Personalidade e Dependência

Os Transtornos de Personalidade e a comorbidade a eles associada, entre elas o consumo abusivo de substâncias, formam um terreno onde tanto as neurociências como a psicopatologia têm um grande campo de investigação.

Depois da década de 90, com a atualização dos manuais de classificação psiquiátrica (CID e DSM), todas as crianças, adolescentes e adultos que cronicamente ameaçam, intimidam, agridem e incomodam os outros, bem como aqueles que violam normas sociais recebem um diagnóstico psiquiátrico. As crianças e adolescentes recebem o diagnóstico de um dos Transtornos Disruptivos do Comportamento, enquanto os maiores de 18 anos recebem o diagnóstico de Transtornos Antissocial da Personalidade.

Quando tentamos relacionar o abuso de substâncias ou dependência química com Transtornos de Personalidade, estamos pensando predominantemente no adolescente, no jovem e/ou no adulto jovem. A classificação correta para os tipos de comportamentos problemáticos, possivelmente decorrentes de Transtornos de Personalidade é englobada nos Transtornos Disruptivos, do Controle de Impulsos e da Conduta. Entre esses estão o Transtorno Desafiador e de Oposição, o Transtorno de Conduta e a Personalidade Sociopática.

Outra coisa muitíssimo importante é em relação à dependência química e a Alteração da Personalidade (não é Transtorno de Personalidade, mas sim Alteração da Personalidade), um diagnóstico quase nunca considerado e que fará uma brutal diferença no prognóstico dos dependentes. A Alteração da Personalidade é tratada mais adiante.

Não há dúvida de que pessoas com Transtorno da Personalidade têm severos problemas no relacionamento social e correm riscos de outros problemas adicionais. A classificação atual de “mau” comportamento citado no diagnóstico do Transtornos Disruptivos do Comportamento e do Transtornos Antissocial da Personalidade tem certa gravidade de prognóstico, enquanto nos casos de Alterações da Personalidade ocasionadas pelo uso abusivo de substâncias o quadro é muitíssimo mais otimista.

Transtorno Disruptivo do Comportamento e Dependência
O termo adicção ainda não é reconhecido oficialmente. Em português é um neologismo, existindo apenas o termo adição, mas ele define condutas com características de dependência. A noção de dependência química é originalmente aplicada não apenas ao uso de substâncias, mas também tem sido relacionada ao jogo, televisão, sexo, alimentação, etc. São atividades que podem determinar uma necessidade imperiosa de continuá-las, convertendo-se nas chamadas adicções comportamentais, relacionadas ao comportamento compulsivo ou à dificuldade no controle dos impulsos.

Na esfera dos comportamentos antissociais, um ponto de partida em sua classificação e identificação deveria levar em consideração o importante papel da agressividade mal adaptada ou do “mau” comportamento. Algumas vezes a agressividade não é francamente expressa, por questões de educação, por exemplo. Nos casos de agressividade velada o que passa a contar é a impulsividade.

O traços de agressividade e impulsividade estão bastante presente em crianças, adolescentes e adultos com Transtornos Disruptivos do Comportamento e com Transtornos Antissocial da Personalidade, resultando em comportamentos delinquentes e, principalmente, favorecendo alguma ligação com a dependência química. As modernas classificações agrupa esse tipo de personalidade nos chamados Transtornos Disruptivos, do Controle de Impulsos e da Conduta,  vinculados à dimensões de personalidade denominadas desinibição e (inversamente) retraimento. Essas dimensões compartilhadas da personalidade explicariam o alto nível de comorbidade entre esses transtornos de personalidade e sua frequente comorbidade com Transtornos por Uso de Substâncias e com o Transtorno da Personalidade Antissocial. Resumidamente, os desvios comportamentais com predileção para a agressividade, irritabilidade e oscilações do humor, tal como existem nos Transtornos Disruptivos têm uma forte inclinação para o uso de drogas ilícitas.

Em recente classificação as categorias de Abuso de Substância e Dependência de Substância foram eliminadas e substituídas por uma nova categoria mais abrangente de Transtornos por uso de substâncias – em que a substância específica usada define o transtorno específico.

Portanto o diagnóstico depende do tipo específico da substância em apreço, pois, Dependência é facilmente confundida com o termo adicção. O fenômeno de tolerância, bem como os sintomas de abstinência definiam anteriormente a dependência, porém, na verdade são respostas bastante normais a alguns medicamentos prescritos com critérios médicos que afetam o sistema nervoso central e não indicam necessariamente a presença de uma adicção. Dessa forma, usando-se os critérios de tolerância e abstinência para o diagnóstico de dependência este poderia ser aplicado a toda classe de substâncias, a exceção da cafeína. Com a revisão e o esclarecimento desses critérios os mal-entendidos foram amplamente difundidos no tocante a essas questões.

Entre as dependências destacam-se, como paradigma, os chamados Transtornos por Consumo de Substâncias com Dependência, os quais produzem um grupo de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos. Essa dinâmica sintomática faz a pessoa continuar consumindo a substância, apesar da aparição de problemas significativos relacionados com ela.

O curso da dependência vária segundo o tipo de substância, a via de administração e outros fatores, mas habitualmente é crônico, com períodos de reagudização e remissão parcial ou total. A investigação indica que, juntamente com os efeitos desejados das substâncias e das características do meio ambiente, existem também fatores constitucionais no indivíduo que facilitam a dependência e que provocam o processo de recaída.

Os Transtornos de Personalidade, associados ou não aos casos de Transtornos pelo uso de Substâncias, continuam sendo fenômenos confusos, pois, ainda que os principais sistemas de classificação tenham conseguido esclarecer o conceito em boa medida, a situação dos mesmos continua despertando certas dúvidas entre profissionais da área.

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A Organização Mundial de Saúde (OMS) através do Código Internacional de Doenças (CID) preconiza que a dependência química é uma enfermidade incurável e progressiva, apesar de poder ser estacionada pela abstinência. Na CID.10 a dependência é definida como um…

“Conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que se desenvolvem após repetido consumo de uma substância psicoativa, tipicamente associado ao desejo poderoso de tomar a droga, à dificuldade de controlar o consumo, à utilização persistente apesar das suas consequências nefastas, a uma maior prioridade dada ao uso da droga em detrimento de outras atividades e obrigações, a um aumento da tolerância pela droga e por vezes, a um estado de abstinência física. A síndrome de dependência pode dizer respeito a uma substância psicoativa específica (por exemplo, o fumo, o álcool ou o diazepam), a uma categoria de substâncias psicoativas (por exemplo, substâncias opiáceas) ou a um conjunto mais vasto de substâncias farmacologicamente diferentes.”

A OMS traça também diretrizes para o diagnóstico que deve somente ser feito, casos três ou mais critérios descritos tenham sido preenchidos por algum tempo durante o último ano.

Diretrizes da OMS para diagnóstico de Dependência
1 – Forte desejo ou compulsão para usar a substância.
2 – Dificuldade em controlar o consumo da substância, em termos de início, término e quantidade.
3 – Presença da síndrome de abstinência ou uso da substância para evitar o aparecimento da mesma.
4 – Presença de tolerância, evidenciada pela necessidade de aumentar a quantidade para obter o mesmo efeito anterior.
5 – Abandono progressivo de outros interesses ou prazeres em prol do uso da substância.
6 – Persistência no uso, apesar das diversas conseqüências danosas

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Personalidade Dependente?
A personalidade, como se concebe atualmente, é um padrão complexo de características arraigadas, normalmente inconscientes e difíceis de mudar, que se expressam automaticamente em quase todas as áreas de funcionamento da pessoa. Esses traços, intrínsecos e gerais, surgem de determinantes biológicos e constitucionais, somados à elementos da aprendizagem que, em última instância, conferem à pessoa o padrão de perceber, sentir, enfrentar, comportar e se relacionar com a realidade.

A ideia de Transtorno de Personalidade supõe uma variante mórbida desses traços de caráter que vão além ou aquém daquilo que normalmente apresenta a maioria das pessoas. Entretanto, só quando esses traços são inflexíveis, desadaptados e causam algum prejuízo funcional significativo, ou algum mal estar subjetivo, é que constituem um Transtorno da Pessoalidade.

Os Transtornos de Personalidade juntamente com condições a eles associadas, entre elas o muito frequente consumo de substâncias, formam um terreno onde tanto as neurociências como a psicopatologia têm um grande campo de investigação. Um dos principais pontos dessa investigação tem sido a busca de uma característica adictiva entre os traços da personalidade dos pacientes.

Atualmente, entretanto, não se pode falar de uma personalidade especificamente dependente de substâncias, tomando-se por base os Transtorno de Personalidade específicos e definidos de forma categorial pelas classificações de transtornos mentais. Nesse sentido, o consumo exagerado de substâncias pode servir até como a automedicação de certos tipos de personalidade com objetivo de atenuar impulsos agressivos, alterações do humor, raiva e depressão. Assim sendo os Transtorno de Personalidade podem se associar muito mais com a dependência de substâncias que outros diagnósticos psiquiátricos.

A investigação indica que, juntamente com os efeitos desejados das substâncias e das características do meio ambiente, existem também fatores constitucionais no indivíduo que facilitam a dependência e que provocam o processo de recaída. É comum que para a existência da dependência química se necessita de possíveis outros transtornos psiquiátricos prévios ao início da conduta adictiva. Com esse enfoque seria muito oportuno o considerar que esses pacientes possam ter uma alteração dos sistemas de neurotransmissão-neuromodulacão tanto previamente ao desenvolvimento da drogadicção, como provocados e agravados, posteriormente, pelas próprias substâncias psicoativas que consumem.

Epidemiologia
A Associação Norte-americana de Psiquiatria refere uma prevalência de 3% para os Transtornos de Personalidade em homens e de 1% em mulheres da população geral. Entretanto, essas porcentagens aumentam no grupo com problemas clínicos, em geral até 30%, podendo chegar em determinados subgrupos populacionais como, por exemplo, entre os dependentes crônicos de substância, até 92% (Dejong).

A incidência dos Transtornos de Personalidade entre dependentes químicos despertaram grande interesse de estudo.

Em pacientes alcoólicos tem-se encontrado porcentagens de 64% de Transtorno de Personalidade, segundo Bernardo. E mais da metade desses pacientes tinham no mínimo dois diagnósticos de Transtorno de Personalidade.

Entre os Transtornos de Personalidade nos alcoolistas tem sido mais frequente o Transtorno Antissocial e o Transtorno Borderline da Pessoalidade (Regier e Numberg).

A associação entre o Transtorno Antissocial da Personalidade e o alcoolismo tem sido mais estudada pelo fato das dependências nesse grupo serem mais longas e severas, também pelo fato dos pacientes serem mais jovens e com escassas relações afetivas (Powel, Lewis e Cook).

Com respeito ao Transtorno Borderline da Personalidade, os pacientes apresentam mais frequentemente transtornos associados ao uso de substâncias, dependências químicas e tentativas de suicídio (Bernardo). É de 22% a incidência de Transtorno Borderline da Personalidade entre dependentes de opiáceos (Verheul). De acordo com o excelente trabalho de Gaspar Matínez, entre os dependentes de opiáceos a prevalência dos Transtornos de Personalidade oscila entre 35%, segundo Brooner e 65%, segundo Khantziam.

Os autores parecem concordar sobre o fato do Transtorno Antissocial da Personalidade ser o mais fortemente vinculado com os transtornos por uso de substâncias ou dependência química. Dinwiddle (1992) encontrou uma incidência de 68% desse transtorno entre os dependentes.

Em dependentes de cocaína houve grande incidência de mais de um tipo de Transtornos de Personalidade na mesma pessoa (Sonne). Os resultados iniciais mostraram que 68,1% dos pacientes com Dependência Química preenchiam os critérios de Transtornos de Personalidade e os tipos mais encontrados foram: borderline, paranoide e antissocial.

Entretanto, é curiosa a variação dos índices de incidência de Transtorno Antissocial da Personalidade que alguns autores encontram em pacientes adictos que se encontram em tratamento psicoterápico, indo de taxas mais otimista de 15% (Woody), até 50% (Brooner, Rounsavile e Woody).

Em relação à associação entre as dependências comportamentais, que são os Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo e o Transtorno por Uso de Substâncias existe uma importante porcentagem de concordância, assim como entre o alcoolismo e o Jogo Patológico (Saiz).

Transtornos Devidos ao Uso de Substâncias
Os Transtornos Mentais e Comportamentais Devidos ao Uso de Substância psicoativa incluem transtornos devidos ao uso de álcool, opiáceos como ópio ou heroína, canabinoides como a maconha, sedativos e hipnóticos, cocaína e outros estimulantes, alucinógenos, fumo e solventes voláteis.
As condições para diagnóstico são a intoxicação, uso nocivo, dependência e transtornos psicóticos. Faz-se o diagnóstico de uso nocivo quando houver dano da saúde física ou mental.

A síndrome de dependência envolve o desejo pronunciado de usar a substância, dificuldade para controlar seu uso, estados de supressão fisiológica, tolerância, descaso de outros prazeres e interesses e uso persistente, apesar das recomendações sobre os danos causados à própria pessoa e aos outros.

Embora o uso de substâncias (juntamente com os transtornos associados com ele) varia de uma região para outra, em geral o fumo e o álcool são as substâncias de maior uso no mundo, além de serem aquelas com as mais graves consequências para a saúde pública.

O uso do fumo é extremamente comum. A maior parte do uso se faz na forma de cigarros. O Banco Mundial estima que em países de alta renda a atenção de saúde relacionada com o tabagismo responde por 6 a 15,1% dos custos anuais da saúde (Banco Mundial).

Hoje, cerca de um em cada quatro adultos, ou seja, 1,2 bilhão de pessoas no mundo faz uso do fumo. Até 2025 esse numero deverá subir para mais de 1,6 bilhão. Segundo estimativas, as mortes imputáveis ao tabaco serão 8,4 milhões em 2020 e chegarão a 10 milhões por volta de 2030.

Além dos fatores sociais e comportamentais associados com o início do tabagismo, observa-se uma clara dependência da nicotina na maioria dos fumantes crônicos. Essa dependência impede essas pessoas de deixar de fumar.

O álcool é também uma substância de uso comum na maioria das regiões do mundo. A prevalência de ponto dos transtornos devidos ao uso de álcool (uso nocivo e dependência) em adultos foi estimada em cerca de 1,7% em todo o mundo, segundo análise da CGD 2000. As taxas são muito maiores nos homens, sendo de 2,8% para o sexo masculino e 0,5% para o feminino. A prevalência de transtornos devidos ao uso de álcool acusa variações consideráveis entre diferentes regiões do mundo, indo de níveis muito baixos em alguns países do Oriente Médio a mais de 5% na América do Norte e partes da Europa oriental.

Alterações de Personalidade
Essas alterações na pessoa dependente são um problema seríssimo. Alterações de Personalidade não devem ser confundidas com os Transtornos da Personalidade, que são muito mais graves, definitivos e não se revertem, enquanto as Alterações da Personalidade são reversíveis depois que o dependente passa um período abstinente. Veja a página sobre Alterações da Personalidade.

Os dependentes costumam obedecer um padrão de personalidade ao longo do tempo de dependência. Existem traços e características de comportamento, relacionamento e percepção da realidade comuns aos dependentes. As Alterações de Personalidade nos dependentes químicos não significa que eles fiquem todos com a mesma personalidade, mas que, dentro da individualidade de cada um, eles apresentam algumas características comuns.

As Alterações de Personalidade dos dependentes não aparecem especificamente relacionadas no DSM-5 ou na CID-10. O diagnóstico mais aproximado desta condição é Alteração da Personalidade Devido a uma Condição Médica Geral (310.1). A característica essencial de uma Alteração da Personalidade Devido a uma Condição Médica Geral é uma perturbação da personalidade que o clínico julga ser devido aos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica geral. A perturbação da personalidade representa uma mudança no padrão prévio de personalidade característico do indivíduo.

Para o diagnóstico de Alteração da Personalidade Devido a uma Condição Médica Geral deve haver evidências, a partir da história e exames, de que a alteração da personalidade é a consequência fisiológica direta de uma condição médica geral. A alteração deve também causar sofrimento ou prejuízo significativo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes.

É bastante comum as pessoas que conheceram anteriormente o dependente, antes do uso abusivo da droga, estranharem muito suas atitudes e comportamento atuais, achando que essa pessoa agora dependente parece nem ser a mesma conhecida anteriormente. Nos casos onde a abstinência foi conseguida, em se tratando de Alteração da Personalidade e não Transtorno da Personalidade, depois de algum tempo a pessoa volta a manifestar sua personalidade prévia.

Alguns dos sintomas descritos no quadro da Alteração da Personalidade Devido a uma Condição Médica Geral se encaixam perfeitamente nas alterações apresentadas pelos dependentes, tais como instabilidade afetiva, fraco controle dos impulsos, surtos de agressividade ou raiva em nítida desproporção com qualquer estressor psicossocial desencadeante, acentuada apatia, desconfiança ou ideação paranoide.

Sobre as Alterações da Personalidade produzidas por dependência química, o DSM (Manual de Diagnóstico de Doenças Mentais da Associação Norte-americana de Psiquiatria) diz o seguinte:

“As alterações da personalidade também podem ocorrer no contexto de uma Dependência de Substância, especialmente no caso de uma dependência de longa duração. O médico deve investigar atentamente a natureza e extensão do uso da substância. Se o profissional deseja indicar um relacionamento etiológico entre a alteração de personalidade e o uso de uma substância, a categoria Sem Outra Especificação pode ser usada para a substância específica (por ex., Transtorno Relacionado à Cocaína Sem Outra Especificação).”

Quando o dependente passa por um período de abstinência relativamente longo (de 6 a 12 meses) as Alterações na Personalidade desaparecem e a personalidade prévia volta a existir. Diz-se que a pessoa “voltou a ser o que era“. Caso haja uma recaída no uso das drogas, as Alterações da Personalidade se manifestam em muito menos tempo que da primeira vez. Isso é tão evidente que na maioria das vezes os familiares do dependente percebem que ele voltou a usar drogas pelas alterações de conduta, comportamento e relacionamento que surgem quase de repente.
É fundamental a questão da comorbidade de Dependência Química e qualquer outra patologia psíquica. A ideia é estabelecer uma base de conhecimento preditivo, ou seja, preventivamente, para sabermos quais as chances de transtornos emocionais concorrerem na Dependência Química.
DIFERENÇAS ENTRE ALTERAÇÃO E TRANSTORNO DA PERSONALIDADE
ALTERAÇÃO TRANSTORNO
É uma mudança no padrão prévio e característico do indivíduo Padrão permanente e atrelado profundamente à pessoa.
Início em qualquer época Início na infância/Adolescência
Detecta-se a causa (drogas, AVC, etc.) Sem causa aparente
Na maioria, a pessoa ESTÁ assim (reversível*) A pessoa sempre É assim (irreversível)
Tipo Paranoide
Tipo Agressivo
Tipo Instável
Tipo Desinibido
Tipo Apático
Tipo Sociopata
Tipo Paranoide
Tipo Esquizoide
Tipo Explosivo
Tipo Histriônico
Tipo Ansioso
Tipo Antissocial (Sociopata)
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Principais características da Alteração da Personalidade na Dependência Química
Mentiras seguidamente
Desmazelo (pessoal e em seu ambiente)
Irritabilidade e agressividade
Impulsividade
Relaxamento da ética (rouba, etc)
Arrogância e prepotência
Não cumprimento de compromissos
Apatia amotivacional
Desinteresse por tudo que não diz respeito à droga
Instabilidade afetiva
Alteração do padrão do sono
Alteração do padrão alimentar

Comorbidade

A comorbidade se refere a um tipo de pacientes que apresenta mais de um diagnóstico psiquiátricos simultaneamente. Há nítida relação entre os Transtornos por Uso de Substâncias (onde se inclui a dependência) e alguns dos Transtornos do Controle dos Impulsos e Transtornos da Pessoalidade. Essa associação de diagnósticos supõe a existência de algumas possibilidades:

1º) Associação fortuita e aleatória, onde a pessoa sofreria simultaneamente dois transtornos;
2º) Associação por superposição, onde uma mesma vulnerabilidade constitucional resultaria em mais de um transtorno. É o que acontece, por exemplo, com o Transtorno Evitativo de Personalidade comumente afetando a pessoa com Transtorno por Ansiedade Fóbica;
3º) Associação redutiva, onde transtornos diferentes e com distintas fisiopatologias poderiam ter sintomas compartilhados. É o que acontece, por exemplo, com o Transtorno Esquizotímico de Personalidade e o Transtorno Borderline de Personalidade.
4º) Associação espectral, quando transtornos com a mesma origem diferem apenas numa expressão sintomática, como por exemplo, o Transtorno de Personalidade Esquizotímica e Esquizofrenia.
5º) Associação por predisposição, quando a presença de um transtorno predispõe a pessoa a sofrer de outro transtorno diferente, como por exemplo, Personalidade Dependente e os Episódios de Depressão Maior.

Além dos Transtornos de Personalidade, estudos realizados em diferentes partes do mundo têm mostrado existir uma associação importante também entre o uso de drogas e outros transtornos psiquiátricos, particularmente a depressão (Kashani, Rounsaville, Lopes). Isso não quer dizer que entre deprimidos existam muitos dependentes químicos, mas sim em sentido contrário, ou seja, entre os dependentes químicos existem muitos transtornos psiquiátricos, particularmente a depressão.

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Diretrizes da OMS para diagnóstico de Dependência

1 – Forte desejo ou compulsão para usar a substância.
2 – Dificuldade em controlar o consumo da substância, em termos de início, término e quantidade.
3 – Presença da síndrome de abstinência ou uso da substância para evitar o aparecimento da mesma.
4 – Presença de tolerância, evidenciada pela necessidade de aumentar a quantidade para obter o mesmo efeito anterior.
5 – Abandono progressivo de outros interesses ou prazeres em prol do uso da substância.
6 – Persistência no uso, apesar das diversas consequências danosas

É muito difícil determinar, com precisão, quando uma pessoa se torna dependente de uma substância (seja qual for o seu status legal), e há indicações de que, em vez de ser uma categoria claramente definida, a dependência se instala em forma progressiva, dos problemas iniciais sem dependência significativa, até uma dependência grave, com consequências físicas, mentais e socioeconômicas.

Há, também, crescentes indícios de que algumas alterações neuroquímicas no cérebro estejam associadas com características da dependência de substâncias e, de fato, como causadoras de muitas delas.

Os próprios indícios clínicos parecem mostrar que a dependência de substâncias deve ser encarada, ao mesmo tempo, como doença médica crônica e, por outro lado, como um problema social (Leshner, McLellan et al.). As raízes comuns da dependência de uma série de substâncias e a alta prevalência de dependência múltipla indicam que a dependência de substâncias deve ser considerada como um distúrbio mental complexo, com possível base no funcionamento cerebral.

Impulso e Agressão do Dependente Químico
Glover foi um dos pioneiros em destacar o papel dos impulsos agressivos no abuso de substâncias (Galanter). Neste sentido, o consumo de algumas drogas eliminaria os impulsos agressivos e a disforia dos sujeitos com problemas de personalidade, melhorando a ira, a agressividade e os sentimentos depressivos (Craig, Khantziam). Por outro lado, a dependência pode acabar ocasionando, com o tempo, uma Alteração da Personalidade, onde a impulsividade e agressividade têm papel muito relevante.

A impulsividade pode ser o substrato comum de diferentes transtornos emocionais, tais como, nas Dependências de Substâncias, Transtornos da Alimentação, Transtornos do Controle dos Impulsos, Transtornos da Personalidade e outros. O termo impulso, de origem psicodinâmica, manifesta a disposição imperiosa da pessoa atuar de forma a diminuir uma tensão.

Na dinâmica do consumo da droga existe uma relação binária vontade-personalidade que se conceitua através de dois modelos; primeiramente, o modelo baseado na evitação dos efeitos muito desagradáveis da abstinência. Em segundo, o modelo baseado nos efeitos agradáveis associados ao consumo da droga. Ambos modelos compartilham impulsos básicos comuns; a vocação do ser humano para a busca do prazer e para a fuga da dor.

Os Transtornos do Controle dos Impulsos formam um grupo diagnóstico heterogêneo com uma característica comum; a sensação de tensão orientada para a busca ao prazer, a gratificação ou a liberação. Todos esses transtornos têm como base comum uma fragilidade da vontade (volição), resultando em um sintoma impulsivo intenso e mal adaptado ao qual a pessoa não sabe resistir.

Entre os Transtorno do Controle dos Impulsos está o Transtorno Explosivo Intermitente. Atualmente acrescentam-se outros quadros:

Tricotilomania (arrancar cabelos)
Transtorno de Tique
Síndrome de Toureute
Sexo Compulsivo
Jogo Compulsivo
Piromania
Compulsão para Compras
Compulsão à Internet

A relação entre o controle dos impulsos e os Transtorno de Personalidade é tão estreita que, durante muito tempo, os dois sistemas teóricos de classificação (CID e DSM), citavam a perda do controle dos impulsos como a primeira, de uma série de características, necessárias para classificar a gravidade do Transtorno de Personalidade (Milom).

Uma outra comorbidade com os Transtorno Antissocial e Transtorno Borderline é a labilidade de humor (do normal à irritabilidade e não da euforia à depressão). A agressividade impulsiva, frequentemente associada à labilidade do humor pode ter, como consequência, uma síndrome associada a comportamento antissocial e, dentro dela, a dependência química.

Finalizando, a relação de dependência química com as Alterações da Personalidade, um diagnóstico quase nunca considerado e que fará uma brutal diferença no prognóstico dos dependentes. Nos casos de associação da dependência química com Transtorno da Personalidade o prognóstico estaria “fechado”, ou seja, com poucas ou nenhuma possibilidades de reversão, mas, nos pouco considerados casos de Alterações da Personalidade ocasionadas pelo uso abusivo de substâncias, o quadro é muitíssimo mais otimista.

Enfatiza-se o fato das pessoas com Transtorno da Personalidade terem severos problemas no relacionamento social e correrem riscos de outros problemas adicionais. Ressalta-se que a classificação atual de “mau” comportamento pode se basear nos diagnósticos do DSM de Transtornos Disruptivos do Comportamento e Transtornos Anti-Social da Personalidade, ambos facilitadores de comorbidade com dependência química.

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para referir:
Ballone GJPersonalidade e Dependência. in. PsiqWeb, Internet – disponível em http://www.psiqweb.net, 2017