Psicopata – Sociopata 1

Essa página começa mostrando os sintomas da Personalidade Psicopática, entretanto, essa não é a parte mais importante. Mais importante é o que vem em seguida. Trata-se da evolução do conceito de Personalidade Psicopática ao longo do tempo. É tema importantíssimo para compreensão da ideia que se tem hoje sobre a Sociopatia ou Transtorno Antissocial, conforme nomenclatura recente do DSM-5.

 Principais Sintomas

1- Encanto superficial e manipulação
Nem todos psicopatas são encantadores, mas é expressivo o grupo deles que utilizam o encanto pessoal e, consequentemente, a capacidade de manipular de pessoas como meio de sobrevivência social.

Através do encanto superficial o psicopata acaba coisificando as pessoas, ele as usa e quando não o servem mais, descarta-as, tal como uma coisa ou uma ferramenta usada. Talvez seja esse processo de coisificação a chave para compreendermos a absoluta falta de sentimentos do psicopata para com seus semelhantes ou para com os sentimentos do outro.

O encanto, a sedução e a manipulação são fenômenos que se sucedem no psicopata. Partindo do princípio de que não se pode manipular alguém que não se deixe manipular, só será possível manipular as pessoas que tenham sido antes seduzidas.

2- Mentiras sistemáticas e Comportamento fantasioso.
Embora qualquer pessoa possa mentir, há diferenças entre a mentira banal da mentira psicopática. O psicopata utiliza a mentira como uma ferramenta de trabalho. Normalmente está tão treinado e habilitado a mentir que é difícil perceber quando mente. Ele mente olhando nos olhos e com atitude completamente neutra e relaxada.

O psicopata não mente circunstancialmente ou esporadicamente para conseguir safar-se de alguma situação. Ele sabe que está mentindo, não se importa, não tem vergonha ou arrependimento, nem sequer sente desprazer quando mente. E mente, muitas vezes, sem nenhuma justificativa ou motivo.

Normalmente o psicopata diz o que convém e o que se espera para aquela circunstância. Ele pode mentir com a palavra ou com o corpo, quando simula e teatraliza situações vantajosas para ele, podendo fazer-se arrependido, ofendido, magoado, simulando tentativas de suicídio, etc.

É comum que o psicopata priorize algumas fantasias sobre circunstâncias reais. Isso porque sua personalidade é narcisista, quer ser admirado, quer ser o mais rico, mais bonito, melhor vestido. Assim, ele tenta adaptar a realidade à sua imaginação, à seu personagem do momento, de acordo com a circunstância e com sua personalidade é narcisista. O psicopata pode converter-se no personagem que sua imaginação cria para atuar no meio com sucesso, convencendo a todos de que estão, de fato, diante de um personagem verdadeiro.

3- Ausência de Sentimentos Afetuosos
Desde criança se observa no psicopata um acentuado desapego aos sentimentos e um caráter dissimulado. Essa pessoa não manifesta nenhuma inclinação ou sensibilidade por nada e mantém-se normalmente indiferente aos sentimentos alheios.

Os laços sentimentais habituais entre familiares não existem nos psicopatas. Além disso, eles têm grande dificuldade para entender os sentimentos dos outros, mas havendo interesse próprio, podem dissimular os sentimentos socialmente esperados. Na realidade são pessoas extremamente frias, do ponto de vista emocional.

4- Amoralidade
Os psicopatas são portadores de grande insensibilidade moral, faltando-lhes totalmente juízo e consciência morais, bem como noção de ética.

5- Impulsividade
Também por debilidade do Superego e por insensibilidade moral, o psicopata não tem freios eficientes à sua impulsividade. A ausência de sentimentos éticos e altruístas, unidos à falta de sentimentos morais, impulsiona o psicopata a cometer brutalidades, crueldades e crimes.

Essa impulsividade reflete também um baixo limiar de tolerância às frustrações, refletindo-se na desproporção entre os estímulos e as respostas, ou seja, respondendo de forma exagerada diante de estímulos mínimos e triviais. Por outro lado, os defeitos de caráter costumam fazer com que o psicopata demonstre absoluta falta de reação aos estímulos  realmente importantes.

6- Incorrigibilidade
Dificilmente ou nunca o psicopata aceita os benefícios da reeducação, da advertência e da correção. Pode dissimular durante algum tempo seu caráter torpe e antissocial, entretanto, na primeira oportunidade voltam à tona com as falcatruas de praxe.

7- Falta de Adaptação Social
Já nos primeiros contatos sociais o psicopata manifesta uma certa crueldade e tendência a atividades delituosas desde criança. A adaptação social pode ficar comprometida devido à tendência acentuada do psicopata ao egocentrismo e egoísmo, características percebidas pelos demais e responsável por eventuais dificuldades de sociabilidade.

Mesmo no meio familiar o psicopata tem dificuldades de adaptação. Durante o período escolar tornam-se detestáveis tanto pelos professores quanto pelos colegas, embora possam dissimular seu caráter Sociopático durante algum tempo. Nos empregos a inconstância é a característica principal.

A psicopatologia em geral e a psiquiatria forense em especial têm dedicado, há tempos, uma enorme preocupação com o quadro conhecido por Psicopatia (ou Sociopatia, Transtorno Dissocial, Transtorno Antissocial, Transtorno Sociopático e outras denominações com o mesmo significado).

Trata-se de um terreno difícil e inspira cautela, já que pode englobar pessoas que não se enquadram nas doenças mentais mais bem delineadas e com características bastante específicas, apesar de se situarem à margem da normalidade psicoemocional ou, no mínimo, comportamental. As implicações forenses desses casos reivindicam da psiquiatria estudos exaustivos, notadamente sobre o grupo de entidades entendidas como Transtornos da Personalidade.

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Personalidade Psicopática, Sociopata, Personalidade Antissocial ou Dissocial ?
Alguns autores não vêm como sinônimo, a Personalidade Psicopática e a Personalidade Antissocial. A Personalidade Antissocial, segundo os autores que a diferenciam da psicopática, se constitui em um caso mais franco, declarado e aberto de anomalias no relacionamento, ou seja, menos dissimulado e teatral que a psicopática. Essas pessoas costumam ser mais impetuosas, contestam com mais franqueza as normas sociais, criam mais transtornos e animosidades com os demais e, por fim, estão mais associados aos fatores de criminalidade que os psicopatas.

De acordo com essa visão, os psicopatas costumam ser até mais perigosos que os sociopata, tendo em vista sua maneira dissimulada de ocultar a verdadeira índole contraventora. Os antissociais ou sociopata atentam contra as normas sociais mais abertamente que os psicopatas, logo, se autodenunciam mais.

Academicamente será benéfico tomar o sociopata e o psicopata como a mesma ocorrência. O DSM-5 chama esses casos de Personalidades Antissociais e a CID-10 de Personalidades Dissociais, ambos evitando a denominação Psicopata. Isso se deve, exclusivamente, à natureza etimológica da palavra. Por uma questão de coerência, assim como a cardiopatia significa qualquer patologia que acontece sobre o coração, o termo psicopatia deveria referir-se a qualquer patologia psíquica. Portanto não é correto, etimologicamente, chamar de psicopatas apenas os sociopatas.

O enorme interesse que o psicopata desperta se deve, em parte, ao desenvolvimento das pesquisas sobre as bases neurobiológicas do funcionamento do cérebro em geral e, particularmente, da personalidade. Por outra parte, o interesse deve-se também ao enorme potencial de destrutividade de alguns psicopatas quando têm acesso aos instrumentos que a tecnologia e a ciência disponibilizam.

Estudar o potencial da destrutividade humana é bastante interessante e poderá esclarecer certos pontos em comum entre grandes manifestações de destrutividade, como são as guerras, os genocídios, torturas, o terrorismo e certas manifestações da personalidade humana, de acordo com a psicopatologia, psicologia e neurociências.

Lorenz e outros etólogos consideram a agressividade organizada uma aquisição evolutiva que aparece na espécie humana há uns 40.000 anos. Em sentido social, a agressividade organizada nasceu da necessidade de uma arma de sobrevivência mais eficaz. Nascia assim uma forma especializada de agressão comunitária e organizada, um entusiasmo que agrega o grupo contra um inimigo comum.

Uma das expressões psíquicas coletiva é a chamada “paranoia de guerra”, capaz de afetar populações inteiras. Atualmente pode ser representada também por grupos étnicos, religiosos ou políticos que se unem através de uma conduta agressiva em função de alguma ameaça comum a todos integrantes do grupo, ameaça real ou acreditada.

Devido à falta de um consenso definitivo, esse assunto tem despertado um virulento combate de opiniões entre os mais diversas tendências ao longo do tempo. Variadas também são as atitudes da ciência diante desses casos que respingam na ética e na psicopatologia simultaneamente. As dificuldades vão desde a conceituação do problema, até as questões psicopatológicas de diagnóstico e tratamento. Como seria de se esperar, também na área forense as discordâncias são contundentes.

A evolução dos conceitos sobre a Personalidade Psicopática oscilou durante mais de um século entre a bipolaridade orgânica-psicológica, passando à transitar também sobre as tendências sociais. Esses conhecimentos parecem ter aportado, finalmente, em uma ideia biopsicosocial que, senão a mais verdadeira, ao menos se mostrou a mais sensata (veja artigo Personalidade Criminosa, neste mesmo capítulo Forense).

Pinel (1745-1826)

pinel

Pinel: “em nenhum momento apresentavam prejuízo algum do entendimento”.

Cardamo (1501-1596)

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Cardamo: “as pessoas que disso padeciam mantinham a aptidão para dirigir sua vontade”.

Historia do conceito
O conceito de Psicopata, Personalidade Psicopática e, mais recentemente, Sociopata é um tema que transita entre várias áreas do conhecimento, tais como a psiquiatria, justiça, antropologia, sociologia e filosofia. Tal interesse é perene porque as personalidades anormais sempre estiveram presentes na população geral.

Psicopatas são pessoas cujo tipo de conduta chama fortemente a atenção e não podem ser automaticamente qualificados como loucos, nem débeis; elas estão num campo intermediário. São indivíduos que se separam do grosso da população em termos de comportamento, conduta moral e ética. Vejamos a opinião dos vários autores sobre a Personalidade Psicopática ao longo da história.

Cardamo e Zacchia
Uma das primeiras descrições registradas pela medicina sobre algum comportamento que pudesse se identificar com a atual ideia de Personalidade Psicopática foi a de Girolano Cardamo (1501-1596), um professor de medicina da Universidade de Pavia. O filho de Cardamo foi decapitado por ter envenenado sua mãe (a mulher de Cardamo) com raízes venenosas. Neste relato, Cardamo fala em “improbidade”, quadro que não alcançava a insanidade total porque as pessoas que disso padeciam mantinham a aptidão para dirigir sua vontade.

Pablo Zacchia (1584-1654), considerado por alguns como fundador da Psiquiatria Médico Legal, descreve em Questões Médico Legais as mais notáveis concepções que logo dariam significação às “psicopatias” e aos Transtornos de Personalidade.

Pinel
Em 1801 Philippe Pinel publica seu Tratado Médico Filosófico sobre a Alienação Mental e fala de pessoas que têm todas as características da mania, mas que carecem do delírio. Temos que entender que Pinel chamava de mania aos estados de furor persistentes e comportamento florido, distinto do conceito atual de mania (Berrios, 1993).

Dizia, em seu tratado, que se admirava de ver muitos loucos que em nenhum momento apresentavam prejuízo algum do entendimento, e que estavam sempre dominados por uma espécie de furor instintivo, como se o único dano fosse em suas faculdades instintivas. A falta de educação, ou uma educação mal dirigida, ou ainda traços perversos e indômitos naturais, podem ser as causas desta espécie de alteração (Pinel, 1988).

Prichard
Prichard, tanto quanto Pinel, lutavam contra a ideia do filósofo Locke, o qual dizia não poder existir mania sem delírio, ou seja, mania sem prejuízo do intelecto. Portanto, nessa época, os juízes não declaravam insanos nenhuma pessoa que não tivesse um comprometimento intelectual manifesto (normalmente através do delírio). Pinel e Pricharde tratavam de impor o conceito, segundo o qual, existiam insanidades sem comprometimento intelectual, mas possivelmente com prejuízo afetivo e volitivo (da vontade). Tal posição acabava por sugerir que essas três funções mentais, o intelecto, afetividade, e a vontade, poderiam adoecer independentemente.

Foi em 1835 que James Cowles Prichard publica sua obra Treatise on insanity and other disorders affecting the mind, a qual falava da Insanidade Moral. A partir dessa obra, o historiador G. Berrios (1993) discute o conceito da Insanidade Moral como o equivalente ao nosso atual conceito de psicopatia. Prichard nunca pretendeu que sua “insanidade moral” servisse como uma desculpa forjada para cometer um crime.

Mas, um de seus primeiros trabalhos foi de  1811. Prichard era médico no hospital de St Peter, Bristol – um albergue-asilo. Foi aqui, sem dúvida, onde ele desenvolveu seu interesse na insanidade e na compreensão da pessoa “lunática”. Ele procurou os pontos fracos no organismo humano onde se poderia encontrar uma raiz da condição perigosa que produzia a insanidade moral.

Prichard tinha convicção de que uma pessoa que fosse levada à loucura por alguma decrepitude moral, poderia manter intacto o seu intelecto, mas não seria menos louco por causa dele.

Morel
Morel, em 1857, parte do religioso para elaborar sua teoria da degeneração. O ser humano tinha sido criado segundo um tipo primitivo perfeito e todo desvio desse tipo perfeito seria uma degeneração. A essência do tipo primitivo e, portanto, da natureza humana, é a contínua supremacia ou dominação do moral sobre o físico. Para Morel, o corpo não é mais que “o instrumento da inteligência”. Morel foi o primeiro a utilizar o termo démence precoce (latim, dementia praecox ou demência precoce) que se referia ao que hoje é conhecido como esquizofrenia.

A doença mental inverteria esta hierarquia e converteria o humano “em besta”. Uma doença mental não é mais que a expressão sintomática das relações anormais que se estabelecem entre a inteligência e seu instrumento doente, o corpo.

A degeneração de um indivíduo se transmite e se agrava ao longo das gerações, até chegar à decadência completa (Bercherie, 1986). Alguns autores posteriores, como é o caso de Valentím Magnam, suprimiram o elemento religioso das ideias de Morel e acentuaram os aspectos neurobiológicos. Estes conceitos afirmavam a ideologia da hereditariedade e da predisposição em varias teorias sobre as doenças mentais.

Morel acreditava que a deferida degeneração, por sua vez, daria lugar a distintas enfermidades mentais: epilepsia, debilidade, loucura e, inclusive, ao comportamento delitivo. Loucura, crime e degeneração, para ele, estariam significativamente associados

Prichard (1786-1848)

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Pichard constatava “insanidades sem comprometimento intelectual, mas possivelmente com prejuízo afetivo e volitivo (da vontade)”.

Morel (1809-1873)

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Para Morel, o ser humano normal teria “a contínua supremacia ou dominação do moral sobre o físico. A doença mental inverteria esta hierarquia.”

koch

Koch via “inferioridades congênitas da constituição cerebral, mas não são consideradas doenças”.

kraepelin

Para Kraepelin não são neuróticos nem psicóticos … mas que se mantêm em choque contundente com os parâmetros sociais vigentes.

Koch e Gross
Em 1888, Koch (Schneider, 1980) fala de Inferioridades Psicopáticas, mas se refere à inferioridades no sentido social e não moral, como se referiam anteriormente. Para Koch, as inferioridades psicopáticas eram congênitas e permanentes e divididas em três formas:

– disposição psicopática,
– tara psíquica congênita e
– inferioridade psicopática.

Dentro da primeira forma, Disposição Psicopática, se encontram os tipos psicológicos astênicos de Schneider. A Tara inclui a “as almas impressionáveis, os sentimentais lacrimosos, os sonhadores e fantásticos, os escrupulosos morais, os delicados e susceptíveis, os caprichosos, os exaltados, os excêntricos, os justiceiros, os reformadores do estado e do mundo, os orgulhosos, os indiscretos, os vaidosos e os presumidos, os inquietos, os malvados, os colecionadores e os inventores, os gênios fracassados e não fracassados“. Todos estes estados são causados por inferioridades congênitas da constituição cerebral, mas não são consideradas doenças.

Otto Gross, por sua vez, dizia que o retardo dos neurônios para estabilizarem-se depois da descarga elétrica determinava diferenças no caráter. Assim em seu livro Inferioridades Psicopáticas, a recuperação neuronal rápida determinava indivíduos tranquilos e aqueles de estabilização neuronal mais lenta, ou seja, com maior duração da estimulação, seriam os excitáveis, portadores dessa inferioridade.

Kraepelin
Kraepelin, quando faz a classificação das doenças mentais em 1904, usa o termo Personalidade Psicopática para referir-se, precisamente, a este tipo de pessoas que não são neuróticos nem psicóticos, também não estão incluídas no esquema de mania-depressão, mas que se mantêm em choque contundente com os parâmetros sociais vigentes. Incluem-se aqui os criminosos congênitos, a homossexualidade, os estados obsessivos, a loucura impulsiva, os inconstantes, os embusteiros e farsantes e os querelantes (Schneider, 1980).

Para Kraepelin, as personalidades psicopáticas são formas frustras de psicose, classificadas segundo um critério fundamentalmente genético e considera que seus defeitos se limitam essencialmente à vida afetiva e à vontade (Bruno, 1996).

Schneider
Em 1923, Kurt Schneider elabora uma conceituação e classificação do que é, para ele, a Personalidade Psicopática. Schneider (1980) descarta no conjunto classificatório da personalidade atributos tais como, a inteligência, os instintos e sentimentos corporais e valoriza como elementos distintivos o conjunto dos sentimentos e valores, das tendências e vontades.

Para Kurt Schneider as Personalidades Psicopáticas formam um subtipo daquilo que classificava como Personalidades Anormais, de acordo com o critério estatístico e da particularidade de sofrerem por sua anormalidade e/ou fazerem outros sofrer.

Entretanto, a classificação de Personalidade Psicopática não pode ser reconhecida ou aceita pelo próprio paciente e, às vezes, nem mesmo por algum grupo social pois, a característica de fazer sofrer os outros ou a sociedade é demasiadamente relativo e subjetivo: um revolucionário, por exemplo, é um psicopata para alguns e um herói para outros.

Em consequência dessa relatividade de diagnóstico (devido à relatividade dos valores), não é lícito realizar um diagnóstico do mesmo modo que fazemos com as outras doenças. Resumindo, pode-se destacar neles certas características e propriedades que os caracterizam de maneira nada comparável aos sintomas de outras doenças. O Psicopata é, simplesmente, uma pessoa assim.

O Psicopata não tem uma psicopatia, no sentido de quem tem uma tuberculose, ou algo transitório, mas ele É um psicopata. Psicopata é uma maneira de ser no mundo, é uma maneira estável de ser.

Como em tantas outras tendências, também há um certo determinismo na concepção de Schneider. Para ele os psicopatas são assim em toda situação vital e sob todo tipo de circunstâncias. O psicopata é um indivíduo que não leva em conta as circunstâncias sociais, é uma personalidade estranha, separada do seu meio. A psicopatia não é, portanto, exógena, sendo sua essência constitucional e inata, no sentido de ser pré-existente e emancipada das vivências.

Existem fases e circunstâncias de condutas normais do psicopata que permitem que ele passe desapercebido em muitas áreas do desempenho social. Essa dissimulação garante sua sobrevivência social.

Kurt Schneider, englobou no conceito de Personalidade Psicopática todos os desvios da normalidade não suficientes para serem considerados doenças mentais francas, incluindo nesses tipos, também aquele que hoje entendemos como sociopata. Dizia que a Personalidade Psicopática (que não tinha o mesmo conceito do sociopata de hoje) como aquelas personalidades anormais que sofrem por sua anormalidade e/ou fazem sofrer a sociedade.

Muito mais tarde Mira y López definiu a Personalidade Psicopática como “…aquela personalidade mal estruturada, predisposta à desarmonia intrapsíquica, que tem menos capacidade que a maioria dos membros de sua idade, sexo e cultura para adaptar-se às exigências da vida social“. Myra y Lopez ainda conceituava Personalidade Psicopática de maneira ampla. Havia a personalidade que se entende hoje por sociopata, mas havia também outros transtornos da personalidade.

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Critérios para diagnóstico do Psicopata de Hare, Hart e Harpur

  1. Problemas de conduta na infância.
  2. Inexistência de alucinações e delírio.
  3. Ausência de manifestações neuróticas.
  4. Impulsividade e ausência de autocontrole.
  5. Irresponsabilidade
  6. Encanto superficial, notável inteligência e loquacidade.
  7. Egocentrismo patológico, autovalorização e arrogância.
  8. Incapacidade de amar.
  9. Grande pobreza de reações afetivas básicas.
  10. Vida sexual impessoal, trivial e pouco integrada.
  11. Falta de sentimentos de culpa e de vergonha.
  12. Indigno de confiança, falta de empatia nas relações pessoais.
  13. Manipulação do outro com recursos enganosos.
  14. Mentiras e insinceridade.
  15. Perda específica da intuição.
  16. Incapacidade para seguir qualquer plano de vida.
  17. Conduta anti-social sem aparente arrependimento.
  18. Ameaças de suicídio raramente cumpridas.
  19. Falta de capacidade para aprender com a experiência vivida.

Cleckley
Em 1941 Cleckley escreveu um livro chamado “A máscara da saúde“, o qual se referia a este tipo de pessoas. Em 1964 descreveu as características mais frequentes do que hoje chamamos psicopatas. Em 1961, Karpmam disse “dentro dos psicopatas há dois grandes grupos; os depredadores e os parasitas” (fazendo uma analogia biológica). Os depredadores são aqueles que tomam as cosas pela força e os parasitas tomam-nas através da astúcia e do engodo.

Cleckley, estabeleceu, em “A máscara da saúde“, alguns critérios para o diagnóstico do psicopata, em 1976, Hare, Hart e Harpur (veja ao lado), completaram esses critérios. Somando-se as duas listas podemos relacionar as características da lista ao lado.

Dentro dos psicopatas há dois grandes grupos; os depredadores e os parasitas (Karpmam)

Cleckley

Cleckley

Seria a psicopatia extrínseca ou intrínseca ao sujeito
Henry Ey, em seu “Tratado de Psiquiatria“, inclui as Personalidades Psicopáticas dentro do capítulo das doenças mentais crônicas, as quais considera como um desequilíbrio psíquico resultante das anomalias caracterológicas das pessoas. Cita as características básicas das Personalidades Psicopáticas como sendo a anti-sociabilidade e impulsividade (Bruno, 1996). A ideia dos Transtornos de Personalidade tal como sugerido pelo DSM começou em 1966 com Robins.

O que mais se percebe em relação à Personalidade Psicopática são as controvérsias entre os vários autores e nas várias épocas. Sobre sua origem ou natureza ser intrínseca ou extrínseca do sujeito parece haver, de alguma forma, uma perene tendência em se apontar para três conceitos básicos que se digladiam ao longo do tempo.

A primeira posição reflete uma tendência mais constitucionalista (intrínseca, orgânica ou biológica), entendendo que o psicopata se origina de uma constituição especial, geneticamente determinada e, em consequência dessa organicidade, pouco se pode fazer. A segunda tendência é a social ou extrínseca, acreditando que a sociedade faz o psicopata, a sociedade faz seus próprios criminosos por não lhes dar os meios educativos e/ou econômicos necessários.

Através da comparação de dois sistemas educacionais para problemas comportamentais tendo, de um lado a escola inglesa Lymam, com um sistema disciplinar rígido, autoritário, duro e, de outro lado a escola Wiltwyck, americana, onde a ideia era criar um ambiente cálido, afetuoso, propenso a amistosidade, uma espécie de “disciplina de amor” segundo cita Cinta Mocha (Garrido, 1993), pode-se contra-argumentar a tendência extrínseca ou sociológica da psicopatia.

Os resultados mostraram que as pessoas com traços psicopatas constituíram 35% da população em ambas escolas. A instituição americana Wiltwyck teve um marcante êxito inicial, mas a taxa de reincidência em atitudes antissociais ao longo de alguns anos de acompanhamento foi absolutamente o mesmo.

A terceira tendência é a psicanalista, que só trata das perversões em relação à sexualidade. Quando o transtorno implica outras pulsões, Freud fala de libidinização da dita pulsão, a qual havia sido “pervertida” pela sexualidade. A perversão adulta aparece como a persistência ou reaparição de um componente parcial da sexualidade. A perversão seria uma regressão a uma fixação anterior da libido. Assim a perversão chamada fetichismo é ligada à negação da castração. A perversão seria o negativo da neurose, que faz da perversão a manifestação em bruto, não reprimida, da sexualidade infantil (Laplanche, 1981).

A maioria dos autores dessa época procurava substituir o conceito de “constituição psicopática” por “personalidades psicopáticas” já que sua etiologia não era claramente definida. Mas, apesar da etiologia não ser claramente entendida, o quadro clínico da personalidade psicopática foi sendo cada vez mais cristalinamente descrito.

Eissler, no final da década de 40, considerava os psicopatas como indivíduos com ausência de sentimentos de culpa e falta da ansiedade normal, superficialidade de objetivos de vida e extremo egocentrismo. Os irmãos Mc Cord, em 1956, descrevem sua “síndrome psicopática” com as seguintes características: escasso ou nenhum sentimento de culpa, capacidade de amar muito prejudicada, graves alterações na conduta social, impulsividade e agressão.

Resumindo um pouco, outros autores nas décadas sucessivas de 1960 e 1970, definiram os traços característicos da psicopatia com termos tais como; perturbações afetivas, perturbações do instinto, deficiência superegoica, tendência a viver só o presente, baixa tolerância a frustrações. Alguns classificaram esse transtorno como anomalias do caráter e da personalidade, ressaltando sempre a impulsividade e a propensão para condutas antissociais (Glover, Henri Ey, Kolb, Liberman).

Classicamente, hoje em dia e resumindo a evolução do conceito, a Personalidade Psicopática tem sido caracterizada principalmente por ausência de sentimentos afetuosos, amoralidade, impulsividade, falta de adaptação social e incorrigibilidade.

Narcisismo Maligno
Autores psicanalíticos consideram a Psicopatia como uma grave patologia do Superego, seria uma síndrome de Narcisismo Maligno, cujas características seriam a conduta anti-social, agressão ego-sintônica dirigida contra outros em forma de sadismo, ou dirigida contra se mesmo em forma de tendências automutiladoras ou suicidas sem depressão e conduta paranóide.

A estrutura de tipo narcisística do psicopata teria a seguintes características: auto-referência excessiva, grandiosidade, tendência à superioridade exibicionismo, dependência excessiva da admiração por parte dos outros, superficialidade emocional, crises de insegurança que se alternam com sentimentos de grandiosidade.

Portanto, dentro das relações de objeto (com os outros), seria intensa a rivalidade e inveja, consciente e/ou inconscientemente, refletidos na contínua tendência para exploração do outro, incapacidade de depender de outros, falta de empatia com para com outros, falta de compromisso interno em outras relações.

Muitas vezes é extremamente difícil fazer o diagnóstico da psicopatia, quando a situação clínica não está claramente definida. Por isso Otto Kernberg faz um diagnóstico diferencial entre três tipos de ocorrências anti-sociais:

1) A Síndrome do Narcisismo Maligno, representando o Psicopata cuja eventual causa da sociopatia seria fruto do meio e de elementos psicodinâmicos. Aqui a conduta anti-social tem origem no Narcisismo Maligno, há incapacidade em estabelecer relações que não sejam exploradoras, não existe capacidade de identificar valores morais, não existe capacidade de compromisso com os outros e não há sentimentos de culpa;

2) A Estrutura Anti-Social Propriamente Dita. Aqui o quadro é basiacamente o mesmo da anterior, ou seja, também se manifestam condutas anti-sociais mas não há o fenômeno do Narcisismo Maligno. Há também incapacidade de relações não exploradoras, incapacidade de identificação dos valores morais, incapacidade de compromisso com outros e incapacidade de sentimentos de culpa.

3) A Personalidade Narcisística com Conduta Anti-social. Além da conduta anti-social existe uma estrutura narcisística. Não há Narcisismo Maligno, há igualmente incapacidade de relações não exploradoras, incapacidade de identificar valores morais, incapacidade de compromisso com os outros, porém, existe capacidade de sentimento de culpa (Kernberg, 1988).

Cérebro e Personalidade
A personalidade inclui, em meio a todos seus traços, a cognição e a percepção. Essas atividades representam uma operação complexa baseada em redes neuronais intrincadas e perfeitamente integradas, as quais Eduardo Mata chama de Módulos, portanto, a atividade cerebral seria do tipo modular.

A sobrevivência exige funcionamento adequado, muitas vezes automático e inconsciente, de uma quantidade de módulos que tratam de muitos fatores simultaneamente: a motivação, a percepção do ambiente, noção do que é necessário para sobreviver, regulação dos impulsos agressivos e sexuais, formação das relações com outros indivíduos, regulação dos comportamentos intencionais e inibição dos inapropriados.

Portanto, quanto mais eficientes forem esses módulos (Assembleias ou Redes Neuronais), melhor desempenho terá a pessoa e melhor apreensão de sua situação existencial (no mundo), ou seja, a consciência global é consequência da notável capacidade de organização e integração neuronais que o organismo possui.

Todo esse procedimento adaptativo resultante das Redes Neuronais não se faz de maneira linear, seu curso e sequência não se pode prever. Na pessoa normal parece que não basta a compreensão dos fenômenos químicos ou físicos para predizer como se dará a sucessão de atitudes adaptativas, tais como o autocontrole, a iniciativa, a regulação do afeto, do juízo, a destrutividade, o planejamento da fuga ou do ataque. De modo geral, pode-se dizer no máximo haver maior ou menor probabilidade da pessoa reagir assim ou assado, mas as atitudes serão sempre circunstanciais, sem que se tenha certeza ou previsão.

Quando conseguimos prever a maneira como a pessoas reagirá, como atuará em determinadas circunstâncias, em outras palavras, quando a pessoa reage sempre de determinada maneira diante das mesmas circunstâncias, estaremos diante de uma atitude instintiva e quando essa atitude faze sofrer (a pessoa ou os outros), provavelmente estaremos diante de um Transtorno da Personalidade.

Transtornos tais como os casos de Personalidade Múltipla, Personalidade Borderline e Transtornos Dissociativos poderiam ser considerados, pelo menos em parte, como perturbações de funcionamento ou da integração das redes neuronais. Isso caracterizaria uma perturbação do sistema cérebro/mente, a qual poderia ter causas biológicas e/o determinadas pela experiência.

Uma observação interessante é a crescente habilidade das crianças e adolescentes para regular sua conduta à medida que o cérebro amadurece. Esse amadurecimento parece ser consequência não só da experiência, senão também da mielinização das áreas pré-frontais com as consequentes alterações nas redes neuronais. Trata-se de um processo que continua até o fim da vida (em velocidade e quantidade decrescentes).

Este modelo modular ou de redes é também consistente com as pesquisas em relação à compatibilidade do humor com a memória. Partem das observações de que quando se tem determinado estado de humor, há tendência em se ter recordações específicas. Parece ter sido ativada pelo estado de humor uma rede neuronal específica, parece ainda que ao ativar determinada rede neuronal há bloqueio ao acesso a outras representações. Talvez seja por isso que o aconselhamento otimista para quem está deprimido tenha tão escasso resultado, pois a depressão favorece certo tipo de lembranças, recordações, conclusões e fantasias e inibe outros.

Na historia das teorias neurobiológicas da personalidade, registra-se que no século IV antes de Cristo, Hipócrates havia precisado a existência de quatro estilos diferentes de personalidade baseado nos humores. Mais de vinte séculos depois ainda não se tem uma teoria neurobiológica absolutamente precisa, mas, não obstante, na última década do século XX, a chamada “década do cérebro”, produziu-se avanços significativos na neurociência, em particular na área da neuroquímica.

As pesquisas sobre a Personalidade Psicopática têm enfocado ora alguns aspectos sintomáticos, ora outros. Alguns estudos enfocam essa alteração da personalidade em relação às condutas delituosas, à violência, dificuldades no controle dos impulsos, sexualidade de risco e consumo abusivo de substâncias.

Algumas linhas de pesquisa têm dedicado considerável atenção aos aspectos antissociais e criminais desse transtorno, enquanto outros começam a se preocupar com a falta de empatia e loquacidade comum aos psicopatas. Ressaltam-se ainda as pesquisas em relação ao encanto superficial dos psicopatas, à falta de arrependimentos, à incapacidade para amar e à gritante irresponsabilidade. São escassas ainda as pesquisas sobre a Personalidade Psicopática e as condutas terroristas.

Atualmente o estudo da Personalidade Psicopática permite fazer a distinção entre duas estruturas. A primeira delas (Fator 1), agrupa os sintomas de eloquência, falta de sentimentos de arrependimento ou culpa, afetos superficiais, falta de empatia e extrema dificuldade em aceitar responsabilidades. Esta variante não caracteriza necessariamente a pessoa antissocial, antes disso, parece caracterizar uma grande puerilidade ou defeito na maturidade da personalidade.

A segunda estrutura (Fator 2) consiste nos verdadeiros traços antissociais, ou seja, na agressividade e na falta de controle dos impulsos. O Fator 1 não está necessariamente associado ao Fator 2, mas este sim, para que seja dado diagnóstico de Psicopatia, deve obrigatoriamente ter como pré-requisito o Fator 1.

Lewis cita, entre outros, as tipologias de Blackburn. Esse autor refere que, enquanto a psiquiatria norte-americana define a conduta antissocial em termos comportamentais, outras definições têm se preocupado com as alterações emocionais.

Existem dois grupos em relação a esse aspecto. Um deles formado por pessoas com escassos ou nenhum sentimento de arrependimento ou culpa referentes à sua conduta anormal, além de ter pouca ou nenhuma empatia para com seus pares embora se façam simpáticos e agradáveis (Fator 1, de Hare). Parece que o critério de observação é ético por excelência.

O outro grupo é formado por pessoas com tendências neuróticas: apesar da conduta anormal apresentam emotividade excessiva e queixas de conflito interno em relação à culpa, ansiedade, depressão, arrependimento, paranoia, e outros sintomas neuróticos. Aqui os critérios de observação são psicodinâmicos, psicopatológicos. No primeiro caso é a chamada Psicopatia Primária (verdadeira), e a segunda Psicopatia Secundária.

Segundo ideias de Zuckermam (1, 2), uma das características do psicopata seria um marcante traço da personalidade caracterizado por psicoticismo, impulsividade, busca de sensações e atitudes não socializadas, porém, esse super traço Sociopático não estaria presente só na Personalidade Psicopática, mas também na Personalidade Borderline.

Fowles ressalta a “falta de medo” dos psicopatas, mas só na Psicopatia Primária, ou seja, naqueles que não sentem ansiedade. Horvath e Zuckerman afirmam que na busca de sensações e experiências intensas, os psicopatas assumem diversos tipos de riscos, como por exemplo, trabalhos ou esportes perigosos, imprudência ao dirigir, exposição a situações ilegais, uso abusivo de drogas, sexo inseguro. Na vida militar costumam aceitar voluntariamente missões voluntárias de risco.

Um teste de avaliação de sociopatia listando os Fatores 1 e 2.

F Eloqüência 2 1 0
1 Encanto e simpatia superficiais      
1 Sensação de grandiosidade      
1 Mentiras patológicas      
1 Autoridade e mando      
1 Manipulação      
1 Falta de arrependimento e culpa      
1 Afetos superficiais      
1 Instabilidade emocional      
1 Falta de empatia para com os outros      
1 Não aceita responsabilidade por suas ações      
2 Necessidade de estimulação continuada      
2 Tendência ao Aborrecimento      
2 Estilo de vida parasita      
2 Poiuco controle da conduta      
2 Problemas de conduta precoce      
2 Falta de metas realistas      
2 Impulsividade      
2 Irresponsabilidade Delinqüência juvenil      
TOTAL

Pontuação:
Os traços são separados em duas categorias; F1 e F2, especificados na primeira coluna da esquerda, sendo:
F1= Traços centrais da psicopatia.
F2= Traços de instabilidade.
Valoração:
As notas variam entre 2, 1 e 0 assim atribuídos:
– 2 Pontos: quando a conduta do sujeito é consistente e se ajusta bem ao item.
– 1 Ponto: quando a conduta do sujeito se ajusta relativamente mas não no grau suficiente para pontuar 2. É para quando existem dúvidas, conflitos na informação que não podem resolver-se a favor da pontuação 2, mas também não chega a 0.
– 0 Ponto: quando o item não se aplica. O sujeito não mostra o traço ou a conduta na questão que propõe o item.

Conclusão:
0-20: normal.
21-30: grupo médio.
31 o mais: psicopata.

Ballone GJ – Personalidade Psicopática – in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br/, revisto em 2015.