Ideias deliroides

As vezes a solicitação para satisfação das necessidades íntimas da personalidade são tão contundentes que a realidade é totalmente desprezada em favor de devaneios e fantasias fortemente prevalentes; as Ideias Deliroides. 

Para se falar em Delírio é necessário começar falando da Lógica e do Juízo. A lógica é quem estuda e argüi o juízo e se interessa, particularmente, por sua concordância com as leis formais do pensamento, seus aspectos dialéticos e seu conteúdo. Para que a lógica seja correta interessa apenas que a forma do pensamento seja correta (aspectos formais do pensamento). Do ponto de vista da lógica, portanto, o juízo consiste na afirmação ou negação de uma relação entre conceitos (Alterações do Pensamento).

Etimologicamente a palavra Delírio significa “sair dos trilhos”. Por definição o conceito de Delírio consiste em alteração do juízo de realidade, capacidade de distinguir o falso do verdadeiro, implica em lucidez da consciência. Para que se use o termo “delírio”, Jaspers propõe que esta alteração do juízo não seja decorrente de alguma perturbação da inteligência, nem que seja secundário a um estado de consciência momentaneamente alterado. Geralmente quando existe um distúrbio momentâneo da consciência produzindo uma alteração de juízo e isso se dá por causas orgânicas, chamamos, então, de “delirium“. Isso não é a mesma coisa que Delírio.

Os indivíduos acometidos tanto de delirium como de Delírio têm alterações do pensamento no que se refere à compreensão dos fatos. Estas alterações terminam por comprometer a interação com a realidade e com outras pessoas.

O juízo em sua estrutura, consta de dois termos ou conceitos intimamente atrelados. Na estrutura do juízo, tal como ocorre em uma oração sintática, o sujeito é o ser de quem se afirma ou se nega alguma coisa, enquanto o predicado é o que se afirma ou se nega desse sujeito. Estabelece-se assim uma íntima relação entre o sujeito e o predicado, sendo que este último afirma ou nega algo do sujeito. Se se estabelece, por exemplo, uma relação entre a cobra e periculosidade, formaremos em nossa consciência o juízo de que a cobra é perigosa.

Pode-se, também, estabelecer a relação entre uma percepção, proveniente da sensopercepção e um conceito, proveniente do pesamento. Os juízos são atos da consciência em que se exprimem os vínculos e relações entre os objetos e fenômenos da natureza. A existência de diversas formas de juízo está condicionada pelo desenvolvimento histórico do conhecimento humano. De qualquer forma, o juízo pode expressar a verdade ou o erro, conforme suas afirmações correspondam ou não à realidade. Portanto, o único critério da veracidade dos juízos é a sua consonância com a realidade objetiva.

Em psiquiatria são estudadas as alterações do conteúdo do pensamento, onde se incluem os Delírio, as Obsessões, as Fobias e as Idéias Supervalorizadas. Na realidade, talvez fosse mais correto entender os delírios como um distúrbio no ato de formação dos juízos do que alterações do conteúdo do pensamento.

Uma pessoa psiquicamente normal pode encontrar-se na situação de perseguido, ser vigiado por um inimigo, ser perseguido pela polícia, ser vítima de injustiças e reagir para livrar-se dessa situação desagradável. Na pessoa esquizofrênica o Delírio de perseguição tem a mesma estrutura, o mesmo conteúdo, na sucessão das fases: desconfiança, descoberta da base concreta para essa desconfiança e reação. A vivência de perseguição ou o conteúdo das idéias pensadas é idêntica nos dois casos.

O que diferenciaria o Delírio esquizofrênico da perseguição real é que no Delírio tudo irrompeu na mente do enfermo sem que houvesse nada no mundo exterior que a justificasse. Seria um juízo proveniente de uma premissa falsa que associa um falso perseguidor atuando sobre uma pessoa real (o doente). Percebe-se que o conteúdo do pensamento está até coerente, mas o ato de formação dos juízos foi perturbado, o perseguidor surgiu sem nenhuma correlação com a situação objetiva realmente existente.

O problema dos Delírios ou das idéias delirantes refere-se à formação dos juízos, portanto, uma denominação mais precisa seria chamado-los de juízos delirantes. Entretanto, o uso consagra as expressões Delírio e idéias delirantes.

Por outro lado a chamada idéia deliroide seria igualmente um falseamento do juízo, porém, secundário à algum transtorno afetivo. Não se trata de um fenômeno primário como é o Delírio, mas secundário a algum estado afetivo patológico de base. Isso ocorrem na depressão grave com sintomas psicóticos. É, de fato, um conjunto de juízos falsos que se desenvolvem em consequência de condições psicopatológicas graves, mas tal como ocorre no Delírio, não se corrige por meios racionais.

Resumindo, é bom ficar com a idéia dos Delírios como desordens primárias do juízo e que não podem ser deduzidas de outras experiências vivenciais, nem racionais, nem emocionais. São juízos infundados que ocorrem como verdades incontestáveis e dos quais se retiram conseqüências vivenciais, sejam racionais, comportamentais ou emocionais, tal como seria de se esperar de um juízo corretamente fundamentado.

Os enfermos delirantes são capazes de discorrer com uma lógica impecável, porém consequente à falsidade que Ihes serve de ponto de partida. O exame mais aprofundado do problema do Delírio verdadeiro nos leva à conclusão de que, na realidade, não se trata de perturbação do juízo já formado, mas algo que precede à formação desses juízos. A perturbação se constitui no próprio ato de partir de uma premissa falsa e elaborar fortemente uma consequência dedutiva. A premissa é falsa, mas o raciocínio que se desenvolve a partir desse princípio falso é perfeitamente coerente, portanto, o conteúdo do pensamento até que seria normal, embora a premissa primeiramente ajuizada seja falsa.

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A idéia delirante é um transtorno da ideação onde as idéias surgem com convicção absoluta em si mesmas, sem qualquer derivação da cultura, das crenças e das convicções do indivíduo. Elas brotam como um mundo novo, incrustado como um cisto no mundo interno e completamente autônomo dele.

A idéia delirante surge como uma revelação completa, como uma verdade absoluta por si mesma. Por este motivo, não há qualquer tipo de argumentação que possa submetê-la, pois ela é totalmente acrítica.

Nem mesmo as evidências de realidade a demovem. Nisto ela tem uma certa semelhança com os fanatismos, mas difere deles porque as idéias fanáticas surgem perfeitamente inseridos num contexto de crenças e valores, enquanto ela não.

Os conteúdos costumam ter relação com a cultura, a convicção ou o contexto atual em que vive o indivíduo. Assim, se ele for espírita, o conteúdo pode estar relacionado com o espiritismo.

Ele também pode, por exemplo, achar-se perseguido pela polícia, que suspeitaria de que ele tivesse cometido algum crime. No entanto, tudo isso se dá com uma convicção própria e, apesar de assemelhar-se com o seu contexto existencial ou atual, nada tem a ver com ele.

Mesmo com essas semelhanças, ao nos aprofundar-nos na entrevista a respeito dessas idéias, acaba ficando claro tratarem-se de rupturas de sentido, de idéias não derivadas de nenhum dos seus contextos.

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Tipo de Delírio Primário

Os delírios podem ser primários, se não derivam de nenhuma outra alteração mental subjacente, como por exemplo um transtorno afetivo, mas aparecem como distúrbios primários do pensamento, como é o caso de todos os quadros paranoides – esquizofrenia, desenvolvimento paranoide, reações paranóides, parafrenia, paranóia -, ou podem ser secundários, quando derivam de estados mentais prévios facilitadores, como no caso dos delírios maníacos, eufóricos, depressivos e confusionais.

As ideias delirantes primárias são as ideias delirantes verdadeiras, pois elas brotam completamente de fora de todo o contexto do indivíduo, surgem do nada, como uma nova ideias com dinâmica própria, desvinculada de todo o restante do mundo interno. A existência de ideias delirantes primárias sempre é fortemente indicativa de uma patologia de natureza psicótica.

As idéias delirantes primárias apresentam os mais variáveis tipos de conteúdos. As possibilidades são infindas. Alguns deles, como o delírio fantástico, tendem a ser mais freqüentes em determinadas patologias, no caso nas parafrenias, mas podem aparecer em todos os tipos de doenças paranóides.

As idéias delirantes expansivas são as idéias na qual o indivíduo se acredita dono do mundo, com poder de influência sobre tudo, tudo o que acontece ocorre só porque ele quer, tudo depende da sua vontade. 

As idéias delirantes autorreferentes se referem ao fato de tudo o que acontece à volta do indivíduo se referir a ele, as pessoas na rua o estão olhando, pessoas que conversam estão falando dele, o guarda o está observando, etc.

É um dos tipos mais freqüentes de idéias delirantes. Um exemplo comum de autorreferência é aquele onde a pessoa acredita que as pessoas no rádio ou na televisão estão falando dela ou com ela. 

Nas idéias delirantes de grandeza o indivíduo se sente o mais poderoso dos homens, um rei, um imperador ou o comandante das forças armadas. É muito comum o indivíduo se identificar com um personagem importante da história ou de um artista famoso. A caricatura do louco que se acredita ser Napoleão é uma idéia delirante desse tipo.

As idéias delirantes de perseguição também são muito comuns e se caracterizam pelo indivíduo acreditar estar sendo perseguido pela polícia, pelo serviço secreto, pelos vizinhos, pelos chefes no serviço, etc.

As idéias delirantes místicas são aquelas de conteúdo religioso: o indivíduo se acredita Deus ou um profeta (também de grandeza), com poderes de cura ou condenação ao inferno, capaz de realizar milagres, etc.

As idéias delirantes sobrenaturais são aquelas em que o indivíduo acredita ter o poder da telepatia, de mover objetos à distância, de ferir pessoas com o pensamento, etc.

Um dos tipos de idéias delirantes mais bizarro é o das transformações corporais. Nela, o indivíduo acredita por exemplo que o seu braço é de madeira ou plástico, que a sua cabeça tem o triplo do tamanho, que o seu corpo é todo deformado, que existem objetos ou seres vivos em seu interior, como uma serpente no estômago ou um verme dentro da cabeça que devora o seu cérebro lentamente. Elas são próprias da esquizofrenia.

IDEIAS DELIROIDES
Kraepelin
definia os delírios como “idéias morbidamente falseadas que não são acessíveis à correção por meio do argumento“. Bleuler, por sua vez, dizia que “Idéias delirantes são representações inexatas que se formaram não por uma insuficiência da lógica, mas por uma necessidade interior. Não há necessidades interiores senão afetivas“. Como percebemos, Kraepelin se referia àquilo que entendemos por Delírio Primário, enquanto Bleuler, ainda mesmo sem cogitar a concepção de Delírio Secundário falava do que se entende hoje por Ideia Deliroide.

Todos nós tendemos a desenvolver ficções reconfortantes e úteis para proporcionar apoio e segurança à personalidade. Aparentemente, o espírito humano sempre desenvolveu ou adotou crenças bem elaboradas em um esforço para satisfazer necessidades íntimas. A construção de crenças fantasiosas como proteção contra a ansiedade e a insegurança tem ocorrência universal. Este foi, em outras épocas, o propósito oculto dos nossos contos de fadas, das narrações épicas de pessoas poderosas, dos mitos e crenças.

As vezes a solicitação para satisfação das necessidades íntimas da personalidade são tão contundentes que a realidade é totalmente desprezada em favor de devaneios e fantasias fortemente prevalentes; as Ideias Deliroides. A realidade sofrível pode ser transformada a fim de torná-la mais compatível com as necessidades emocionais da personalidade.

Desde Jaspers, diversos autores dizem que o delírio é algo que não pode ser explicado psicologicamente e cuja ocorrência só se pode conceber em conexão com algo misterioso que acomete o psiquismo a partir do orgânico. Outros autores observam haver no delírio muito que possa ser psicologicamente explicado, compreendido e sentido.

Eugene Bleuler, mesmo sem adotar o termo Ideia Deliroide, defendeu esta posição reconhecendo ideias falsas que decorriam de estados mórbidos de alteração de humor. Observou que, ao passo que na depressão leve o paciente temia ficar pobre, doente ou que pudesse ter cometido algum pecado, na depressão grave o pacientes tem certeza absoluta disso e não havia meios que pudessem convencê-lo a abandonar tais pensamentos. Igualmente na euforia doentia, Bleuler via surgir uma elevação anormal da auto-estima, a qual se desenvolvia numa idéia de grandeza solidamente estabelecida.

Das observações de Bleuler estabeleceu-se aquilo que se reconhece hoje como Ideias Deliroides, ou seja, das ideias com características de Delírio no que diz respeito ao afastamento da realidade, porém, possíveis de interpretação psicológica. Mais precisamente, falsas ideias decorrentes de expressivas alterações afetivas. Kolb, tal como Bleuler, também trata dos Delírios e Ideias Deliroides como uma coisa só. Ele refere um exemplo bem sugestivos das Ideias Deliroides mostrando até que ponto as necessidades íntimas podem produzir distorções da realidade, negações e emprego inadequado de fatos, de uma forma considerada delirante.

Durante a Primeira Guerra Mundial, uma mulher foi informada pelo Departamento de Guerra que seu marido fora morto em certa data e enterrado em certo lugar da França. Vários meses depois, ela visitou o Departamento e expressou a convicção de que seu marido estava vivo e que o corpo do seu suposto marido era realmente o de uma pessoa desconhecida para ela. As autoridades militares apresentaram provas de que não fora cometido nenhum erro, mas a viúva continuou incrédula e pediu que o corpo do seu suposto marido fosse levado de volta América e examinado.

Isto foi feito e o número de identificação, assim como a localização dos ferimentos, corresponderam aos registros do Departamento de Guerra. Ainda assim a mulher permaneceu incrédula. Finalmente o motivo para sua ilusão apareceu. Entre os papéis do falecido marido, reunidos após sua morte e enviados à viúva, havia cartas apaixonadas de outra mulher. A paciente protegera-se a si mesma da penosa realidade de que não era a primeira na afeição do marido, criando a crença de que o homem que fora morto e cujos papéis lhe haviam sido enviados era outro.

A distinção fundamental entre Idéias Delirantes e Idéias Deliróides se liga, indissoluvelmente, à Karl Jaspers. Nas Ideias Deliroides as experiências são assimiladas e a imagem do mundo exterior fornecida pela razão é falsificada de acordo com as demandas afetivas e instintivas fragilizadas. Ele age como se seu sistema deliroide constituísse a realidade da qual necessita.

A dinâmica que envolve a Ideia Deliroide é bastante similar àquele usado por todos. É por isso que a Ideia Deliroide é compreensível pelas pessoas na maioria das vezes. No exemplo citado acima, todos entendem que diante da enorme frustração da viúva, havia necessidade imperiosa de elaborar uma realidade onde aquele soldado morto e com carta de amor de outra mulher não era seu marido.

Nossas crenças tendem a ser subjetivamente coloridas e, sem dúvida, todos recorremos a certas ficções por segurança. O emprego fisiológico e normal da Racionalização e da Projeção com propósitos defensivos, por exemplo, têm igual objetivo psicológico que a utilização patológica desses mesmos Mecanismos de Defesa, como acontece nas Ideias Deliroides.

As Ideias Deliroides, notadamente aquelas organizadas e sistematizadas, constituem tentativas de manipular os problemas e as tensões da vida através da fantasias elaboradas para fornecer aquilo que a vida real nega, entretanto, devido ao seu aspecto mórbido, tais fantasias não são construídas numa estrutura compatível com uma adaptação social normal.

A direção e o tema das Ideias Deliroides pode ser determinados pelos problemas e necessidades íntimas do paciente antes de se tornar doente. Verificamos, com freqüência, que o conteúdo das Ideias Deliroides revela aspectos significativos dos problemas pessoais do paciente.

As fontes desses problemas podem ser frequentemente encontradas em inclinações e impulsos contrariados, esperanças frustradas, sentimentos de inferioridade, inadequações biológicas, qualidades rejeitadas, desejos importunantes, sentimentos de culpa e outras situações que exigem uma defesa contra a angústia. Uma profunda necessidade de consolo pode ser satisfeita por idéias auto-elogiosas, portanto, uma falsa Ideia Deliroide de grandeza, por exemplo, pode refletir uma defesa contra sentimentos de inferioridade.

Muitas vezes, todavia, a função psico-emocional da Ideias Deliroides está longe de ser óbvia e sua interpretação permanece no terreno das especulações. Isto não significa que ela não tenha significado ou propósito. Ela possui um valor de ajustamento definido, mas sua origem e seu propósito são ocultos por seu conteúdo simbolicamente disfarçado.

Em artigo de 1910, Jaspers relata dois casos que substanciam brilhantemente essa divisão. Ele sustentou, a certa altura, que o verdadeiro Delírio de Ciúme dos casos relatados diferia de qualquer outra forma de produção mórbida de ciúme porque, em primeiro lugar, não partia de fatos reais (premissa falsa), logicamente aceitáveis e razoavelmente possíveis. Depois, porque não guardava nenhuma relação compreensível com disposições específicas de personalidade, com eventuais preocupações, com alguns complexos, conflitos ou com a dinâmica dos acontecimentos atuais.

Para Jaspers, o verdadeiro Delírio de Ciúme não podia, pois, ser explicado como traço de uma personalidade anormal no curso de seu desenvolvimento, mas sim, como algo novo que se inseria, em dado instante na vida do indivíduo, fazendo supor um desvio abrupto ou de uma quebra, uma profunda transformação qualitativa da própria estrutura pessoal.

Assim, desde essa época foram estabelecidas as diferenças essenciais entre as estruturas Delirantes e Deliroides. Jaspers afirmava que o verdadeiro delírio é um fenômeno primário por excelência. Como fenômeno primário ele queria dizer psicologicamente incompreensível para a pessoa normal, portanto, sem compreensibilidade para uma personalidade normal e sem nenhuma semelhança com eventuais vivências psíquicas que pessoas normais são capazes de representar coerentemente. Por isso essas ideias resultam totalmente estranhas e são impenetráveis psicodinamicamente. Ilustra bem a caricatura do “louco” que, de repente, acha-se Napoleão Bonaparte, sem nada capaz de explicar psicodinamicamente tal ideia.

Além do aspecto impenetrável, os juízos verdadeiramente delirantes devem trazer ainda o timbre da certeza subjetiva absoluta, da convicção interior irremovível. Essa não-influência psicológica seria, segundo Jaspers, outra característica típica da Idéia Delirante verdadeira, atestando assim sua irredutibilidade e incorrigibilidade, tanto por meio da persuasão lógica e irresistível, como através da evidência esmagadora dos fatos em contrário.

Na Depressão Grave, como sabemos e bem atestou Kurt Schneider, embora a tristeza vital seja considerada primária, no sentido de ser também incompreensível e psicologicamente irredutível, dela deriva e se vincula toda a gama de Ideias Deliroides depressivas. Essas Ideias Deliroides são pseudo-delírios ou Delírios Secundários, como os denomina Jaspers, por tomá-los psicologicamente compreensíveis e dentro do quadro clínico geral em que se forma formam. Pode-se também referir às Ideias Deliroides como Delírio Humor-Congruentes.

O mesmo fenômeno se observa no tocante às idéias de grandeza, tão bem observadas em estados maníacos como expressão natural do sentimento de onipotência. Nesses casos também devemos considerar o classicamente chamado delírio de grandeza como pseudo-delírio ou Ideias Deliroides e não só aqueles observados nos eufóricos, como também nos raros casos da paralisia geral progressiva.

Nos eufóricos a irrealidade das Ideias Deliroides é compreensível e explicável em função da forma clínica expansiva da doença e, nos portadores de sífilis terciária (neuro-sífilis), são explicáveis, portanto,  são secundários em razão do processo mórbido orgânico-cerebral subjacente. Assim, pois, as Ideias Deliroides podem ocorrer em abundância e secundariamente nos estados maníacos e depressivos, nas psicoses orgânicas, em certos deficientes mentais leves, em personalidades psicopáticas, nos sociopatas e nas psicoses reativas.

O tema do pensamento delirado não é suficiente para dizer se trata-se de uma Ideia Delirante ou Deliroide. Assim como Jaspers se baseou em Delírios de Ciúme para definir a Vivência Delirante Primária, Bleuler se baseia no mesmo tipo de delírio, porém em alcoólatras, para discorrer sobre uma Vivência Delirante Secundária. Embora Bleuler não use o termo Deliroide, suas observações sobre o delírio de ciúme do alcoolista exemplificam plenamente as Interpretações Deliroides.

No alcoolismo por exemplo, pelo fato de espancar sua mulher e conseqüente ruptura de relação com ela, bem como porque o alcoolismo já atingiu um grau suficientemente elevado para desenvolver impotência sexual, tornaram-se impossíveis as relações sexuais conjugais. Uma visão realista dos fatos e uma explicação realista seria: “por causa da bebida arruinei minha vida conjugal e perdi minha potência, por isso preciso parar de beber“. Mas, poucos ou nenhum alcoólatra chega a essa conclusão. A saída encontrada por eles reside na representação tentadora de que: “Naturalmente sou um esposo exemplar, de plena posse de minha virilidade, então é a minha mulher que deve ser culpada pelo fato de a nossa vida conjugal estar perturbada. Será que ela não tem um amante?

Se a auto-estima do alcoólatra sofrer mais ainda pelo seu fracasso e sua dependência alcoólica acabar por isolá-lo cada vez mais, ele finalmente julgará que a infidelidade da esposa é uma certeza. Se, por acaso, ela arrumar a cama quinze minutos mais tarde do que de costume, isto será uma prova “irrefutável” de que ela esteve na cama com outro homem.

Segundo Karl Jaspers, nas Ideias Deliroides as experiências são assimiladas e a idéia do mundo exterior oferecida pela razão é falsificada de acordo com as demandas afetivas e instintivas fragilizadas. É como se seu sistema de pensamento deliroide constituísse uma realidade necessária. O raciocínio que caracteriza as Ideias Deliroides é bastante similar àquele que todos nós utilizamos, embora de grau muito diferente. Por isso a Ideias Deliroides nos é compreensível na maioria das vezes.

Tipos de Ideias Deliroides

1. – Delírio Expansivo, Delírio de Grandeza
Nos casos leves essas Ideias Deliroides assumem mais a forma de supervalorização do ego. O paciente passa a possuir uma saúde excepcional, uma excepcional capacidade de realização e uma beleza superior à das outras pessoas. A partir daí o megadelírio existe em todos os graus; possibilidades impossíveis de se atingir são otimistamente consideradas, ideias de poder fazer invenções fantásticas, de possuir fortunas inesgotáveis, fundar novas religiões, ser Deus ou Superdeus.

Ocasionalmente o ambiente também é delirantemente transformado: os colegas, amigos e parentes do paciente são vistos como condes, magnatas, etc. Sua casa pode se mostrar um palacete, seu carro uma super máquina, etc.

Este tipo de Ideia Deliroide é também denominado Delírio Humor Congruente, principalmente quando acomete pacientes com Transtorno Afetivo Bipolar, na fase de euforia. Pode ainda aparecer nos Transtornos Delirantes Transitórios (ou Psicoses Reativas Breves), igualmente secundário à profunda alteração afetiva desses estados. Nesses casos ele aparece de maneira reativa, ou seja, o paciente de fato estaria transformando em delírio um mecanismo de defesa. Também será um Delírio Secundário quando aparece na Sociopatia, tal como uma fantasia mitômana secundária à um anseio teatral e intencionalmente idealizado. O tema de grandiosidade pode fazer parte de um delírio verdadeiro e primário quando aparece no Transtorno Delirante Persistente (ou Psicose Delirante Crônica).

Nas formas maníacas da Paralisia Geral Progressiva (lues) o delírio de grandeza geralmente é bastante absurdo. Nesses casos o paciente tem à disposição grandes fortunas, grande poder e pode até julgar-se general ou superdeus.

Nos casos de Transtornos Afetivo Bipolar, fase maníaca e nas Psicoses Reativas Breveso prognóstico desse tipo de delírio é bom. Eles se resolvem com a melhora do quadro maníaco, depressivo ou reativo, mediante o uso de medicação neuroléptica sedativa ou incisiva em alguns casos. Por outro lado, na Psicose Delirante Crônica e nas Sociopatias, o prognóstico da idéia delirante e deliróide, respectivamente, costuma ser péssimo. Quando muito, nesses casos, o afastamento da realidade costuma apenas esmaecer um pouco com o tratamento neuroléptico.

2. – Delírio Depressivo (ou de Prejuízo)
O Delírio Depressivo se manifesta sob a forma de Delírio Pecaminoso ou Delírio de Culpa, Delírio de Doença, Delírio de Ruína. Percebe-se claramente que todos esses tipos de delírios depressivos dizem respeito à severo prejuízo da auto-estima.

O doente com Delírio Pecaminoso crê, sem razão, ter cometido os piores crimes e pecados ou aumenta pequenas transgressões reais e tentações, mesmo apenas em pensamentos, como sendo pecados imperdoáveis. Por este motivo não apenas o próprio paciente, “nesta vida e na vida além da morte”, como também todos os seus parentes e até todo o mundo será castigado de forma indescritível. O empobrecimento ou o castigo muitas vezes é pensado de forma contaminante; não é apenas o doente a ser castigado por suas dívidas ou irá morrer de fome, mas também seus parentes terão igual destino.

O Delírio de Doença depressivo é a crença de ter determinadas doenças, sempre especialmente graves. Devemos estabelecer uma distinção entre este delírio oriundo da depressão, do Delírio Hipocondríaco, que surge na Esquizofrenia ou na Psicose Delirante Persistente, sem a necessária existência de depressão.

Na depressão gravíssima, notadamente naquelas de origem orgânica, vemos ainda um quarto grupo de idéias delirantes depressivas que, embora não tão freqüentes, quando existem permitem estabelecer o diagnóstico: trata-se do niilismo, que corresponde aproximadamente ao Delírio de Negação, o qual não deve ser confundido com as manifestações negativistas. Aqui nada existe mais, nem a instituição, nem o mundo, nem Deus, nem os próprios doentes; eles não comem mas também não se abstém de comer; não possuem nome, não são homens, mulheres, etc.

3. – Delírio de Perseguição Depressivo
No delírio de perseguição depressivo, inicialmente os doentes sentem que as coisas e as pessoas que os cercam se tornaram estranhas. Depois descobrem que certas pessoas lhes dão ou dão a outros, sinais que se referem a si. Alguém tosse para indicar que aí vem o homem que se masturba, que tem idéias obscenas sobre mocinhas, nos jornais aparecem artigos com “claras referências” a eles, nas lojas são “propositadamente mal atendidos”, no trabalho “ficam sempre com os serviços mais difíceis”, são caluniados às escondidas…

Do ponto de vista psicodinâmico, percebe-se claramente que tais delírios nada mais são que Mecanismos de Defesa, do tipo Projeção, onde os pacientes projetam nos demais aspectos de sua própria auto-estima. Esse aspecto redutível, psicologicamente, reforça o conceito que se tem de idéia deliróide.

No Delírio de Referência Depressivo podem existir organizações inteiras de judeus, negros, maçons, jesuítas, democratas sociais, capitalistas, muçulmanos, etc. que perseguem o paciente, atormentam com vozes, influências somáticas e outras alucinações, roubam seus pensamentos, impõem-lhes outros pensamentos, etc, tal como no delírio de perseguição esquizofrênico. No início do delírio de perseguição depressivo pode existir uma sensação de injustiça superestimada mas que, não obstante, possa realmente ter sido cometida contra o paciente.

Tem-se destacado como forma especial de delírio de perseguição, tanto na Esquizofrenia quanto nos Transtornos Afetivos, chamado de Delírio de Referência. Tais doentes podem julgar como referentes a si mesmos quaisquer observações irrelevantes, como por exemplo, tossir, notícias de jornais ou até acontecimentos cósmicos. Pensam que isto tudo ocorre por causa deles e interpretam-no no sentido da direção de seus pensamentos.

Nas alterações gravíssimas do humor pode ocorrer o Delírio de Referência, tanto quanto na esquizofrenia, porem, nesta última são de natureza primária e nos transtornos afetivos são secundárias.

O Delírio de Referência Depressivo deve ser compreendido a partir dos efeitos dos afetos. Qualquer idéia impregnada de carga afetiva possui uma série de associações até para a pessoa sadia, associações estas que não correspondem à realidade. Quem não se sente observado (supervalorativamente) ao entrar num salão de festas ou quando sai pela primeira vez com um novo uniforme.

Psicodinamicamente, no Delírio de Perseguição Depressivo, a auto-recriminação por desejos indignos e por aspectos indesejáveis da personalidade são projetados no ambiente sob a forma de hostilidade deste ambiente contra o paciente. As insatisfações do deprimido em relação a si mesmo podem ser projetadas no ambiente como sendo insatisfação deste ambiente contra ele, portanto, como hostilidade do meio em relação à si.

Como vimos, a formação do Delírio de Referência Depressivo é facilitada pelo mecanismo de Projeção, usado de forma patológica e que facilmente leva a julgamentos errôneos da realidade. Os motivos hostis e agressivos que o paciente atribui aos outros podem refletir suas próprias inclinações. Também alguns conflitos caracterizados por altas aspirações, sem as devidas qualidades necessárias para alcançá-las, ao lado da incapacidade em aceitar a derrota podem levar à desconfiança, suspeita, mal entendidos, ressentimentos e ideias de perseguição, ligados à depressão. Os Delírios Persecutórios muitas vezes permitem uma atenuação da responsabilidade e podem aliviar a angústia da culpa.

Como uma outra medida para evitar impactos à auto-estima, o paciente com ideias de perseguição pode desenvolver reações compensatórias sob a forma de uma exagerada segurança pessoal. Freqüentemente verificaremos que pessoas que desenvolveram delírios persecutórios mostravam-se, desde a meninice, críticas, introvertidas, desconfiadas e infelizes. Algumas delas foram solitárias, melancólicas e inseguras e não tiveram amigos com quem pudessem fazer confidências.

Existe uma relação entre o nível intelectual e o conteúdo da Ideia Deliroide na medida em que a qualidade dessas idéias depende do conteúdo cognitivo de cada um. Pacientes inteligentes sistematizam suas Ideias Deliroides, misturam-nas com fatos verdadeiros e incorporam-nas em um sistema erigido logicamente, apesar de partirem de premissas falsas.

Nos estados maníacos e depressivos dos pacientes não afetivos, como é o caso das síndromes orgânicas com manifestações afetivas, as idéias delirantes carecem muito mais de sentido e lógica. Expressam-se aqui perturbações intelectuais, especialmente a falta de clareza do pensamento.

Nos Afetivos Bipolares, geralmente as idéias de grandeza são apenas exageros da fantasia cotidiana. Ele é mais inteligente do que aqueles que cuidam dele, é capaz de lutar e vencer uma dúzia de enfermeiros, irá expandir seu negócio, ainda chegará a ser ministro, etc. Entretanto, nas formas maníacas da Paralisia Geral Progressiva(neurolues) o delírio geralmente se transforma logo em absurdo. Nesses casos o paciente tem à disposição grandes exércitos que irão liquidar o hospital e o país em que se encontra, é general, é superdeus, é a mãe de todas as pessoas, de hora em hora o Deus Bem Amado retira de seu corpo bebês, etc.

No depressivo senil o Delírio Secundário costuma ser mais fantástico e bizarro, predominando temas cenestésicos e do esquema corporal, podendo pensar que o seu cérebro sai de sua cabeça, o seu intestino foi substituído por uma cobra, a cabeça é feita de madeira. Aqui podem também desenvolver-se a micromania, as idéias niilistas.

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Delírio ou Delirium?

Existe muita confusão no uso destes dois termos: delírio x delirium. O primeiro é um sintoma observado principalmente nas esquizofrenias e o segundo é uma categoria diagnóstica da Classificação Internacional de Doenças, a CID-10 e do DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Psiquiátrica Americana- APA, 1994).

Por definição o conceito de delírio consiste em alteração do juízo de realidade, da capacidade de distinguir o falso do verdadeiro e implica em comprometimento da consciência.

Ou seja, para que se use o termo “delírio” Jaspers propõe que esta alteração do juízo não seja decorrente de uma perturbação da inteligência nem que seja secundário a um estado de consciência momentaneamente alterado.

Quando essa alteração de juízo é decorrente de um distúrbio da consciência, geralmente devido a alguma causa orgânica, chamamos, então, de “delirium”.

É compreensível esta confusão já que, além da semelhança entre os dois termos, também há um denominador comum que é a “atividade delirante do pensamento”. 

Essa atividade anormal do juízo crítico e do pensamento envolve modificações específicas da execução psíquica que atingem e comprometem à qualidade na produção das ideias. Isso dará origem a desordens da apreensão das relações significativas puras, que constituem, em última instância, a base do entendimento humano.

Em outras palavras, indivíduos acometidos tanto de delirium como de delírio têm alterações do pensamento (ato noético) no que se refere à compreensão do significado dos fatos. Estas alterações terminam por comprometer a interação do sujeito com o mundo e com outras pessoas.

Nos pacientes com delírio, principalmente o delírio primário visto na esquizofrenia, ocorre alteração do conteúdo do pensamento, mas não da memória e da atenção.

Quando há a alteração da orientação está se dá em decorrência do delírio, sendo mais frequente a “dupla orientação”. Assim o paciente informa corretamente o seu nome, idade, endereço, sabe a data e local onde está, mas, ao mesmo tempo, acredita ser “Jesus Cristo” e diz morar em “Jerusalém”.

Ocorre um distúrbio do juízo crítico não influenciado na sua lógica e coerência por qualquer outra experiência psicológica, não se deixa refutar pelo pensamento lógico.

Ao contrário dos pacientes com Delirium, os esquizofrênicos relatam uma transformação do mundo, no qual ocorrem novas significações. Em geral, ocorre uma fase inicial que chamamos de humor delirante, quando o paciente começa a perceber esta alteração em conceber o mundo.

No início da percepção do paciente de que algo não vai bem. Geralmente referem que “há qualquer coisa no ar”… “essa luz, essa claridade, positivamente não são comuns. Tudo agora está mudado”.

Assim, gradualmente vão surgindo novos significados. Para Jaspers, nos esquizofrênicos “não se destrói a crítica mas coloca-a apenas a serviço do delírio. O doente pensa, examina razões e contra-razões assim como o faria se fosse sadio”.

O mundo que os esquizofrênicos vivenciam sugere que toda realidade circundante passa a encher-se de significações ocultas, dantes inexistentes, abrangendo coisas, objetos, animais pessoas, um universo, enfim, de significações novas, que os doentes se esforçam em vão por aclarar.

Tudo em torno adquire sentido. Não há evento, por mais banal e rotineiro, que não encerre alguma intenção, que o paciente deseje ardentemente decifrar. Tudo quer dizer alguma coisa. Nada ocorre por acaso, tudo tem um significado.

Os pacientes com delirium, ou seja, aqueles portadores de algum transtorno mental orgânico, têm alteração da atenção, da memória e conseqüentemente da orientação. Eles parecem não compreender o que se passa a sua volta. Outra peculiaridade é a observada piora noturna e em qualquer situação que diminua o “input” sensorial, já que sua atenção está reduzida. Podem apresentar alterações da psicomotricidade principalmente agitação noturna, retirando equipos de soro, sondas vesicais ou tentando pegar pequenos animais onde não há nada (alucinose visual).

A característica essencial do Delirium consiste de uma perturbação da consciência, acompanhada por uma alteração na cognição, desde que não seja sinais de uma demência preexistente ou em evolução. O Delirium se desenvolve em um curto período de tempo, de horas a dias, tendendo a flutuar no decorrer do dia. É importante observar que os distúrbios cognitivos em questão são predominantemente do nível de consciência, o que diferencia, por exemplo das esquizofrenias em que há alteração isolada de conteúdo.

para referir:
Ballone GJ Ideias Deliroides – in. PsiqWeb, Internet, disponível emwww.psiqweb.med.br, revisto em 2019