inesperados: quase um em cada cinco atos de violência sexual (24%) ocorreu entre as 6h e as 8h ou entre as 16h e as 18h, ou seja, em plena luz do dia. No período de luz, as pessoas se imaginam seguras.

Cerca de 21% das vítimas relataram ter sido abordadas a caminho do trabalho e, em 70% dos casos, o agressor era desconhecido (veja mais da pesquisa de Kelli Lemos, Karina Morelli e Alexandre Valverde em reportagem de Ricardo Zorzetto). 

Os assassinos seriais costumam ter características comuns e entre eles encontram-se os assassinos seriais sexuais, evidentemente.

 

 

 

 

 

Fonte: Ilana Casoy, Serial Killers, ed. Darkside, 2014

 

O criminoso
O criminoso Serial que habitualmente se observa é, em geral, um homem introspectivo, tranquilo, reservado, distante, de bons modos, agradável, sem amigos, solitário em suas decisões, tímido, estudioso. Ele se conduz de forma que poderia ser facilmente descartado como suspeito de violência. Normalmente não fuma, não bebe nem consome drogas e, se o faz, não chega a ser um adicto.

Mas é uma pessoa particularmente propensa a delinquir quando sofre uma perda de autoestima, quando se tenta enganá-la, quando se sente rejeitada e, principalmente, quando tem questionada sua masculinidade. Nessas circunstâncias o ato criminoso compensaria a sensação de menos valia, recuperando seu natural narcisismo, egocentrismo e sua vaidade.

Atrás de uma fachada distante existe uma profunda agressividade que não pode expressar. Imagina cenas que logo interpreta em sus agressões. Sua inteligência o permite planear detalhadamente o delito com muita antecipação para logo poder evitar com êxito as investigações policiais.

Normalmente esse tipo de criminoso quer ser notório, antes de ser ignorado e pode almejar passar para a história como o criminoso diferenciado e importante. No momento do crime se excita muito, se transforma, adquire a seguridade que o falta e o impulso sexual assume o controle de sus ações.

De modo geral o criminoso serial sexual habitual não é psicótico, nem insano, já que conhece a natureza e a qualidade de seus atos, sabe que são maus e tem capacidade de autodeterminação. Não só não cometeria o fato se tivesse alguém que o visse, senão que tampouco o faria si pensasse que há alguma possibilidade de ser apresado.

para referir:
Ballone GJCrimes Sexuais – in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2015.