Frigidez – desejo sexual hipoativo

A descrição do Transtorno do Desejo Sexual Feminino diz que o baixo desejo sexual pode ser global, abrangendo todas as formas de expressão sexual ou apenas situacional, limitado a um determinado parceiro ou a uma determinada atividade sexual.

Doutor, meu problema é a frigidez. O que o senhor me recomenda?” Essa pergunta, fria e simples, tem sido um dos maiores desafios à ginecologia e à psiquiatria. Trata-se mais de uma confissão constrangida do que uma queixa médica. O problema vem geralmente acompanhado de sentimentos de frustração, vergonha, mágoa e, às vezes, culpa. A pessoa sente como se a parte psíquica que desperta o interesse pelo sexo estivesse morta ou desligada, não raro sente injustamente que a culpa é sua falta de determinação ou entusiasmo.

Por questão acadêmica a Frigidez deve ser diferenciada da falta de orgasmo. Muitas mulheres não conseguem experimentar orgasmo mas continuam tendo prazer e interesse sexual. Os problemas que envolvem o desempenho sexual feminino podem ser agrupados sob o título de Disfunção Sexual Feminina onde se inclui o Transtorno do Desejo Sexual Feminino.

Na absoluta maioria dos casos o desinteresse pelo sexo está ligado a fatores psicológicos, entre eles um dos motivos mais apontado é a monotonia conjugal. Estudo populacional com 356 mulheres entre 20 e 70 anos identificou que a diminuição do desejo ocorre mais frequentemente nos relacionamentos mais longos. Por outro lado, entre as mulheres que relatam maior satisfação com seu parceiro a diminuição do desejo sexual foi bem menos provável (Hayes).

Outros fatores relacionados ao desinteresse sexual e conhecidos por todos são a educação rígida e ortodoxa recebida, a falta de diálogo conjugal, práticas sexuais pouco gratificantes e outras. O próprio envelhecimento e as dificuldades do cotidiano também podem interferir na satisfação sexual. A maioria das pacientes não procura o especialista para saber se tem frigidez, elas já vem ao consultório sabendo que têm. A expectativa delas é saber se existe uma fórmula mágica para o problema.

Fazer um diagnóstico correto é muito importante e em boa parte das vezes o problema não é exclusivo da paciente e sim do casal, mas geralmente a outra pessoa não aceita sua parcela de culpa e vive insistindo para que a mulher procure um tratamento, preferencialmente milagroso.

A falta ou diminuição do desejo sexual pode também estar ligada a problemas orgânicos, como por exemplo, alterações hormonais, debilidade física por conta de outras doenças ou até mesmo pelo uso incorreto de medicamentos. Entre os estudos que sugerem provável origem física da baixa libido feminina, um dos mais recentes foi realizado na Wayne State University por Michael Diamond, em Detroit, e apresentado à Sociedade Americana para Medicina Reprodutiva sugerindo diferenças no processamento mental em mulheres que têm impulsos sexuais baixos.

Independente da causa, os transtornos da função sexual em ambos os sexos são estudados, considerando-se algumas fases específicas da atividade sexual, são agrupadas em 3 momentos:
– Desejo
– Excitação
– Orgasmo

Nossa cultura tem forte apelo para um desempenho sexual obrigatoriamente fogoso e, dessa forma, qualquer diminuição na vontade de fazer sexo é considerada impotência ou frigidez, quase uma invalidez sexual.

A classificação DSM-5 reuniu os transtornos funcionais sexuais em um mesmo capítulo da seguinte forma: Retardo da Ejaculação, Transtorno Erétil, Transtorno do Orgasmo Feminino, Transtorno do Desejo/Excitação Sexual Feminino, Transtorno de Dor Gênito-Pélvica/Penetração, Transtorno do Desejo Sexual Masculino Hipoativo, Ejaculação Precoce e Disfunção Sexual Induzida por Medicação/Substância. O que mais se identifica com o Desejo Sexual Hipoativo da mulher é o Transtorno do Desejo/Excitação Sexual Feminino.

Há ainda questões orgânicas que não podem ser confundidas com Transtorno do Desejo Sexual Feminino. É o caso, por exemplo, do vaginismo e da dispareunia, que causam dor à penetração, portanto, comprometem irreparavelmente a excitação sexual, além de poder levar ao medo de sexo ou à fuga total das atividades sexuais.

Para o diagnóstico de qualquer desses transtornos incluído a Disfunção Sexual Feminina, é necessário que as manifestações sejam persistentes. É importante também reconhecer se essas alterações sexuais sejam primárias e que não sejam consequência de alguma outra condição clínica. Costuma-se também subdividi-las em situacionais ou generalizadas, quer dizer, se a dificuldade sexual acontece apenas em situações específicas ou se ocorrem em qualquer situação que envolve atividade sexual.

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O contexto interpessoal deve ser levado em conta nas avaliações do transtorno do interesse/excitação sexual feminino. Uma “discrepância de desejo”, em que a mulher sente menos desejo para a atividade sexual que seu parceiro, não é suficiente para o diagnóstico de transtorno do interesse/excitação sexual feminino. Para que os critérios do transtorno do interesse/excitação sexual feminino sejam atendidos, deve haver ausência ou frequência ou intensidade reduzida de pelo menos três entre os seis indicadores por um período mínimo de aproximadamente seis meses.

Pode haver diferentes perfis de sintomas entre as mulheres, assim como variabilidade na forma de expressão do interesse e da excitação sexual. Por exemplo, em algumas mulheres, o transtorno do interesse/excitação sexual poderá ser expresso como falta de interesse pela atividade sexual, ausência de pensamentos eróticos ou sexuais e relutância em iniciar a ati-vidade sexual e em responder aos convites sexuais do parceiro.

Em outras mulheres, as características principais podem ser a incapacidade para ficar sexualmente excitada e para responder aos estímulos sexuais com desejo.

Causas Orgânicas para o Desejo Sexual Hipoativo
– Função hipotalâmica-hipofisária anormal. Isso resulta na diminuição do Fator de Liberação de LH (hormônio luteinizante), com consequente diminuição de seu nível sérico e simultâneo aumento de prolactina. Este último um hormônio muito relacionado ao desinteresse sexual.

– Anomalias testiculares capazes de produzir uma diminuição de testosterona.

– Diminuição de testosterona ovariana e/ou suprarrenal na mulher.

– Enfermidades sistêmicas, tais como a insuficiência renal crônica com consequente diminuição de gonadotrofinas, a cirrose hepática com a consequente atrofia testicular e transformação de androgênios em estrogênios, a Síndrome de Cushing, com a consequente diminuição de testosterona plasmática, a insuficiência suprarrenal, o hipotireoidismo e as enfermidades debilitantes.

– Medicamentos e drogas. Nessa categoria dos agravantes da hipofunção sexual está o álcool, em primeiro lugar, os tranquilizantes, os anti-hipertensivos, entre outros.

Epidemiologia
O maior desafio à precisão estatística está na omissão dessas queixas, saber se o que as pessoas se queixam são problemas da função sexual propriamente dita ou da satisfação com o sexo que têm. Pesquisas mais antigas mostravam que 50% dos homens e 77% das mulheres queixavam dificuldades sexuais. A maioria dessas dificuldades relatadas se relaciona mais à falta de satisfação sexual global do que alguma disfunção específica (Frank).

A questão é complexa porque o que vemos é uma espécie de “doença relativa“, isto é, muitas vezes trata-se de uma mulher com desempenho sexual aquém daquilo que seu companheiro espera dela. Entretanto, por ela mesma não há sofrimento algum, porém, em nome da boa adaptação conjugal é importante avaliar as questões relacionadas ao desempenho sexual do casal. Pesquisa com 5.463 mulheres entre 18 e 49 anos mostrou que a presença de dificuldades sexuais se relaciona a maior probabilidade de desarmonia conjugal, comparando-se com mulheres sem esses problemas (Witting).

Há anos um terço das mulheres relatava falta de interesse sexual e quase um quarto delas reclamava não sentir orgasmo. Um pouco menos de 20% tinha dificuldades de lubrificação e mais de 20% achava o sexo desagradável. Inegavelmente trata-se de uma ampla prevalência de queixas sexuais femininas (Laumann) .

Entre as queixas sexuais femininas o que se observa é que  33%, delas diz respeito ao baixo desejo sexual. Em segundo lugar a falta de orgasmo – anorgasmia – com 24% das queixosas, seguido pelas dificuldades de excitação e/ou lubrificação, com 20%, dor vaginal na relação – dispareunia – com 15% e o restante com outras queixas.

A prevalência dos transtornos sexuais femininos é extremamente elevada e, muito provavelmente, superior à prevalência das disfunções sexuais masculinas. No Brasil a falta de desejo sexual mostrou ser a maior queixa sexual feminina. A prevalência do problema é de 23,4% para as mulheres mais jovens e chega a atingir 73,0% entre aquelas de idade mais avançada (Abdo). Esses números são maiores entre as mulheres brasileiras do que entre as europeias e americanas, nas quais as queixas de pouco desejo sexual variou de 11% a 53% (Hayes).

Transtorno do Desejo Sexual Feminino
No atual manual de classificação de transtornos mentais DSM-5, as Disfunções Sexuais formam um grupo de transtornos caracterizados por uma perturbação  significativa na capacidade para responder sexualmente ou de sentir prazer sexual. É possível que uma mesma pessoa apresente mais de uma disfunção sexual ao mesmo tempo.

No capítulo do DSM-5 que engloba esses problemas estão reunidos o Retardo da Ejaculação, o Transtorno erétil, Transtorno do orgasmo feminino, Transtorno do desejo/excitação sexual feminino, Transtorno de dor genital, Transtorno do desejo sexual masculino hipoativo, Ejaculação precoce e Disfunção sexual induzida por medicação ou substância. O Transtorno do Desejo Sexual Feminino é uma das formas mais comuns de disfunção sexual feminina.

Como se vê, para o diagnóstico do Transtorno do Desejo Sexual Feminino este deve causar sofrimento e dificuldades interpessoais. Acreditamos que a primeira questão a ser levantada, diante de uma paciente com queixas sobre seu desejo sexual é saber se ela gostaria de ser diferente ou se está bem desse jeito. Em segundo lugar, é saber se ela gostaria de ser diferente para acomodar alguma situação, para atender aspiração de outra pessoa, para estar inserida em modelo cultural desejável ou o quê?

A dificuldade que se apresenta no consultório de psiquiatria é que algumas pacientes reivindicam, com certa simplicidade inocente, ter vontade de ter mais vontade sexual. Vontade de ter vontade é uma questão difícil para a psiquiatria resolver. Sendo um tema tão complexo e tratando-o com tamanha simplicidade, de duas uma: ou estaria sendo menosprezado o assunto ou o terapeuta.

De fato, trata-se de tema delicado e difícil de se entender: como uma pessoa poderia desejar ter desejo por aquilo que não tem desejo? Seria o mesmo que não estar satisfeito com o fato de não ter vontade de comer melancias,… mas como existe um compromisso de adaptação à algum apelo cultural, gostaria de gostar de melancias. De qualquer forma, a despeito das armadilhas do raciocínio e das palavras, o tema é realmente de inegável importância.

A descrição do Transtorno do Desejo Sexual Feminino diz que o baixo desejo sexual pode ser global, abrangendo todas as formas de expressão sexual ou apenas situacional, limitado a um determinado parceiro ou a uma determinada atividade sexual. Existe nessas pessoas pouca motivação para a busca de estímulos e pouca frustração quando privadas da oportunidade de vivência sexual.

A paciente portadora do Transtorno do Desejo Sexual Feminino – leia-se, mulher portadora de frigidez – em geral não costuma tomar iniciativa para a atividade sexual ou pode se engajar com certa relutância quando esta atividade é iniciada pelo parceiro.

 

Critérios do DSM-5 para diagnóstico de Transtorno do Interesse/Excitação Sexual Feminino
A. Ausência ou redução significativa do interesse ou da excitação sexual, manifestada por pelo menos três dos seguintes:

1. Ausência ou redução do interesse pela atividade sexual.
2. Ausência ou redução dos pensamentos ou fantasias sexuais/eróticas.
3. Nenhuma iniciativa ou iniciativa reduzida de atividade sexual e, geralmente, ausência de receptividade às tentativas de iniciativa feitas pelo parceiro.
4. Ausência ou redução na excitação/prazer sexual durante a atividade sexual em quase todos ou em todos (aproximadamente 75 a 100%) os encontros sexuais (em contextos situacionais identificados ou, se generalizado, em todos os contextos).
5. Ausência ou redução do interesse/excitação sexual em resposta a quaisquer indicações sexuais ou eróticas, internas ou externas (p. ex., escritas, verbais, visuais).
6. Ausência ou redução de sensações genitais ou não genitais durante a atividade sexual em quase todos ou em todos (aproximadamente 75 a 100%) os encontros sexuais (em contextos situacionais identificados ou, se generalizado, em todos os contextos).
B. Os sintomas do Critério A persistem por um período mínimo de aproximadamente seis meses.
C. Os sintomas do Critério A causam sofrimento clinicamente significativo para a mulher.
D. A disfunção sexual não é mais bem explicada por um transtorno mental não sexual ou como consequência de uma perturbação grave do relacionamento (p. ex., violência do parceiro) ou de outros estressores importantes e não é atribuível aos efeitos de alguma substância/medicamento ou a outra condição médica.

Determinar o subtipo:
Ao longo da vida: A perturbação esteve presente desde que a mulher se tornou sexualmente ativa. Adquirido: A perturbação iniciou depois de um período de função sexual relativamente normal.

Determinar o subtipo:
Generalizado: Não se limita a determinados tipos de estimulação, situações ou parceiros.
Situacional: Ocorre somente com determinados tipos de estimulação, situações ou parceiros.

Especificar a gravidade atual:
Leve: Evidência de sofrimento leve em relação aos sintomas do Critério A.
Moderada: Evidência de sofrimento moderado em relação aos sintomas do Critério A.
Grave: Evidência de sofrimento grave ou extremo em relação aos sintomas do Critério A

Para começar a entender o Transtorno de Desejo Sexual Feminino devemos refletir, antes, sobre o próprio desejo sexual, cuja ausência ou diminuição é o primeiro requisito para o diagnóstico. O desejo sexual é um fenômeno subjetivo extremamente complexo, para cuja origem contribuem significativamente as fantasias sexuais, os sonhos sexuais, a iniciação do comportamento sexual, a receptividade ao e do par sexual, as sensações genitais, as respostas aos sinais eróticos no meio ambiente e muitos outros fatores.

Muito ao contrário do que pensam alguns, o desejo sexual do ser humano adulto, maduro e consciente não se resume à simples pulsões fisiológicas, tal como é o caso da vontade de comer ou da vontade de beber. Sexo por impulso, ou seja, exclusivamente biológico, acontece nos animais e no ser humano imaturo, biológica ou mentalmente. No ser humano maduro e consciente considera-se que o desejo sexual seja um complexo vivencial formado por três componentes principais; a biologia, a psicologia e a socialização. Interessa aqui esses três componentes interagindo continuamente uns com os outros.

A expressão “desejo sexual” envolve a inclinação humana para o comportamento sexual, o qual tem início tanto na cultura, através da motivação sexual, como na pessoa, através do impulso sexual.

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O que é desejo sexual normal
Em vista da falta de referências na literatura especializada sobre a idade, frequência ou grau do desejo sexual que possa ser considerado normal, não-normal ou patológico, o diagnóstico deve fundamentar-se no julgamento clínico, com base nas características do indivíduo, nas determinantes interpessoais, no contexto de vida e na conjuntura cultural.

Imbuído dessa função e autoridade, o médico deve avaliar os parceiros em relação às eventuais discrepâncias na expectativa da sexualidade, tanto a expectativa de um quanto de outro, e quanto às características do relacionamento do casal. Às vezes, o desejo sexual aparentemente acanhado de um reflete apenas as necessidades excessivas do outro.

Algumas circunstâncias podem ter um efeito prejudicial sobre um desejo sexual originariamente normal, como por exemplo, a expectativa ou medo de sofrer dor durante a penetração (dispareunia), ou os problemas relacionados à imagem corporal e à autoestima, ou ainda as justificadas preocupações com as adversidades cotidianas.

Os transtornos depressivos lideram a lista das circunstâncias emocionais adversas que interferem na vontade, na energia e no prazer em quase todas as atividades humanas, especialmente na atividade sexual.

Há questões muito interessantes relacionadas à possibilidade de se classificar como doença a maioria dos casos de pouca intensidade do desejo sexual. Primeiramente, a falta de desejo sexual sendo considerada uma doença, isenta a mulher de qualquer responsabilidade sobre seu desempenho sexual. Sendo doença ainda e, principalmente, uma doença própria da mulher, a qualidade sexual da participação masculina na vida do casal estaria preservada. Além de atender emocionalmente ao casal disfuncional ainda podem ser vendidos alguns medicamentos. Todos ganham.

Com isso não se quer dizer que o Transtorno de Desejo Sexual Feminino não exista: existe sim. Entretanto, pode ser que não exista nas proporções que se acredita. Pode ser ainda que, embora o foco do problema seja o desejo sexual feminino, as causas desta “invalidez” estejam localizadas muito além da mulher.

O que costuma ser imperdoável para a mulher
Em Edição Especial da revista Época (ed. 303), Editora Globo, há um artigo interessantíssimo sobre a sexualidade atual da mulher e sugere a
lgumas sugestões, conselhos ou “dicas” com o propósito de ampliar o conhecimento masculinos sobre os anseios sexuais femininos e, com isso, minimizar as disfunções sexuais do casal.

Lideram a lista de queixas femininas na cama:
– A pressa que o homens têm de chegar “lá” e o fato de muitos dormirem depois de gozar
– A idéia de que toda mulher adora discutir a relação depois de transar. Para a maioria, mais vale um abraço do que passar discutir “ficada”
-Não dar importância às preliminares é gravíssimo. A penetração, que para os homens é o auge da transa, para as mulhres é só parte da relação.

Resumindo, não se deve:
– Ser rápido demais
– Dormir logo depois do orgasmo
– Pular a etapa das carícias
– Insistir em saber se mereceu um 10 pela performance
– Falar de antigas conquistas na cama.

Apesar da mulher estar experimentando que o sexo e afeto obrigatoriamente nem sempre andam juntos, a maioria delas ainda escolhe seu parceiro mais por empatia e afinidades que por sua aparência.

Oscilações da Libido Feminina
O organismo feminino sofre intensa influência hormonal durante o ciclo menstrual. Esses hormônios oscilam muito durante trinta dias e essas oscilações podem interferir nas emoções, inclusive no desejo sexual.

O hormônio responsável pela libido é a testosterona, um hormônio masculino que existe em menor quantidade no organismo da mulher. No primeiro dia do ciclo, primeiro dia da menstruação, os níveis de estrógeno e progesterona caem, mas fazem com que a mulher tenha desejo, mesmo porque elas têm mais lubrificação e estão relaxadas com o final dos sintomas da TPM.

Depois que a menstruação acaba a produção de estrógeno cresce, assim como a de progesterona, em menor quantidade. O apetite sexual também aumente, principalmente quando se chega entre o 12º e o 14º dia do ciclo.

Neste período, quando a mulher está fértil, os níveis de testosterona chegam ao seu pico. Isso faz com que a mulher fique mais atraente e com a libido em alta. É uma forma de estimular a procriação no dia que ela tem mais propensão para engravidar. Mas isso não é uma regra, pois outras alterações influenciam no desejo.

Depois disso, acontece o contrário, ou seja, a partir do 17º dia o desejo sexual não é tão intenso porque os níveis de estrógeno caem e os sintomas da conhecida TPM começam, isso dias depois 22º ou 23º. Caso ocorra a gravidez, a progesterona prepara o útero para receber o embrião e a mulher chega a ficar mais inchada.

Durante a gestação, a relação entre desejo sexual e fases da gravidez é semelhante com a que ocorre durante o ciclo menstrual, só que dividido em três trimestres. No primeiro trimestre há diminuição do desejo, relacionado com sintomas desagradáveis, como o medo de abortamento, medo de machucar o bebê e as mudanças físicas e psíquicas às quais o casal deve se adaptar.  No segundo trimestre há um aumento do desejo sexual, às vezes sendo até maior do que antes da gravidez. No terceiro trimestre até o final da gestação a libido fica menor, geralmente por conta do mal-estar físico, cansaço, estresse, ansiedade e o incômodo no momento das relações.

Anticoncepcionais, como, pílula, anel vaginal, implantes e adesivos inibem a libido. Isso acontece porque certos anticoncepcionais atingem a SHBG, proteína responsável pelo transporte da testosterona. Eles também bloqueiam a ovulação, dessa forma o desejo, que vai e vem durante o ciclo, é amenizado. A relação da libido com a pílula depende de cada mulher, vai variar de cada paciente e sua reação aos anticoncepcionais com baixa ou alta dosagem de estrógeno e progesterona.

Sem motivação e estímulo sexual a ideia de Transtorno de Desejo Sexual Feminino fica comprometida.
Historiadores, sociólogos, filósofos, teólogos e antropólogos aceitam o fato da vida sexual sofrer importante influência de forças culturais, as quais pesam tanto quanto ou mais que os aspectos biológicos ou psicológicos. Assim sendo, pode-se dizer que o desejo sexual humano tem um importante componente cultural: a Motivação Sexual.

Em alguns ambientes culturais – seja uma família ou um país – o sexo ainda é considerado algo pecaminoso, algo que deve ser combatido veementemente, repudiado… Muitas pessoas submetidas a tal influência passam a reprimir seus desejos sexuais e, consequentemente, a experimentar situações fortemente conflitivas de desagradáveis consequências emocionais.

Nesses casos e nesses meios culturais, as mulheres portadoras de Desejo Sexual Hipoativo seriam consideradas, ao contrário de um problema a ser classificado pela psiquiatria, dotadas de atitudes elogiosas e valorizadas.

As aspirações ou motivações sexuais brotam da conjunção favorável entre fatores biopsicológicos e culturais. Representam um dinamismo psíquico estimulado por valores culturais com o aval da integridade biológica. Essas motivações variam em temática e potência entre as pessoas, indo das fantasias e devaneios sobre uma sexualidade culturalmente recomendada, até os limites impostos pelas possibilidades pessoais, passando pelas questões ditas de consciência, as quais reprimem sentimentos e comportamentos por toda a vida.

Em mulheres a motivação sexual parece depender bastante de elementos culturais cerceadores de natureza moral, religiosa, de decência, decoro, pudor, e outros valores. Nos homens, por sua vez, parecem influir outros parâmetros culturais, embora de natureza mais permissiva, igualmente tirânicos. No fundo, todos se submetem ao modelo cultural que recomenda o que deve ou não deve motivar o desejo sexual.

A motivação sexual é quase a mesma coisa que o Estímulo Sexual, pois ambos dizem respeito à influência que o “objeto” exerce sobre o “sujeito”, ou seja, é o efeito sexual causado pelo ambiente sobre a pessoa.

Academicamente podemos dizer que a motivação é de origem cultural e geral, diz respeito a “autorização” ou licitude para a pessoa sentir desejo sexual. A motivação sexual obedece recomendações culturais: só mulheres casadas devem sentir tesão, ou isso também inclui as solteiras? Deve-se ter desejo sexual durante a quaresma? Pessoas com mais de 70 anos podem ter desejo sexual? Por outro lado, é bastante estimulado sentir desejo sexual durante a folia de carnaval. Universitários devem sentir desejo sexual o tempo todo. Jovens copulam continuamente, idosos são proibidos, e assim por diante.

A motivação sexual não apenas autoriza a experimentar desejo mas, sobretudo, aponta quais objetos devem estimular esse desejo: deve (ou pode) excitar-se por pessoas do sexo oposto, não se deve desejar o próprio cunhado, pessoas muito mais jovens não devem despertar desejo sexual… irmã, então, nem pensar. O mesmo para mulher de amigo. Só se tem tesão por pessoas muito mais velhas se forem ricas ou muito interessantes… e assim por diante.

Enquanto a motivação sexual disponibiliza a pessoa para o sexo, decidir com quem fazer esse sexo é papel do estímulo sexual. Depois da motivação sexual, a vontade de aproximar-se dessa ou daquela pessoa com intenções sexuais, de eleger esta ou aquela pessoa para o sexo é atributo do estímulo sexual.

O ambiente cultural motiva, a outra pessoa estimula. Assim como o incesto é culturalmente desmotivado, a pessoa com mau hálito é intimamente desestimulante; o primeiro caso é a motivação, o segundo a estimulação.

Como se percebe, a cultura sugere um forte apelo sexual, determina normas de sexualidade e recomenda protocolos. A mídia banaliza e torna naturalmente desejável o relacionamento sexual entre duas pessoas que mal se conhecem, simplesmente porque se encontram na mesma festa, ou fascinam o público em um reality show. O modismo libertino sugere certa obrigatoriedade de promiscuidade sexual, aliás, o conceito de promiscuidade também é cultural. As regras de condenação do promíscuo são éticas, portanto, culturais. A motivação sexual permitida ou condenada diante do promíscuo exemplifica bem o componente cultural.

As normas do “politicamente correto” motivam pessoas a adotar o modelo cultural do meio. A cultura ocidental motiva pessoas para o sexo e, preferencialmente, para um hipersexo. A motivação sexual pede uma certa obediência ao modelo cultural e resulta em frustração caso este modelo não seja obedecido. Agora é possível entender melhor a questão aparentemente paradoxal estampada acima: quando a pessoa vem ao médico desejando ter desejo sexual, ou querendo gostar mais de sexo; “doutor… eu gostaria de gostar…”.

Algumas vezes, embora haja uma motivação cultural instigante para o sexo, como por exemplo, um casal de jovens atraentes em viagem de férias por uma praia paradisíaca, pode ocorrer o inesperado fracasso do estímulo sexual indispensável ao sexo em um dos parceiros. é o famoso “quando um não quer dois não brigam”. Isso pode acontecer, por exemplo, se algum requisito importante não estiver sendo atendido, como por exemplo, higiene, carinho, compreensão, segurança, companheirismo, etc. Podemos, neste caso, falar em Desejo Sexual Hipoativo? Melhor seria inventar algum transtorno de desleixo sexual. Isso, pelo menos, não seria monopólio das mulheres.

Se situações como esta acontecem às pessoas absolutamente normais, emocionalmente sadias, imagine-se o que pode acontecer sexualmente às pessoas com depressão, quando então a vitalidade e a capacidade de sentir prazer estão fortemente reduzidas? Na depressão o “objeto” deixa de representar para o “sujeito” aquilo que representava em condições normais. O próprio sujeito deprimido deixa de representar para si mesmo aquela pessoa capaz de fazer o sexo, de dar prazer, de amar e ser amada.

Assim como há prejuízo do estímulo sexual porque a outra pessoa não corresponde às expectativas, algumas vezes a própria pessoa não satisfaz suas próprias expectativas a respeito de si mesma, não se considera mais atraente, sente-se incapaz de despertar um estímulo sincero na outra. O envelhecimento exerce um efeito desastroso sobre a autoestima, tanto quanto a depressão. Podemos falar aqui em Desejo Sexual Hipoativo? Melhor seria dar crédito à ideia de que um dos sintomas frequentes da depressão é a redução significativa da libido, que por sinal também não é monopólio das mulheres.

Em relacionamentos sólidos e maduros, quando a outra pessoa estimula sentimentos negativos, quando há mágoas, decepções, incompreensão, perda da admiração, geralmente perde-se o estímulo sexual. As decepções da vida conjugal são as maiores responsáveis pela perda do estímulo sexual. Podemos falar em Desejo Sexual Hipoativo quando os outros sentimentos necessários para um vínculo afetivo já não existem mais?

No ser humano maduro a vontade de ter um relacionamento sexual costuma estar atrelada a algum tipo de apreço ou sentimento pelo par, além da necessária compatibilidade sexual. A análise de fatores psicológicos ajuda a explicar grande parte dos problemas de falta motivação sexual na população feminina.

Segundo pesquisa de 2008, nos casos diagnosticados como Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo as principais queixas sobre o parceiro incluíam poucos carinhos preliminares em 42% dos casos e, em 35%, um visível desinteresse do parceiro (Witting). Como se vê, é importante avaliar a compatibilidade conjugal antes de se falar em Disfunção Sexual Feminina, uma vez que a participação masculina pode influenciar fortemente o desejo feminino para o sexo.

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Transtorno do Orgasmo Feminino

O transtorno do orgasmo feminino se caracteriza pela dificuldade de atingir o orgasmo e/ou pela intensidade muito reduzida das sensações orgásmicas (DSM-5). As mulheres apresentam ampla variabilidade no tipo ou na intensidade da estimulação que produz o orgasmo. Da mesma forma, as descrições subjetivas de orgasmo são extremamente variadas, o que sugere que seja experimentado de maneiras muito diferentes entre as mulheres e em diferentes ocasiões pela mesma mulher.

Para o diagnóstico de transtorno do orgasmo feminino, os sintomas devem ser experimentados em quase todas ou em todas as ocasiões (aproximadamente 75 a 100%) de atividade sexual (em contextos situacionais identificados ou, se generalizado, em todos os contextos) e devem ter duração mínima de aproximadamente seis meses. A aplicação dos critérios de gravidade e duração mínimas tem como objetivo distinguir as dificuldades transitórias de orgasmo da disfunção orgásmica mais persistente.

 

Referências:
Abdo CHNPerfil sexual da população brasileira: resultado do Estudo do Comportamento Sexual (ECOS) do Brasileiro. [Sexual profile of brazilian population: results from Brazilian Study of Sexual Behavior (BSSB)]. RBM Rev Bras Med. 2002;59(4):250-7.

Frank E, Anderson C, Rubinstein DFrequency of sexual dysfunction in “normal” couples. N Engl J Med. 1978 Jul 20;299(3):111-5

Hayes RD, Dennerstein L, Bennett CM, Koochaki PE, Leiblum SR, Graziottin ARelationship between hypoactive sexual desire disorder and aging. Fertil Steril. 2007;87(1):107-12.

Hayes RD, Dennerstein L, Bennett CM, Sidat M, Gurrin LC, Fairley CK – Risk factors for female sexual dysfunction in the general population: exploring factors associated with low sexual function and sexual distress. J Sex Med. 2008;5(7):1681-93.

Laumann EO, Paik A, Rosen RCThe epidemiology of sexual dysfunction: results from the National Health and Social Life Survey.Int J Impot Res. 1999 Sep;11 Suppl 1:S60-4.

Shifren JL, Monz, B, Russo P, et al.Sexual Problems and Distress in United States Women: Prevalence and Correlates. Obstet Gynecol 2008;112(5): 968-969.

Witting K, Santtila P, Varjonen M, et al. – Female sexual dysfunction, sexual distress, and compatibility with partner. J Sex Med. 2008;5(11):2587-99.

 

 

para referir:
Ballone GJAbuso no Relacionamento Íntimo. in. PsiqWeb, Internet – disponível em http://www.psiqweb.net, 2016

violência doméstica

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<a href=”http://psiqweb.net/index.php/forense/violencia-domestica/” target=”_blank”>A <em>Violência Psicológica</em> ou <em>Agressão Emocional</em>, às vezes tão ou mais prejudicial que a física, é caracterizada por rejeição, depreciação, discriminação, humilhação, desrespeito e punições exageradas.</a>

relacionamentos difíceis

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<a href=”http://psiqweb.net/index.php/depressao-2/depressao-afetando-o-relacionamento/”>Dificuldades de convivência familiar são comuns com pacientes distímicos, já que a <em>Distimia</em> está identificada como <em>mau-humor</em>. A convivência com pessoas mau-humoradas é muito difícil.</a>

disfunção sexual

impot

<a href=”http://psiqweb.net/index.php/depressao-2/depressao-e-disfuncao-sexual/”>A disfunção sexual é considerada um problema de saúde pública, por sua alta incidência em homens de todas as idades. O desempenho sexual é um dos aspectos de grande influência no bem-estar psicológico</a>

Depressão e gravidez

grav

<p style=”text-align: left;”><em><a href=”http://psiqweb.net/index.php/depressao-2/depressao-e-gravidez/”>O estado emocional da mãe influi no futuro bem estar emocional da criança que vai nascer ou, outras vezes, determinar até a interrupção da gravidez.</a></em></p>