Transtorno Delirante

No Transtorno Delirante, apesar dos Delírios, há uma curiosa manutenção da clareza e da ordem do pensamento, da vontade e da ação.É como se tratasse de uma ilha de loucura em um mar de normalidade.

Transtorno Delirante

O Transtorno Delirante, ou Psicose Delirante Crônica, sinônimo também do Transtornos Delirante Persistente, já foi chamada de Paranóia, muito apropriadamente. De acordo com Kraepelin, a Paranóia era uma entidade clínica caracterizada essencialmente pelo desenvolvimento insidioso de um sistema delirante duradouro e inabalável.  Entretanto, curiosamente, apesar dos Delírios há manutenção da clareza e da ordem do pensamento, da vontade e da ação. É como se tratasse de uma ilha de loucura em um mar de normalidade.

Ao contrário dos esquizofrênicos e doentes cerebrais, onde as ideias delirantes podem ser um tanto desconexas, no Transtorno Delirante as ideias se unem em um determinado contexto lógico para formar um sistema delirante rigidamente estruturado e organizado. Assim, a característica essencial do Transtorno Delirante é a presença de um ou mais delírios não-bizarros que persistem por bastante tempo. Para o diagnóstico é muito importante que o delírio do Transtorno Delirante não seja bizarro, nem seja desorganizado, isto é, ele deve ter seu tema e script bem organizados e compreensível ao ouvinte, embora continue se tratando de uma crença falsa e absurda.

As alucinações não são proeminentes e nem habituais, embora possam existir concomitantemente. Quando existem, a alucinações táteis ou olfativas costumam ser mais frequentes que as visuais e auditivas.

Normalmente o funcionamento social desses pacientes Paranóicos não está prejudicado, apesar da existência do Delírio. A maioria dos pacientes pode parecer normais em seus papéis interpessoais e ocupacionais, entretanto, em alguns pode haver algum prejuízo ocupacional e incluir certo isolamento social. Como foi dito, a impressão que se tem é a de uma ilha de delírio num mar de sanidade, portanto, uma espécie de delírio insular.

Um paciente, por exemplo, convencido de que será assassinado por perseguidores implacáveis, pode desenvolver isolamento social e abandonar o emprego. Às vezes, quando o funcionamentos social é comprometido, também o relacionamento conjugal pode sofrer prejuízos. Na Esquizofrenia o comprometimento social mais acentuado costuma ser a regra, aqui será a exceção.

Os delírios do Transtorno Delirante normalmente são interpretativos, egocêntricos, sistematizados e coerentes. Pode ser de prejuízo, de perseguição ou de grandeza, impregnado ou não de tonalidade erótica ou com ideias de invenção ou de reforma. Também é frequente o delírio de ciúme, onde o delirante está sempre se deparando com provas “contundentes” acerca dos muitos relacionamentos sexuais de seus pares.

Apesar de constar nos critérios que a presença de um ou mais delírios persistente devem durar pelo menos um mês no Transtorno Delirante, na prática, entretanto, é muito raro um delírio nesse transtorno que dure apenas esse tempo. Normalmente dura muitos anos.

Quando o quadro clínico satisfaz critérios para diagnóstico da Esquizofrenia não será feito o diagnóstico de Transtorno Delirante. Neste transtorno o impacto dos delírios e seus prejuízos no funcionamento psicossocial podem estar circunscritos ao tema delirado e, consequentemente, o comportamento geral não é claramente bizarro ou esquisito, diferentemente que os prejuízos e comportamentos encontrados em outros transtornos psicóticos como a esquizofrenia, por exemplo,.

Para diagnóstico do Transtorno Delirante os delírios não podem ser atribuídos aos efeitos de uma substância, como por exemplo, cocaína ou a alguma outra condição médica, como é o caso da Doença de Alzheimer, por exemplo. Outras patologias mentais capazes de excluir o diagnóstico de Transtorno Delirante é o Transtorno Dismórfico Corporal e o Transtorno obsessivo-compulsivo.

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Tal como acontece com muitos outros transtornos psicóticos, a causa exata do transtorno delirante ainda não é conhecida.

Genética: O fato de transtorno delirante ser mais comum em pessoas que têm familiares com transtorno delirante ou esquizofrenia sugere que pode haver um fator genético envolvido.

Biológicos: Os pesquisadores estão estudando certas áreas do cérebro que controlam a percepção e pensamento e que envolvidas no desenvolvimento de transtornos delirantes.

Ambiental / psicológica: Evidências sugerem que o transtorno delirante pode ser desencadeado por estresse, álcool e abuso de drogas.

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Tipos de psicoses Delirantes Persistentes

 1 – Tipo Erotomaníaco
Neste caso o delírio habitualmente se refere ao amor romântico idealizado e a união espiritual, mais do que a atração sexual. Acreditam, frequentemente, ser amados por pessoa do sexo oposto que ocupa uma posição de superioridade (ídolos, artistas, autoridades, etc.) mas, pode também ser uma pessoa normal e estranha. Tentativas de contato com o objeto do delírio são comuns e muitas vezes responsáveis por desconfortos policiais.

 2 – Tipo Grandeza
Neste subtipo de Transtorno Delirante a pessoa está convencida, pelo seu delírio, possuir algum grau de parentesco ou ligação com personalidades importantes ou, quando não, possuir algum grande talento especial, alguma descoberta importante ou algum dom magistral. Outras vezes acha-se possuidor de grande fortuna. A pessoa pode ter o delírio de manter uma relação especial com alguém renomado ou de ser uma pessoa famosa ou ainda ter conteúdo religioso.

 3 – Tipo Ciúme
Neste tipo de paranoia a pessoa está convencida, sem motivo justo ou evidente, da infidelidade de seu par. Pequenos pedaços de “evidência”, como roupas desarranjadas ou manchas nos lençóis podem ser coletados e utilizados para justificar o delírio. O paciente pode tomar medidas extremas para evitar que o companheiro(a) proporcione a infidelidade imaginada, como por exemplo, exigindo uma permanência no lar de forma tirana ou obrigando que nunca saia de casa desacompanhado(a).

 4 – Tipo Persecutório
É o tipo mais comum entre os paranoicos ou delirantes crônicos. O delírio costuma envolver a crença de estar sendo vítima de conspiração, traição, espionagem, perseguição, envenenamento ou intoxicação com drogas ou estar sendo alvo de comentários maliciosos. Pessoas com delírios persecutórios costumam ser ressentidas e enraivecidas, podendo até recorrer à violência contra aqueles que, em seu delírio, lhe causam danos.

 5 – Tipo Somático (Parafrenia)
A Formação Delirante do Tipo Somático, como justifica o nome, caracteriza-se pela ocorrência de variadas formas de delírios somático e, neste caso, com maiores possibilidades de alucinações que outros tipos de paranoia. Os mais comuns dizem respeito à convicção de que a pessoa emite odores fétidos de sua pele, boca, reto ou vagina, de que a pessoa está infestada por insetos na pele ou dentro dela, esdrúxulos parasitas internos, deformações de certas partes do corpo ou órgãos que não funcionam.

Dificuldades de adaptação social

Algumas vezes problemas sociais, conjugais ou profissionais podem ser consequências de falsas crenças ou Transtorno Delirante. Pessoas com Transtorno Delirante podem ser capazes de descrever, de forma lamentosa, que outras pessoas veem suas crenças como irracionais, fantasiosas e mentirosas, mas por outro lado, elas são incapazes de aceitar as eventuais correções.

Alguns pacientes com Transtorno Delirante desenvolvem humor irritável compreendido como uma reação às suas crenças delirantes. Raiva e comportamento violento podem ocorrer com os tipos de delírio persecutório, ciumento e erotomaníaco. A pessoa pode se envolver em comportamento litigioso, hostil e bastante inadequado, como por exemplo, o envio de centenas de cartas de protesto ao governo, ministros, artistas. Podem ocorrer dificuldades legais especialmente nos tipos ciumento e erotomaníaco.

O prejuízo funcional no Transtorno Delirante costuma ser mais circunscrito ao tema do delírio do que o prejuízo encontrado em outros transtornos psicóticos. Quando está presente um funcionamento psicossocial insatisfatório, as próprias crenças delirantes costumam ter papel importante neste prejuízo. Uma característica comum dos indivíduos com Transtorno Delirante é a aparente normalidade de seu comportamento e aparência quando não estão sendo discutidas ou acionadas suas ideias delirantes.

A prevalência do Transtorno Delirante felizmente é baixa (estimada em 0,2% ao longo da vida) e o subtipo mais frequente é o persecutório, fato que justifica o nome de Paranoia para esse transtorno. O Transtorno Delirante do tipo ciumento é provavelmente mais comum em indivíduos do sexo masculino do que nos do feminino, embora não haja grandes diferenças de gênero na frequência geral do transtorno delirante.

Em média, a função global do paciente com Transtorno Delirante é melhor que a observada na Esquizofrenia. Embora o diagnóstico costume ser estável na maioria dos casos, algumas pessoas podem desenvolver Esquizofrenia. O transtorno delirante tem uma relação familiar significativa com a Esquizofrenia e com o transtorno da personalidade esquizotípica. Embora possa ocorrer em grupos mais jovens, o Transtorno Delirante é mais prevalente em indivíduos mais velhos. Antecedentes culturais e religiosos individuais fortes e marcantes devem ser levados em consideração na avaliação de possível presença de Transtorno Delirante. O conteúdo dos delírios também varia conforme os contextos culturais.

Critérios Diagnósticos para Transtorno Delirante
A. A presença de um delírio (ou mais) com duração de um mês ou mais.
B. O Critério A para esquizofrenia jamais foi atendido.
Nota: Alucinações, quando presentes, não são proeminentes e têm relação com o tema do delírio (p. ex., a sensação de estar infestado de insetos associada a delírios de infestação).
C. Exceto pelo impacto do(s) delírio(s) ou de seus desdobramentos, o funcionamento não está acentuadamente prejudicado, e o comportamento não é claramente bizarro ou esquisito.
D. Se episódios maníacos ou depressivos ocorreram, eles foram breves em comparação com a duração dos períodos delirantes.
E. A perturbação não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou a outra condição médica, não sendo mais bem explicada por outro transtorno mental, como transtorno dismórfico corporal ou transtorno obsessivo-compulsivo.
Determinar o suptipo:
Tipo erotomaníaco: Esse subtipo aplica-se quando o tema central do delírio é o de que outra pessoa está apaixonada pelo indivíduo.
Tipo grandioso: Esse subtipo aplica-se quando o tema central do delírio é a convicção de ter algum grande talento (embora não reconhecido), insight ou ter feito uma descoberta importante. Tipo ciumento: Esse subtipo aplica-se quando o tema central do delírio do indivíduo é o de que o cônjuge ou parceiro é infiel.
Tipo persecutório: Esse subtipo aplica-se quando o tema central do delírio envolve a crença de que o próprio indivíduo está sendo vítima de conspiração, enganado, espionado, perseguido, envenenado ou drogado, difamado maliciosamente, assediado ou obstruído na busca de objetivos de longo prazo.
Tipo somático: Esse subtipo aplica-se quando o tema central do delírio envolve funções ou sensações corporais.
Tipo misto: Esse subtipo aplica-se quando não há um tema delirante predominante.
Tipo não especificado: Esse subtipo aplica-se quando a crença delirante dominante não pode ser determinada com clareza ou não está descrita nos tipos específicos (p. ex., delírios referenciais sem um componente persecutório ou grandioso proeminente).
Especificar se:
Com conteúdo bizarro: Os delírios são considerados bizarros se são claramente implausíveis, incompreensíveis e não originados de experiências comuns da vida (p. ex., a crença de um indivíduo de que um estranho retirou seus órgãos internos, substituindo-os pelos de outro sem deixar feridas ou cicatrizes).
Especificar se:
Os especificadores de curso a seguir devem ser usados somente após um ano de duração do transtorno:
Primeiro episódio, atualmente em episódio agudo: Primeira manifestação do transtorno preen-chendo os sintomas diagnósticos definidores e o critério de tempo. Um episódio agudo é um período de tempo em que são satisfeitos os critérios de sintomas.
Primeiro episódio, atualmente em remissão parcial: Remissão parcial é o período de tempo durante o qual uma melhora após um episódio prévio é mantida e em que os critérios definidores do transtorno estão preenchidos apenas parcialmente.
Primeiro episódio, atualmente em remissão completa: Remissão completa é um período de tem-po após episódio prévio durante o qual não estão presentes sintomas específicos do transtorno. Episódios múltiplos, atualmente em episódio agudo Episódios múltiplos, atualmente em remissão parcial Episódios múltiplos, atualmente em remissão completa
Contínuo: Os sintomas que satisfazem os critérios para o diagnóstico do transtorno persistem durante a maior parte do curso da doença, com períodos de sintomas abaixo do limiar muito breves em relação ao curso geral.

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para referir:
Ballone GJ Transtorno Delirante – in. PsiqWeb, Internet, disponível emwww.psiqweb.med.br, revisto em 2017