O que são psicoses

Psicoses são distúrbios psiquiátricos graves onde o paciente perde contato com a realidade, emite juízos falsos sob a forma de delírios (falsas crenças), podendo ainda apresentar distúrbios da sensopercepção sob a forma de alucinações (percepções irreais na audição, visão, tato, gustação e olfato), distúrbios de atitudes podendo comprometer o convívio social, além de outras formas bizarras de comportamento.

O termo psicose tradicionalmente significa perda do contato pleno com a realidade e comprometimento do funcionamento mental global ou pontual, manifestando-se não apenas através dos delírios e alucinações, mas podendo chegar à confusão mental e comprometimento global da personalidade.

Na utilização psiquiátrica mais comum o termo “psicótico” pode significar também um comprometimento grave do funcionamento social e pessoal, caracterizado por retraimento social e incapacidade para desempenhar as tarefas e papéis habituais.

De acordo com o glossário da Associação Norte-Americana de Psiquiatria, o termo psicótico refere-se a “um amplo comprometimento do teste da realidade. Pode ser utilizado para descrever o comportamento de um indivíduo em um determinado momento ou um transtorno mental no qual, em algum momento do seu curso, todos os indivíduos com esse transtorno apresentarão prejuízo no teste da realidade“.

De acordo com o dicionário médico para leigos, editado na internet pelo Hospital das Clínicas da FMUSP, o prof. Hélio Elkis diz o seguinte:
“… este conceito (de psicoses) prevaleceu na psiquiatria até a década de 60, em que os transtornos mentais eram distribuídos em dois grandes grupos: psicoses e neuroses. As psicoses eram consideradas doenças mentais mais graves, cujas causas seriam orgânicas ou funcionais e as neuroses eram consideradas menos grave e originadas a partir de conflitos emocionais e traumas psicológicos“.Claro que essa visão da década de 60 era falha e incompleta.

Hoje conceitua-se psicose pelas características dos sintomas. Um destes sintomas são os delírios, que são crenças errôneas não fundamentadas em evidências, como por exemplo considerar-se um messias, enviado de Deus,  ou um perseguido por alienígenas, vítimas de complôs… Outro sintoma também proeminente são as alucinações, que se constituem em percepções também não fundamentadas em evidências, como por exemplo, escutar vozes provenientes de transmissores implantados em sua cabeça, ver demônios ou outros objetos inexistentes mas percebidos com muita realidade.

O termo Psicose (e sintomas psicóticos) é empregado para se referir à perda do juízo da realidade e um comprometimento do funcionamento mental, social e pessoal, normalmente levando a um prejuízo no desempenho das tarefas e papéis habituais.

As Psicoses podem ter várias origens: por lesões cerebrais, tumores cerebrais, tóxicos, álcool, infecções, traumas emocionais etc. Na psiquiatria a patologia que melhor e mais frequentemente representa as psicoses é a esquizofrenia. Algumas Psicose são incuráveis, outras apresentam cura completa. Quase sempre as psicoses requerem tratamento à base de medicamentos psicotrópicos e nem sempre é necessária a internação, como pode se pensar. Nas Psicoses agudas, as psicoterapias são muito pouco indicadas.

Na classificação do DSM-5 (Associação Norte-americana de Psiquiatria) o tema psicoses é referido como Transtornos do Espectro da Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos, dentro dos quais se incluem o Transtorno Delirante (Persistente), Transtorno Psicótico Breve, Transtorno Esquizofreniforme, Esquizofrenia, Transtorno Esquizoafetivo, Transtorno Psicótico Induzido por Substância/Medicamento e o Transtorno Psicótico Devido a Outra Condição Médica

Na CID (Organização Mundial de Saúde) os Transtornos Psicóticos são classificados como Esquizofrenia, Transtornos Esquizotípicos e Transtornos Delirantes. Os transtornos esquizoafetivos foram mantidos nesta seção, ainda que sua natureza permaneça controversa.

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Alucinação
Alucinação é a percepção real de um objeto inexistente, ou seja, são percepções sem um estímulo externo. Dizemos que a percepção é real, tendo em vista a convicção inabalável que a pessoa manifesta em relação ao objeto alucinado, portanto, será real para a pessoa que está alucinando.

Sendo a percepção da Alucinação de origem interna, emancipada de todas variáveis que podem acompanhar os estímulos ambientais (iluminação, acuidade sensorial, etc.), um objeto alucinado muitas vezes é percebido mais nitidamente que os objetos reais de fato.

Tudo que pode ser percebido pode também ser alucinado e isso ocorre, imaginativamente, com maior liberdade de associações de formas e objetos. As alucinações podem manifestar-se também através de qualquer um dos cinco sentidos, sendo as mais frequentes as auditivas e visuais.

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Delírio
Uma descrição fácil do delírio seria: o delírio é uma convicção errônea não-corrigível. Mas, seria preciso lembrar que nem toda convicção errônea não-corrigível é um delírio.Caso essa convicção se relacione com falta de cultura ou erudição, com a falta de conhecimentos ou de inteligência, então não será um delírio. Seria mais uma ignorância.

Tampouco será delírio aquelas representações errôneas que se originam de sentimentos compreensíveis. Se o amante, por exemplo, está convicto da perfeição da amada imperfeita não se trata de ideias delirantes. As convicções filosóficas ou religiosas também não são delírios, mesmo que muitas pessoas as considerem errôneas, elas devem ser classificadas como ideias supervalorizadas, as quais fazem parte da psiquiatria transcultural .

Jaspers define o Delírio com sendo um juízo patologicamente falseado e que deve, obrigatoriamente, apresentar três características:
1. Uma convicção subjetivamente irremovível e uma crença absolutamente inabalável com impossibilidade de sujeitar-se às influências de correções quaisquer, seja através da experiência ou da argumentação lógica;
2. Um pensamento de conteúdo impenetrável e incompreensível psicologicamente para o indivíduo normal e;
3. Uma representação vivencial sem conteúdo de realidade que não se reduz à análise dos acontecimentos vivenciais.

Modelos de Reflexão sobre a Doença Mental
Sempre foram várias as tendências de reflexão sobre a Doença Mental, notadamente sobre as Psicoses que, embora provenientes de diversos momentos históricos do pensamento psicológico, estimulam bastante as discussões sobre o tema.

Existe o modelo Sociogênico, no qual a sociedade, complexa e exigente seria a responsável exclusiva pelo enlouquecimento humano. Tem ainda o modelo Organogênico, diametralmente oposto ao anterior, onde os elementos orgânicos da função cerebral seriam os responsáveis absolutos pela Doença Mental.

Outra visão, o modelo Psicogênico, considera a dinâmica psíquica responsável pela doença e subestimam-se as disposições constitucionais. Há ainda o modelo Organodinâmico que compatibiliza os três conceitos anteriores, onde participariam requisitos biológicos, motivos psicológicos e determinantes sociais. Na realidade esse modelo é mais conhecido como Bio-Psico-Social.

Tem sido quase unanimemente aceita na psiquiatria clínica a associação entre determinadas configurações de personalidade vulneráveis e a eclosão de psicoses. Estas personalidades propícias são as chamadas Personalidades Pré-mórbidas, cujo conceito é abordado no capítulo sobre os Transtornos da Personalidade.o constituições que por si só transtornam a vida do indivíduo, incapacitam um desenvolvimento pleno ou, ainda, em determinadas circunstâncias, conferem uma maior aptidão para o desenvolvimento de determinadas doenças psíquicas.

A Personalidade Pré-mórbida, geralmente classificada como Transtorno Esquizóide de Personalidade e Transtorno Paranóide de Personalidade é considerada pela psicopatologia como uma variação do existir humano e traduz uma certa vulnerabilidade psíquica ou uma possibilidade mais acentuada para o desenvolvimento da psicose. Aqui o termo “possibilidade” deve ser considerado em toda sua plenitude, ou seja, como um caráter não-obrigatório mas que deve ser levado a sério.

Entre psicoses e neuroses pode-se dizer, clinicamente e grosso modo, que as neuroses diferenciam-se das psicoses pelo grau de envolvimento da personalidade, sendo sua desorganização e desagregação muito mais pronunciadas nas psicoses. O vínculo com a realidade é muito mais tênue e frágil nas psicoses que nas neuroses, nestas a realidade não é negada, mas sim vivida de maneira mais sofrível, valorizada e percebida de acordo com as lentes da afetividade e de acordo com as exigências conflituais. Já nas psicoses, alguns aspectos da realidade são negados e substituídos por concepções particulares e peculiares que atendem unicamente às características da doença.

A sintomatologia psicótica caracteriza-se, principalmente, pelas alterações a nível do pensamento e da sensopercepção. Consequentemente todo comportamento e todo desempenho existencial serão comprometidos. Na psicose o pensamento e a sensopercepção se apresentam qualitativamente alterados, tal como uma novidade cronologicamente delimitada na história de vida do paciente e que passa a atuar morbidamente em todo seu desempenho psíquico.

Essa alteração dá ao paciente uma maneira patológica de representar a realidade, de elaborar conceitos e de relacionar-se com o mundo objectual. Não contam tanto aqui as variações quantitativas de apercepção do real, como pode ocorrer na depressão, por exemplo, mas um algo novo e qualitativamente distinto de todas nuances aceitáveis, trata-se de algo essencialmente patológico, mórbido e sofrível.

Psicose Esquizofrênica ou Esquizofrenia
A Esquizofrenia é citada nessa página porque é a representante mais habitual e tradicional das psicoses. Trata-se, a Esquizofrenia, de uma doença da personalidade total que afeta a zona central do eu e altera toda estrutura vivencial. Culturalmente o esquizofrênico representa o estereotipo do “louco”, um indivíduo que produz grande estranheza social devido ao seu desprezo para com a realidade reconhecida. Agindo como alguém que rompeu as amarras da concordância cultural, o esquizofrênico menospreza a razão e perde a liberdade de escapar às suas fantasias.

Segundo Kaplan, aproximadamente 1% da população é acometido pela doença, geralmente iniciada antes dos 25 anos e sem predileção por qualquer camada sociocultural. O diagnóstico baseia-se exclusivamente na história psiquiátrica e no exame do estado mental. É extremamente raro o aparecimento de Esquizofrenia antes dos 10 ou depois dos 50 anos de idade e parece não haver nenhuma diferença na prevalência entre homens e mulheres.

Esquirol (1772-1840) considerava a loucura como sendo a somatória de dois elementos: uma causa predisponente, atrelada à personalidade, e uma causa excitante, fornecida pelo ambiente. Hoje em dia, depois de séculos de reflexão e pesquisas, a psiquiatria moderna reafirma a mesma coisa com palavras atualizadas. O principal modelo para a integração dos fatores etiológicos da Esquizofrenia é o modelo estresse-diátese, o qual supõe que o indivíduo seja possuidor de uma vulnerabilidade específica e colocada sob a influência de fatores ambientais estressantes (causa excitante). Em determinadas circunstâncias o binômio diátese-estresse proporcionaria condições para o desenvolvimento da Esquizofrenia. Até que um fator etiológico para a doença seja absolutamente identificado, este modelo parece satisfazer as teorias mais aceitas sobre o assunto.

Os sintomas característicos da Esquizofrenia podem ser agrupados, genericamente, em 2 tipos: positivos e negativos. Os sintomas positivos são os mais floridos e exuberantes, tais como as alucinações (mais frequentemente auditivas e visuais e, menos frequentes as táteis, e olfativas), os delírios (persecutórios, de grandeza, de ciúmes, somáticos, místicos, fantásticos, autorreferente), perturbações da forma e do curso do pensamento (como incoerência, prolixidade, desagregação), comportamento desorganizado, bizarro, agitação psicomotora e mesmo negligência dos cuidados pessoais.

Os sintomas negativos são, geralmente, de déficits, ou seja, a pobreza do conteúdo do pensamento e da fala, embotamento ou rigidez afetiva, prejuízo do pragmatismo, incapacidade de sentir emoções, incapacidade de sentir prazer, isolamento social, diminuição de iniciativa e diminuição da vontade.

Alguns sintomas, embora não sejam específicos da Esquizofrenia, são de grande valor para o diagnóstico. Seriam:
1- audição dos próprios pensamentos (sob a forma de vozes)
2- alucinações auditivas que comentam o comportamento do paciente
3- alucinações somáticas
4- sensação de ter os próprios pensamentos controlados
5- irradiação destes pensamentos
6- sensação de ter as ações controladas e influenciadas por alguma coisa do exterior.
7- dar significado especial a algum evento corriqueiro (PERCEPÇÂO DELIRANTE)

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Há um apelo cultural segundo o qual  pessoas as com psicoses têm que ser internadas, obrigatoriamente, o site Open The Doors diz o seguinte sobre isso:

Estudos recentes mostraram que várias alternativas, desde a assistência psiquiátrica hospitalar até alternativas inovadoras, como o programa de tratamento agudo residencial, para apoiar a convivência na sociedade, podem ser efetivas no tratamento de pessoas com esquizofrenia…

…. Em geral, quando programas de internação e programas ambulatoriais são comparados, as pessoas com programas ambulatoriais (tratadas fora o hospital) mostram resultados superiores por períodos mais longos de tempo do que pessoas hospitalizadas.

Mesmo as pessoas agudamente psicóticas podem ser tratadas efetivamente em centros que não internam. Aqui estão alguns componentes do tratamento ambulatorial:
1.- Medicamentos para aliviar os sintomas e prevenir recaídas;
2.- Educação para ajudar os pacientes e seus familiares a solucionar problemas, lidar com o estresse, e enfrentar a doença e suas complicações;
3.- Reabilitação social para ajudar os pacientes a se reintegrarem na comunidade recuperando sua atividade educacional ou ocupacional

para referir:
Ballone GJ O que são psicoses – in. PsiqWeb, Internet, disponível emwww.psiqweb.med.br, revisto em 2017