Psicogeriatria

Na medida em que as pretensões de controle sobre os sentimentos da pessoa amada não são contidas, não são refreadas, surge uma imperiosa inclinação para a posse, para o domínio total da pessoa amada.

O relacionamento do idoso com o mundo se caracteriza pelas dificuldades adaptativas, tanto emocionais quanto fisiológicas –  seu performance ocupacional e social, o pragmatismo, a dificuldade para aceitação do novo, as alterações na escala de valores e a disposição geral para o relacionamento objectual de sua realidade.

No relacionamento com sua história o idoso pode atribuir novos significados a fatos antigos e os tons mais maduros de sua afetividade passam a colorir a existência com novos matizes; alegres ou tristes, culposas ou meritosas, frustrantes ou gratificantes, satisfatórias ou sofríveis… Por tudo isso a dinâmica psíquica do idoso é exuberante, rica e complicada.

Freud afirmava, com notável sabedoria, que os determinantes patogênicos envolvidos nos transtornos mentais poderiam ser divididos em duas partes:

1- aqueles que a pessoa traz consigo para a vida e;
2- aqueles que a vida lhe traz.

No envelhecimento fica evidente por um lado, os fatores que o indivíduo traz consigo em sua constituição e, por outro, os fatores trazidos à ele pelo seu destino. O equilíbrio psíquico do idoso depende, basicamente, de sua capacidade de adaptação à sua existência presente e passada e das condições da realidade que o cercam.

Disposições Pessoais
As Disposições Pessoais são os elementos que a pessoa traz para a vida, referidos por Freud em relação à constituição pessoal. Ajuriaguerra, ao afirmar que “envelhece-se como se viveu“, certamente estava pensando nos traços pessoais de nossa constituição que acabam ficando mais marcantes com o envelhecimento. A casuística da prática clínica tem mostrado, embora nunca de maneira absoluta, que os indivíduos portadores de dificuldades adaptativas em idade pregressa envelhecem com maiores dificuldades.

Se os acontecimentos existenciais eram sentidos com alguma dificuldade ou sofrimento quando mais jovem, sendo a própria fisiologia da época mais favorável e as condições de vida mais satisfatórias e atraentes, no envelhecimento, quando as circunstâncias concorrem naturalmente para um decréscimo na qualidade geral de vida, a adaptação será muito mais problemática. Portanto, está correto dizer que quanto melhor tenha sido a adaptação da pessoa à vida em idades pregressas, melhor será sua adaptação no envelhecimento.

Por outro lado, observa-se uma significativa melhora em alguns casos transtornos emocionais pregressos com o envelhecimento. Isso nos mostra, de fato, não haver uma desestruturação psíquica no envelhecimento mas sim, uma alteração estrutural na dinâmica psíquica, novos arranjos psicodinâmicos e nova arquitetura afetiva distinta da anterior.

Nestes casos, um ambiente pleno de carinho e atenção em torno do idoso, juntamente com a serenidade afetiva própria da involução, favoreceriam o acomodamento emocional ao envelhecimento. Tal “serenidade afetiva“, necessária à calmaria de transtornos emocionais no envelhecimento, seria uma circunstância emocional mais tranquila, possivelmente ausente em épocas anteriores e, cuja ausência persistente em alguns idosos, poderia contribuir para a manutenção de um antigo quadro neurótico.

As alterações psicoestruturais benéficas são mais observáveis em alguns casos de transtornos obsessivos, histéricos e fóbicos, porém, não devem ser entendidos como via de regra. Mais comum no envelhecimento, entretanto, é o agravamento e não a melhora das alterações psíquicas anteriormente constatadas. No caso de transtornos emocionais do idoso, assim como nas demais idades, o desajuste decorre do grande esforço interno em conseguir uma satisfação existencial e uma adaptação à realidade.

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SENILIDADE E SENESCÊNCIA

A senescência e a senilidade são temas cada vez mais explorados, considerando o crescente aumento da população idosa no mundo, principalmente no Brasil. A assistência ao idoso deve prezar pela manutenção da qualidade de vida, considerando o processo de perdas próprias do envelhecimento e as possibilidades de prevenção, manutenção e reabilitação do seu estado de saúde. A medicina diferencia dois tipos de envelhecimento: a senescência e a senilidade.

Senescência é definida como um processo de envelhecimento natural e saudável, sem comprometimento da manutenção das necessidades básicas de vida como: alimentação, locomoção, higiene e relacionamento interpessoal. A Senilidade é o processo de envelhecimento associado a diversas alterações decorrentes de doenças crônicas como hipertensão arterial, diabetes, e maus hábitos de vida, podendo gerar incapacidades funcionais, insuficiência dos órgãos e até a morte.

A velhice não é sinônimo de doença. Apesar de muitos idosos apresentarem más condições de saúde devido à doenças, muitos outros envelhecem sem qualquer incapacidade ou limitação, mantendo uma boa saúde.

Envelhecimento biopsicossocial
O envelhecer normal está ligado à capacidade de adaptação da pessoa às exigências, rigores e agressões do meio e de sua existência. Assim, cada pessoa envelhece a seu modo, dependendo de variáveis como o sexo, origem, lugar em que vive, tamanho da família, aptidões para a vida e as experiências vivenciadas.

Portanto, a saúde e a qualidade de vida dos idosos, mais que em outros grupos etários, sofrem influência de múltiplos fatores: físicos, psicológicos, sociais e culturais, de tal forma que avaliar e promover a saúde do idoso significa considerar variáveis de distintos campos do saber, numa atuação interdisciplinar e multidimensional. A assistência ao idoso deve cuidar da manutenção da qualidade de vida, considerando os processos de perdas próprias do envelhecimento e as possibilidades de prevenção, manutenção e reabilitação do seu estado de saúde.

Considerando que o processo saúde-doença é um fenômeno complexo, socialmente determinado e modulado por condicionantes biológicos, psicológicos, culturais, econômicos e políticos, as necessidades de saúde dos idosos referem-se a múltiplas dimensões do real e dizem respeito à singularidade dos fenômenos de saúde ou doença que afetam os indivíduos e suas famílias.

O envelhecimento da pessoa dá-se em várias esferas. O envelhecimento biológico decorre de mudanças orgânicas, ou seja, fisiológicas, anatômicas, bioquímicas e hormonais, acompanhadas de gradual declínio das capacidades de regeneração do organismo.

O envelhecimento psicológico é decorrente dos sentimentos das pessoas em relação a si próprias ou ao mundo e traduzidos pelos pelas atitude e limitações das capacidades funcional geral. Essas alterações trazem como consequência a ocorrência de dificuldades adaptativas progressivas e de ajustamentos dos repertórios comportamentais às exigências da vida.

O envelhecimento social se relaciona às normas ou eventos sociais que controlam por critério de idade o desempenho da pessoa ou do grupo etário, e que dão certo sentido à vida de cada um. Um exemplo disso é a forte sugestão social acerca da faixa etária para casar, para certos empregos, para pleitear ter filhos, etc.

Envelhece-se como se viveu
Mesmo diante de circunstâncias existenciais favoráveis, para alguns idosos a satisfação adaptativa não seria conseguida devido a certa fragilidade emocional característica de seus próprios traços afetivos. Nestes casos não é, absolutamente, a vida ou as circunstâncias ambientais correlacionadas à senilidade quem estaria proporcionando condições necessárias para a sintomatologia emocional mas sim, as condições de personalidade prévia do paciente. Outros idosos, dotados de melhores condições de adaptação em suas personalidades, não desencadeariam transtornos emocionais diante de iguais condições de vida que seriam suficientes para causar sofrimento aos menos adaptados. É por causa disso que envelhece-se como se viveu.

Dentre as funções psíquicas alteradas com e pelo envelhecimento, a afetividade tem papel destacado. Para melhor entendimento, na abordagem das manifestações neuróticas e distúrbios do humor, é bom relembrar a afetividade como sendo a capacidade de experimentar sentimentos e emoções, como um estado de ânimo que proporciona a tonalidade do relacionamento do indivíduo com o mundo e consigo próprio.

Uma das alterações afetivas do envelhecimento é a Incontinência Emocional. Trata-se de uma forma de alteração da afetividade peculiar à velhice e se caracteriza pela grande facilidade em manifestar intensas reações afetivas e uma subsequente incapacidade para controlá-las.

Além desta Incontinência Emocional pode haver também a Labilidade Afetiva, caracterizada por mudanças rápidas das emoções. É possível também haver hipomania, acompanhada de explosões do humor ou manifestações de cólera diante de estímulos insignificantes. Essas alterações podem ser consequentes não apenas ao psicodinamismo reestruturado dos idosos mas, também, às alterações degenerativas do sistema nervoso central (SNC), tecidual ou circulatório. Nos transtornos degenerativos a afetividade costuma ser uma das mais precoces manifestações.

Destruturação das Síndromes Psicoogânicas

  • exagero dos traços afetivos pessoais;
  • primitivização da personalidade;
  • esvaziamento afetivo da personalidade.

Acompanhando ou não os estados degenerativos do envelhecimento, as alterações afetivas serão tanto mais proeminentes quanto mais problemática tenha sido a personalidade prévia do paciente. É por causa dessas constatações que a chamada personalidade pré morbida tem muita importância em psiquiatria.

Além dos componentes da personalidade sabe-se da importância dos aspectos familiares e genéticos atrelados às doenças degenerativas da senilidade. Alguns casos de demência têm significativa concordância familiar, como é o caso da Doença de Pick, da Doença de Jacob-Creustzfeldt, da Coréia de Huntington ou até da Demência Vascular.

É assim que a pessoa traz para a vida não apenas a parte de sua personalidade visivelmente conhecida e pesquisada sob o título de personalidade pré morbida, mas sobretudo, certas peculiaridades genéticas ocultas e capazes de aumentar a probabilidade do desenvolvimento das doenças próprias do envelhecimento.

De acordo com o provérbio “teme mais a morte aquele que mais temeu a vida“, para algumas pessoas deve haver aumento das dificuldades adaptativas com o passar dos anos. Se, em tempos anteriores quando todas circunstâncias existenciais eram mais satisfatórias, quando toda potencialidade vital era plena, quando o futuro era ainda distante e quando a solidão não tinha sido experimentada, mesmo assim a pessoa passava por momentos de franca dificuldade adaptativa, no envelhecimento então, quando se fizer sentir todas as dificuldades, a capacidade adaptativa anterior só pode mesmo piorar.

As características trazidas pela pessoa à vida (sua constituição) se tornarão mais exuberantes com o envelhecimento e, se o indivíduo viveu desadaptadamente, certamente envelhecerá mais desadaptadamente ainda. As pulsões e paixões reprimidas ao longo da vida não encontram mais, na velhice, energia suficiente para mantê-las reprimidas e eclode na consciência um triste e amargo culto ao passado, com suas frustrações, seus pecados, suas angústias e seus rancores.

Aspectos Psicossociais
Os aspectos psicossociais são, parodiando Freud, os componentes que “a vida traz para o indivíduo” e que, juntamente com as disposições pessoais, resultarão no estado psíquico atual em que se encontra o idoso.

O equilíbrio do velho, segundo Cavan e citado por Vargas, e seu ajustamento ambiental dependem, principalmente, dos seguintes fatores: um contato social suficiente; uma ocupação cheia de significado; uma certa segurança social; um estado de saúde satisfatório.

Comentando-se brevemente cada um destes aspectos necessários ao equilíbrio do idoso, entende-se logo o caráter hipócrita e até caricato que a sociedade empresta ao velho. Além dos sofríveis fatores do presente (aqueles que a vida traz ao indivíduo), proporcionado pelas condições deploráveis de existência dos idosos em nosso tempo, deve-se considerar também a somatória com o patrimônio vivencial passado (que a vida trouxe ao indivíduo durante sua trajetória existencial).

Será difícil envelhecer serenamente quando a vida pregressa foi ponteada pelos mais variados traumatismos, frustrações e dissabores. As vivências traumáticas pregressas são sempre máculas indeléveis da existência e, com o esvaziamento progressivo da energia vital, vão se tornando feridas emocionais abertas. Diante de certas circunstâncias de vida, cabe muito mais ao destino que ao terapeuta proporcionar a cura ou prevenir doenças. Na velhice as ocorrências vivenciais sofríveis serão as maiores determinantes do estado emocional.

Voltando às condições de vida atual dos idosos, aquilo que a vida traz em tempo presente ao indivíduo, vejamos o “contato social suficiente”. O idoso começa ser a menosprezado em sua própria família. O velho é sempre colocado em uma posição que proporciona o menor incomodo à dinâmica familiar. E não falamos apenas de uma posição existencial abstrata, mas até também do ponto de vista geográfico e espacial.

Além do idoso não ter espaço importante no seio e na dinâmica familiar, quando não é colocado geograficamente em uma dependência isolada da casa ou numa cadeira bem no cantinho da sala, é levado para algum local “de repouso”, longe dos olhos e da consciência dos familiares.

No meio familiar os assuntos cotidianos quase nunca são compartilhados com o velho, pois há uma falsa e cômoda crença sobre ele não se interessar por mais nada. Em festinhas e eventos familiares aparece novamente a falsa e cômoda crença sobre ele não estar gostando de nada daquilo, nem do barulho, nem da agitação, nem de nada. Portanto, é novamente colocado à distância. Normalmente o que ele não gosta mesmo é de se sentir um incômodo e passa a não gostar também de um barulho que nunca é dirigido à ele.

Sobre a “ocupação cheia de significado“, como se pode pretender em um país onde até os concursos públicos limitam a idade para admissão aos 40 anos que o idoso tenha uma ocupação digna? Realmente, dessa forma só restará aos idosos cuidarem de canários, praticarem jardinagem e tricô. O velho é, de fato, considerado um inapto por nossa sociedade, um incapaz crônico e um deficiente ocupacional irrecuperável.

A exaltação da produtividade, a glória do útil e o mérito tirânico da vitalidade jovial monopolizam toda valoração social. Sentir se jovem, quase aos níveis do retardo mental, é a pretensão dos desadaptados às suas reais condições biocronológicas e dos possuídos pelo demônio da produção.

Tornou-se vexatório ao idoso confessar sentir-se bem com sua própria idade cronológica e, ao contrário, soa bem dizer se sentir com 20 anos mesmo tendo 80. Em outras palavras, parecerá imbecil aquele que insiste em se sentir com 20 anos, apesar dos seus 80, já que há uma discrepância entre a idade cronológica e mental. É exatamente esta discrepância entre idade mental e cronológica que caracteriza a imbecilidade. Poderia o idoso dizer que se sente bem com 70 anos e, não obstante, se sente muito bem, apesar disso. Sentir-se bem com a própria idade não deveria ser motivo de vergonha ou constrangimento.

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Envelhecimento psiconeurológico
Durante a vida os sinais de deficiências funcionais do sistema nervoso central vão aparecendo de maneira discreta, paulatina e inexorável no decorrer do tempo. A esse processo involutivo fisiológico dá-se o nome de senescência e ocorre sem comprometer as relações e a gerência de decisões. Esse processo não pode ser considerado doença. Em condições basais, o idoso não apresenta alterações no funcionamento ao ser comparado com o jovem. A diferença aparece nas situações onde se torna necessária a utilização das reservas homeostáticas (de velocidade, força, resistência…), as quais, no idoso, são mais fracas e limitadas.

O sistema nervoso central (SNC) tem uma longa evolução filogenética, mas só recentemente adquiriu propriedades anatômicas, moleculares e funcionais altamente especializadas. Os neurônios, unidades formadoras desse sistema, possuem estabilidade de estrutura e essa propriedade torna o SNC apto à cognição, ou seja, apto ao acúmulo de informações do presente, à lembranças do passado e à formulação de novos conceitos.

Fisiologicamente o SNC é incapaz de realizar reparos em suas alterações morfológicas adquiridas com o envelhecimento. Entre essas mudanças estruturais e moleculares neuronais citam-se aquelas caracterizadas por diminuição do RNA citoplasmático e da substância de Nissl, depósito amiloide nos vasos sanguíneos e células, formação de placa senil e, menos frequentemente, um emaranhado neurofibrilar característico da demência de Alzheimer. Entretanto, tudo isso pode ser igualmente observado em cérebros de idosos sem indícios de demências, mesmo os idosos com atrofia neuronal e redução da quantidade de células nervosas.

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Envelhecimento das funções psíquicas
O conhecimento de quais, como e quanto as funções psíquicas se modificam com o envelhecimento permitiu a consideração de que o idoso normal não é um ser limitado cognitivamente, mas que requer a adaptação de estímulos ambientais para compensar a funcionalidade tal qual a de adultos jovens.

O termo cognição diz respeito ao funcionamento intelectual humano global, incluindo percepção, atenção, memória, raciocínio, tomada de decisões, solução de problemas e formação de estruturas complexas do conhecimento, tais como conceitos, analogias, raciocínio dedutivo e indutivo.

A grande dificuldade acerca do envelhecimento é o limite entre alterações cognitivas normais e fisiológicas das alterações patológicas. O conhecimento sobre as demências, o avanço dos métodos de neuroimagem, entre outros, buscam sempre esclarecer o limite entre saúde e doença no idoso. Algumas das habilidades cognitivas se modificam em relação ao tempo, outras não.

Entre as habilidades neuropsíquicas que sofrem declínio com a idade estão a memória de trabalho, a velocidade de pensamento e a visão espacial, enquanto as habilidades que se mantêm inalteradas estão a inteligência verbal, atenção básica, habilidade de cálculo e a maioria das habilidades de linguagem.

As repercussões funcionais do envelhecimento fisiológico (senescência) do SNC são controversas e não afetam significativamente as funções cognitivas. Com a idade observa-se redução de peso do cérebro em aproximadamente 10%, redução do fluxo sanguíneo cerebral entre 15 e 20%, no número de neurônios e formação de depósito neuronal de liposfuscina.

Na senescência surge degeneração vascular amiloide, placas senis e degeneração neurofibrilar com comprometimento da neurotransmissão dopaminérgica e colinérgica, além de lentificação da velocidade da condução nervosa. As regiões mais sensíveis às alterações do envelhecimento localizam-se no lobo frontal e, possivelmente, no lobo temporal medial. As alterações dos órgãos dos sentidos (visão, audição, etc.) dificultam o acesso às informações e o aprendizado.

A velocidade no processamento da informação representa a alteração mais evidente do idoso e interfere bastante na cognição (Declínio Cognitivo Leve). Essa lentidão cognitiva influencia todas as outras funções e pode ser responsável pelo déficit cognitivo em idosos sem nenhuma patologia diagnosticada. A lentidão no processamento de informações é observada em idosos em sua dificuldade em compreender textos, necessidade de explicações mais ricas e extensas e de mais tempo para executar cálculos.

O envelhecimento psíquico não é naturalmente progressivo e nem ocorre obrigatoriamente com a passagem de tempo. Embora esse amadurecimento dependa também da passagem do tempo, recebe influência sobretudo do esforço pessoal da busca do autoconhecimento e de reflexões mais sublimes, como por exemplo, do sentido da vida. O autoconhecimento, o estudo da estrutura e dinâmica do psiquismo, bem como a superação dos conflitos do cotidiano são indispensáveis para a pessoa atingir a independência psíquica, condição indispensável para a sabedoria e preservação da saúde psíquica no envelhecimento.

A fuga desenfreada da maturidade
Alguns velhos, com severas dificuldades de adaptação aos desígnios da biologia universal e influenciados maleficamente pela apologia da vitalidade juvenil, assumem a “profissão” de serem eternamente jovens. De certa forma são corajosos, pois não temem o ridículo. Adaptar-se com serenidade à maturação é prova de sanidade e bem estar emocional.

Desprezar com nobreza a pseudo-juventude obrigatória e enaltecida pela facção mais estapafúrdia da sociedade é uma cristalina demonstração de crescimento da personalidade, é a própria individuação sonhada por Jung. Mas, por outro lado, não se deve recriminar totalmente estes gerontos em constante e desenfreada fuga da idade factual e refratários à adaptação sadia para com a vida madura, pois são vítimas seduzidas pelo sistema sociocultural que vive marginalizando a maturidade.

Não se pretende, com isso, convocar os idosos para um acomodamento apático. Antes disso, pretende-se mostrar que não deve haver constrangimento ou vergonha na adaptação sadia à idade madura, na aceitação sem frustração das naturais limitações determinadas pela idade e no descobrimento de tantas outras e novas aptidões. O entusiasmo no velho deve ser sempre estimulado, porém, estimulado para atividades compatíveis com sua real situação e não para atividades extemporâneas forçadas para o simples atendimento de valores culturais distorcidos.

O idoso pode, perfeitamente, ter uma ocupação cheia de significado sem que, obrigatoriamente, tenha que voar de asa delta, espatifar-se com a moto ou fraturar a coluna no surf para ser feliz. Não há razões para acreditarmos na necessidade absoluta dessas inquietações infanto-juvenis para a glória suprema do ser humano. Há um sem número de ocupações plenas de significado e dignidade melhor desenvolvidas por pessoas mais velhas. Basta a sociedade curar-se desta embriagues que cultua a juventude tal qual um bezerro de ouro para, depois da ressaca moral, reconhecer o valor laborativo e ocupacional dos idosos.

Uma certa “segurança social“, recomenda Cavan para o equilíbrio do idoso e seu ajustamento ambiental. Em nossa sociedade há um curioso cálculo descoberto por economistas, não exatamente altruístas, considerando o idoso um ser capaz de viver com uma aposentadoria de fazer inveja a qualquer faquir do oriente. Vendo as torturantes filas diante da previdência chega-se à conclusão de que não é apenas a pensão da aposentadoria o objeto de inveja dos faquires. Também o suplício físico e a inanição a que se sujeitam os pobres coitados, durante horas infindáveis nas filas da previdência, são provas da resistência sobre-humana de nossos velhos.

A insegurança social e a perspectiva de abandono dos idosos é tanta que, desde há muito, tornou-se hábito em nosso sistema constituir famílias com muitos filhos como apelo para que, na velhice, algum dos filhos cuide do destino dos pais. E isso, apesar daquilo, nem sempre acontece da forma satisfatória prevista pelo patriarca.

Finalmente, “um estado de saúde satisfatório” recomendado deve ser entendido de maneira global, tanto física quanto mentalmente. Sobre a saúde mental dissemos e vamos dizer muito mais. Sobre a saúde física, entretanto, deve ficar claro que o velho, por ser velho, não deve obrigatoriamente ser doente. São frequentes os casos de velhos atendidos em serviços de saúde, cujo número de piolhos e extensão da escabiose refletem proporcionalmente o grau de abandono em que se encontram.

Desidratação e pneumonia, quando não a desnutrição franca, mostram perfeitamente a precariedade do suporte familiar destinado a muitos pacientes idosos. Situações clínicas que se resolvem facilmente são contemporizadas e encaradas como naturalmente inevitáveis ao idoso. Tanto as infestações simples, quanto situações francamente mórbidas, são aceitas complacentemente como se fossem inerentes e “inevitáveis” à senilidade. As queixas ginecológicas e urológicas dos velhos são tratadas com tanta repelência que dá a impressão de ter-lhes cicatrizado a vulva e fossilizado o pênis.

A exaltação da juventude, com notável predomínio dos valores estéticos sobre tantos outros, revela o velho como o grande vilão do mundo moderno e muitas vezes como um objeto de repulsa e rejeição social. Na mídia, notadamente em filmes de grande bilheteria e de aventura contagiante, normalmente o herói não tem mais de 18 anos, os bandidos estão sempre na faixa dos 35 a 40 anos e os discretos velhinhos não passam de figuras cômicas que dão o toque de humor à cena de tensão.

A pouca importância cultural da senilidade é percebida até mesmo nos meios científicos. Entristece a notável discrepância entre a escolha dos estudantes de medicina para a escolha da pediatria e da geriatria como especialidades desejadas. Também na psicologia a senilidade é deixada de lado, tendo em vista a mega quantidade de obras destinadas aos temas infantis e a notável escassez de títulos geriátricos.

Os valores estéticos estão tão enraizados culturalmente no comportamento das pessoas que um ato de afeto e carinho entre dois idosos, como por exemplo, o caso de um beijo, é capaz de provocar atitudes de evitação, jocosidade e até reprovação. O mesmo ato, tendo adolescentes como protagonistas, encontra receptividade social muito maior.

Na propaganda então nem se fala. Todos os produtos vinculados ao prazer, tais como refrigerantes, cosméticos, alimentos em geral, carros, viagens, etc., têm jovens atléticos e formosos como atores para sua promoção. Para as pessoas de meia idade ficam as propagandas de supermercados, imóveis, planos de saúde e seguradoras. Ou seja, as coisas não relacionadas ao prazer mas de VITAL importância aos demais. Os idosos, quando aparecem, só o fazem quando é necessário um clima cômico ou caricatural.

Politicamente também nota-se a diferença. Estamos continuamente tomando contacto com projetos destinados aos menores, abandonados ou não. Veja -se, por exemplo, o tão propalado Estatuto da Criança, os projetos governamentais para crianças de rua, ou coisas semelhantes. Aos velhos abandonados nada. Estatuto do Idoso então, nem pensar. A própria comemoração unilateral do Dia da Criança já é muito sugestivo da discriminação.

A sociedade moderna é exclusivamente alicerçada na produtividade, atual, no lucro imediato e na utilidade da pessoa. Cada um de nós foi reduzido a uma mera função social e, dentro desta conjuntura das funções sociais, não restou sequer um espaço social para o velho. Até palavras como tradicional, conservador e ortodoxo, inexplicavelmente adquiriram teor pejorativo. É como se o novo devesse ser obrigatoriamente bom e melhor.

E é assim que o idoso, considerado um peso social, frustra-se com a subtração de seu espaço existencial, anteriormente vivido outrora com plenitude e sucesso. Experimenta uma profunda reação de perda sem nada a substituir o objeto perdido: o seu valor como pessoa. Desta forma, mesmo indivíduos relativamente equilibrados emocionalmente durante a vida pregressa, com a velhice tendem a descompensar.

Velhice saudável: adaptação e independência
Alguns velhos, com severas dificuldades de adaptação aos desígnios da biologia universal e influenciados maleficamente pela glorificação da vitalidade juvenil, assumem a “profissão” de serem jovens eternamente. De certa forma são corajosos, pois não temem o ridículo. Adaptar-se com serenidade à maturação é prova de sanidade e bem estar emocional.

Desprezar com nobreza a pseudo-juventude obrigatória e glorificada pela facção mais estapafúrdia da sociedade é a mais cristalina demonstração de crescimento da personalidade, é a própria individuação tão sonhada por Jung. Mas, por outro lado, não devemos recriminar totalmente estes gerontos escondidos da idade factual e refratários à adaptação sadia para com a vida madura, pois são vítimas seduzidas por este sistema sócio-cultural que vive a marginalizá-los.

Não se pretende, com isso, convocar os idosos para um acomodamento apático. Antes disso, pretende-se mostrar que não deve haver constrangimento ou vergonha na adaptação sadia à idade madura, na aceitação sem frustração das naturais limitações determinadas pela idade e no descobrimento de tantas outras e novas aptidões. O entusiasmo no velho deve ser sempre estimulado, porém, estimulado para atividades compatíveis com sua real situação e não para atividades extemporâneas forçadas para o simples atendimento de valores culturais distorcidos.

O idoso pode, perfeitamente, ter uma ocupação cheia de significado sem que, para isso, tenha que voar de asa delta, ou espatifar-se com a moto, ou fraturar a coluna no surf. Não há razões para acreditarmos na necessidade absoluta dessas inquietações infanto-juvenis para a glória suprema do ser humano. Há um sem número de ocupações plenas de

significado e dignidade melhor desenvolvidas por pessoas mais velhas. Basta a sociedade curar-se desta embriagues que cultua a juventude tal qual um bezerro de ouro para, depois da ressaca moral, reconhecer o valor laborativo e ocupacional dos idosos.

Uma certa “segurança social“, recomenda Cavan para o equilíbrio do idoso e seu ajustamento ambiental. Em nossa sociedade há um curioso cálculo descoberto por economistas, não exatamente altruístas, considerando o idoso um ser capaz de viver com uma aposentadoria capaz de fazer inveja a qualquer faquir do oriente. Vendo as torturantes filas diante da previdência chega-se à conclusão de que não é apenas a pensão da aposentadoria o objeto de inveja dos faquires. Também o suplício físico e a inanição a que se sujeitam os pobres coitados, durante horas infindáveis nas filas da previdência, são provas da resistência sobre-humana de nossos velhos.

A insegurança social e a perspectiva de abandono futuro dos idosos é tanta que, desde há muito, tornou-se hábito em nosso sistema constituir famílias com muitos filhos como forma de apelo para que, na velhice, algum dos filhos cuide do destino dos pais. E isso, apesar daquilo, nem sempre acontece da forma satisfatória prevista pelo patriarca.

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A etapa da vida caracterizada como velhice, com suas peculiaridades é melhor compreendida a partir dos aspectos cronológicos, biológicos, psicológicos e culturais. A relação entre quatro aspectos é fundamental na categorização de uma pessoa como velha ou não.

Convencionalmente a pessoa é considerada velha, na maioria das vezes e das culturas, é quando chega aos 60 anos, independentemente de seu estado biológico, psicológico e social. Entretanto, o conceito de idade é multidimensional e possuem outras dimensões e significados que extrapolam as dimensões da idade cronológica.

Atualmente o estudo do envelhecimento reconhece três grupos de pessoas mais velhas: os idosos jovens, os idosos velhos e os idosos mais velhos. Idosos jovens são as pessoas de 65 a 74 anos, que costumam estar ativas, cheias de vida e vigorosas. Os idosos velhos, de 75 a 84 anos, e os idosos mais velhos, de 85 anos ou mais, são aqueles que têm maior tendência para a fraqueza, para a enfermidade e podem ter dificuldade no desempenho de algumas atividades da vida diária.

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Velho… esse ser feio
Nos dias atuais o envelhecimento costuma ser associado a doenças e perdas. Na maioria das vezes entendido apenas como um problema médico, ligado à deterioração, ao declínio e à incapacidade. Assim, a velhice acaba sendo fortemente associada ao fim do ciclo vital, à morte, à doença, ao afastamento e à dependência. A velhice começou a ser tratada como uma etapa da vida caracterizada pela decadência física e ausência de papéis sociais até recentemente. Nesse cenário o envelhecimento seria visto como um processo contínuo de perdas e de dependência que daria aos idosos uma imagem negativa.

A imagem depreciada das pessoas idosas é, em parte, devido à ênfase quase obsessiva na juventude, beleza, autonomia, independência e na habilidade de ser produtivo (ou reprodutivo). Talvez isso seja uma herança da cultura norteamericana, que enfatiza o crescimento, a força e o progresso, com exagerada veneração aos jovens.

O uso de inúmeros termos e expressões para se referir às pessoas mais velhas e à velhice revela a existência de preconceitos sociais por parte da sociedade e do próprio indivíduo que envelhece(terceira idade, maturidade, senescência, melhor idade…) . Ao longo das últimas décadas, cada vez mais os indivíduos envelhecem, mas ninguém quer parecer velho.

Finalmente, “um estado de saúde satisfatório” recomendado deve ser entendido de maneira global, tanto física quanto mentalmente. Sobre a saúde mental dissemos e vamos dizer muito mais. Sobre a saúde física, entretanto, deve ficar claro que o velho, por ser velho, não deve obrigatoriamente ser doente. São frequentes os casos de velhos atendidos em serviços de saúde, cujo número de piolhos e extensão da escabiose refletem proporcionalmente o grau de abandono em que se encontram.

Desidratação e pneumonia, quando não a desnutrição franca, mostram perfeitamente a precariedade do suporte familiar destinado ao paciente. Situações clínicas facilmente resolvíveis são contemporizadas e encaradas como naturalmente inevitáveis ao idoso. Tanto as infestações simples, quanto situações francamente mórbidas, são aceitas complacentemente como se fossem inerentes e “inevitáveis” à senilidade. As queixas ginecológicas e urológicas dos velhos são tratadas com tanta repelência que nos dá a impressão ter-lhes cicatrizado a vulva e fossilizado o pênis.

A exaltação da juventude, com notável predomínio dos valores estéticos sobre tantos outros valores, revela o velho como o grande vilão do mundo moderno e muitas vezes como um objeto de repulsa e rejeição social. Na mídia, notadamente em filmes de grande bilheteria e de aventura contagiante, normalmente o herói não tem mais de 18 anos, os bandidos estão sempre na faixa dos 35 a 40 anos e os discretos velhinhos não passam de figuras cômicas que dão o toque de humor à cena de tensão.

A pouca importância da senilidade é percebida até mesmo nos meios científicos. Entristece a notável discrepância entre a escolha, pelos médicos formandos, para a pediatria e a geriatria como especialidades desejadas. Também na psicologia a senilidade é deixada de lado, tendo em vista a mega quantidade de obras destinadas aos temas infantis e a notável escassez de títulos geriátricos.

Os valores estéticos estão tão enraizados culturalmente no comportamento das pessoas que um ato de afeto e carinho entre dois idosos, como por exemplo, o caso de um beijo, é capaz de provocar atitudes de evitação, jocosidade e até reprovação. O mesmo ato, tendo adolescentes como protagonistas, encontra receptividade social muito maior.

Na propaganda então nem se fala. Todos os produtos vinculados ao prazer, tais como refrigerantes, cosméticos, alimentos em geral, carros, viagens, etc., têm jovens atléticos e formosos como atores para sua promoção. Para as pessoas de meia idade ficam as propagandas de supermercados, imóveis, planos de saúde e seguradoras. Ou seja, as coisas não relacionadas ao prazer mas de VITAL importância aos demais. Os idosos, quando aparecem, só o fazem quando é necessário um clima cômico ou caricatural.

Politicamente também nota-se a diferença. Estamos continuamente tomando contacto com projetos destinados aos menores, abandonados ou não. Veja -se, por exemplo, o tão propalado Estatuto da Criança, os projetos governamentais para crianças de rua, ou coisas semelhantes. Aos velhos abandonados nada. Estatuto do Idoso então, nem pensar. A própria comemoração unilateral do Dia da Criança já é muito sugestivo da discriminação.

A sociedade moderna é exclusivamente alicerçada na produtividade, atual, no lucro imediato e na utilidade da pessoa. Cada um de nós foi reduzido a uma mera função social e, dentro desta conjuntura das funções sociais, não restou sequer um espaço social para o velho. Até palavras como tradicional, conservador e ortodoxo, inexplicavelmente adquiriram teor pejorativo. É como se o novo devesse ser obrigatoriamente bom e melhor.

E é assim que o idoso, considerado um peso social, frustra-se com a subtração de seu espaço existencial, anteriormente vivido com plenitude e sucesso. Experimenta uma profunda reação de perda sem nada a substituir o objeto perdido: o seu valor como pessoa. Desta forma, mesmo indivíduos relativamente equilibrados emocionalmente durante a vida pregressa, com a velhice tendem a descompensar.

para referir:
Ballone GJPsicogeriatria. in. PsiqWeb, Internet – disponível em http://www.psiqweb.net, 2016