Aparelho Digestivo e Emoções

É raro encontrar uma pessoa que não tenha problemas com o intestino. Ou é preso demais, ou seu funcionamento é imprevisível, cólicas, etc. A maioria das queixas vem das mulheres. Em alguns casos esses problemas são físicos, em outros decorre de fatores psicológicos e emocionais.

Muitas pessoas queixam-se de problemas intestinais, como cólicas, gases que provocam distensão do abdômen, crises alternadas de prisão de ventre e diarreia, sensação de que o intestino não foi esvaziado completamente com a evacuação. Esses sintomas são comuns a muitas doenças intestinais. Entre os vários fatores capazes de interferir na saúde digestiva as emoções têm participação destacada. Embora alguns autores insistam em negar totalmente essa influência, ela existe e os próprios pacientes reconhecem essa importância.

Cólon Irritável

Uma das patologias intestinais com influência emocional é a síndrome do Intestino Irritável ou Cólon Irritável, um distúrbio funcional sem causa anatômica nem lesões que o justifiquem. O Intestino Irritável é um quadro funcional e, ao contrário das doenças orgânicas, não apresenta lesões nem inflamação, por isso não pode ser chamada de colite. O diagnóstico do Intestino Irritável ou Cólon Irritável é de fundamental importância para excluir a possibilidade de moléstias mais graves, como a Doença de Crohn ou a Retocolite Ulcerativa.

No passado, a síndrome do intestino irritável era atribuída apenas a alterações emocionais. Hoje sabe-se que as emoções influenciam o funcionamento intestinal, mas além dos elementos emocionais o intestino tem uma fisiologia própria e característica, com enervação própria e hormônios que regulam sua capacidade de excretar.  O problema do Cólon Irritável está fisiologicamente relacionado com ondas peristálticas anormais e uma falta de coordenação motora acomete o cólon e outras partes do tubo digestivo.

A coordenação motora do intestino é absolutamente necessária para, através do peristaltismo, fazer o bolo fecal progredir. Essa atividade motora intestinal depende não só de estruturas anatômicas (músculos, mucosas, etc.), mas de mediadores químicos que vão agir nas fibras musculares provocando contrações e relaxamentos. Esses mediadores são semelhantes aos liberados pelo sistema nervoso central, a ponto do intestino ser considerado um segundo cérebro.

A região do hipotálamo no cérebro, entre muitas outras funções, é responsável pelo impulso das emoções e tem ligação direta com o sistema nervoso autônomo simpático e parassimpático. Sabe-se que o o nervo vago é principal nervo do sistema parassimpático e enerva todo o tubo digestivo. Ele estimula a secreção de ácido pelo estômago, de enzimas digestivos, outros fatores digestivos e coordena a movimentação do intestino.

Descobriu-se também que existem hormônios e receptores para esses hormônios localizados no tubo digestivo similares àqueles encontrados no sistema nervoso central e que são chamados de encefalinas, por analogia a encéfalo (cérebro). Tudo isso permite afirmar que existe relação direta entre a emoção integrada no hipotálamo e a motilidade do intestino. Portanto, admite-se atualmente que pessoas com Intestino Irritável apresentam, de forma congênita ou adquirida, uma maior susceptibilidade para desenvolver alterações intestinais motoras diante de vários estímulos fisiológicos e/ou emocionais.

Índice de Psicossomática

O movimento peristáltico caracteriza-se por um conjunto de contrações musculares dos intestinos com a finalidade fazer o bolo fecal  avançar para que seja expelido.

No Cólon Irritável essa coordenação está defeituosa e não promove o movimento propulsivo adequado. O intestino assim “descontrolado” realiza um grande esforço para eliminar as fezes dentro dele acarretando grande pressão em suas paredes e provoca, além de dor, prisão de ventre e, depois de algum tempo evacuações de fezes fragmentadas, muitas vezes amolecidas, de calibre pequeno pela contração excessiva, assim como alternância das crises de prisão de ventre e diarreia.

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A diferença principal entre a Colite Ulcerativa e a Doença de Crohn é que enquanto a Colite Ulcerativa afeta apenas o intestino grosso (cólon), a Doença de Crohn pode acometer qualquer parte do trato gastrointestinal, incluindo o intestino fino. Em 30% dos pacientes com Doença de Crohn, o íleo está envolvido, em 40%, a região ileocecal ou ileocolônica direita está envolvida.
Outra diferença é que a Colite Ulcerativa acomete apenas a camada mais interna do cólon.

Essas duas doenças são mais comuns em brancos que em negros e orientais e a maior incidência (3 a 6 vezes mais) é em judeus em comparação a não judeus. Os dois sexos são igualmente afetados.

O maior pico da ocorrência de ambas as doenças está entre os 15 e os 35 anos de idade, apesar disso, elas têm sido relatadas em qualquer idade.

Doenças Inflamatórias Intestinais

 Doença Inflamatória Intestinal ou Doença Inflamatória Intestinal Crônica é um termo geral para um grupo de doenças inflamatórias crônicas de causa desconhecida envolvendo o trato gastrintestinal. As Doenças Inflamatórias Intestinais podem ser divididas em dois grupos principais, a Colite Ulcerativa e a Doença de Crohn.

É muito importantíssimo diferenciar a Síndrome do Intestino Irritável, visto acima, de uma doença orgânica, como por exemplo a Doença Inflamatória Intestinal. Caso esse esclarecimento de diagnóstico não seja feito, pode-se passar por cima de problemas mais sérios e graves.

O diagnóstico da Síndrome do Intestino Irritável leva em conta os sintomas e é feito por exclusão. Se o paciente tem menos de 50 anos, fez exames de atividade inflamatória, exames de sangue que não revelaram perda de ferro e/ou anemia, exame de fezes para detectar se o sangue oculto, se não existir histórico familiar de outras doenças intestinais, pode-se pensar em intestino irritável. Se não houver melhora deve realizar a colonoscopia.

Retocolite Ulcerativa

A Colite ou Retocolite Ulcerativa é uma doença inflamatória crônica do intestino, porém, restringindo-se ao cólon ou intestino grosso. Quando o paciente está em crise a mucosa intestinal torna-se maciçamente inflamada e é acometida por micro-úlceras. As lesões (micro úlceras) da Retocolite Ulcerativa se confinam predominantemente no reto e cólons e, com rara exceção, pode comprometer o íleo (intestino fino) em sua porção terminal. Quando a Retocolite Ulcerativa está confinada apenas ao reto e sigmoide será de melhor prognóstico do que os casos onde o comprometimento é mais amplo e abrangente.

Sintomas
No que diz respeito aos progressos efetuados no campo do diagnóstico e da evolução clínica da Retocolite Ulcerativa, os mais importantes sintomas para o diagnóstico são:

– Diarréia (mais de 6 evacuações por dia),
– Sangue e muco nas fezes,
– Presença de úlceras,
– Alterações inflamatórias contínuas e sangramento de contato ao exame endoscópico.

– Cólicas abdominais,
– Perda de peso,
– Febres.

Há estudos envolvendo 3.117 pacientes com Retocolite Ulcerativa sugerindo aumento de 15 vezes no risco de desenvolver câncer entre pacientes que apresentavam pancolite (inflamação em todo intestino) e apenas 2,8 vezes de chance nos que tinham comprometimento apenas do cólon esquerdo.

Na busca das causas para a Retocolite Ulcerativa várias hipóteses têm sido levantadas. As alterações imunológicas têm sido reconhecidas fortemente como uma das causas da Retocolite Ulcerativa, paralelamente à associação entre esta doença e outras patologias imunológicas, como é o caso, por exemplo, da Espondilite Anquilosante.

Parece não haver dúvidas de que algum distúrbio da imunidade pode ser observado no paciente com Retocolite Ulcerativa, alterações demonstráveis em exames de laboratório, como por exemplo, a síntese e secreção de imunoglobulinas, especialmente a IgA.

Esse tipo de anormalidade tem sido também estabelecido em outras moléstias, como o próprio câncer e a doença celíaca, sugerindo às vezes a possibilidade de que os distúrbios imunológicos seriam mais secundários ao prejuízo orgânico global causado pela Retocolite Ulcerativa do que, definitivamente, a causa dela.

Outras investigações interessantes sobre as causas da Retocolite Ulcerativa são aquelas relativas ao papel dos distúrbios emocionais como possível causa primária ou, mais provavelmente, como um fator secundário agravante.

Os fatores causais de origem psicológica foram destacados no final da década de 40, porém, alguns argumentos podem ser apresentados a favor de elementos psicossomáticos na gênese desta doença intestinal inflamatória: em 75% dos casos de Retocolite Ulcerativa pode-se identificar algum tipo de estresse; a morte devido a Retocolite Ulcerativa foi documentada em macacos em cativeiro, normalmente devido à separação do companheiro.

O estresse é, de fato, desencadeador dos ataques de Retocolite Ulcerativa mas, atrapalhando as investigações, observa-se que tais ataques ocorrem, também, em situações onde não se detecta o estresse. Inversamente, em outras ocasiões, há fortes componentes emocionais sem que desencadeie um ataque da doença.

Tem sido quase consensual que os fatores emocionais devem ser vistos como fortes contribuidores e precipitadores da melhor ou da pior fase da doença, mesmo que não possam ser considerados agentes diretamente causadores.

Por outro lado, não parece haver uma estrutura psíquica particular, em termos de personalidade, perfil emocional ou afetivo diferenciando os pacientes que são portadores de doença intestinal inflamatória da população geral. Os pacientes com Retocolite Ulcerativa não têm frequência maior de diagnostico de doenças psiquiátricas que o restante da população e, quando existe algum diagnóstico, eles estão em nível semelhante ao observado nos demais pacientes portadores do outras doenças crônicas.

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Quando a ansiedade serve para a pessoa adaptar-se a alguma situação nova, para lidar com algum perigo, ela está tendo uma função positiva. Na vida moderna, entretanto, a ansiedade pode surgir fora de propósito, desproporcional e dirigida para o objetivos abstratos. Repetidos momentos de ansiedade desproporcional indicam altos níveis de estresse e podem resultar em transtornos psicossomáticos.

A pessoa cuja tensão continuada acaba por causar-lhe problemas digestivos é um exemplo típico de como a ansiedade e o estresse exacerbam problemas clínicos orgânicos. Entre tantos órgãos e sistemas ansiedade pode levar à ulceração do trato gastrintestinal e provocar sintomas como as Doenças Inflamatórias Intestinais. Ainda que a tônica das pesquisas apontem para um envolvimento imunológico nessas doenças, há fortes indícios do impacto das emoções sobre várias doenças infecciosas.

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A Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa podem interferir com o desenvolvimento. Como estas doenças costumam aparecer na adolescência, os prejuízos no crescimento podem ser marcantes. Ocasionalmente, um atraso no crescimento é um dos únicos sinais da Doença de Crohn e pode surgir meses antes que se faça o diagnóstico concreto da doença. Controlando-se a inflamação e a alimentação voltando ao normal, o crescimento deverá recomeçar.

Para o diagnóstico da Doença de Crohn são necessários um exame físico minucioso e uma série de testes. Podem ser feitos exames no sangue para pesquisa de anemia, e exames de fezes para detectar sangramento intestinal.

Os exames do sangue também poderiam descobrir uma contagem de leucócitos alta como um sinal de inflamação. Podem ser pedidas radiografias gastrintestinais. Também deve ser feita uma colonoscopia para ver qualquer inflamação ou sangramento e, durante o exame, faz-se biópsia da mucosa intestinal.

Os fatores psicológicos concorrem para a doença: em 75% dos casos de Retocolite Ulcerativa existe algum tipo de estresse. 

Doenças de Crohn

A Doença de Crohn é uma doença crônica que causa inflamação do intestino delgado, geralmente da parte inferior do intestino delgado, chamado íleo. Não obstante a Doença de Crohn pode afetar qualquer parte do trato digestivo, da boca ao ânus. A Doença de Crohn também pode ser chamada ileíte ou enterite.

A inflamação pode causar dor e levar a evacuações frequentes, resultando em diarréia. Seu diagnóstico pode ser difícil porque os sintomas são semelhantes aos de outros distúrbios intestinais, como por exemplo, a Síndrome do Cólon Irritável e a Retocolite Ulcerativa.

A Doença de Crohn afeta o sexo masculino e feminino em iguais proporções e parece ocorrer com certa predominância em algumas famílias e cerca de 20% das pessoas com a Doença de Crohn têm algum parente com alguma forma de Doença Intestinal Inflamatória, mais frequentemente um irmão ou irmã e, algumas vezes, um dos pais ou um filho.

Na Doença de Crohn também são muito frequentes os sintomas fora do trato digestivo. Estes sintomas incluem a artrite, febre, úlceras na boca e crescimento mais lento. A artrite se manifesta por edema, dor e rigidez das articulações, podendo ocorrer durante as crises intestinais ou mesmo fora delas. Aproximadamente 30% dos pacientes com Doença de Crohn e 5% dos pacientes com Retocolite Ulcerativa têm artrite. Os joelhos e tornozelos são as articulações mais envolvidas. O edema dura geralmente algumas semanas e desaparece sem deixar lesão permanente.

A febre é um sinal de inflamação e é comum durante uma exacerbação dos sintomas intestinais, aparecendo tanto na Doença de Crohn como na Retocolite Ulcerativa. A febre geralmente desaparece com o tratamento da inflamação intestinal, normalmente com antibióticos do tipo sulfa.

Pequenas ulcerações no interior da boca são outro sintoma de Doença de Crohn. Estas ulceras são semelhantes a aftas e aparecem durante a fase de crise aguda da inflamação no intestino. Desaparecem quando a inflamação no intestino é tratada.

A causa da Doença de Crohn ainda não é totalmente conhecida. Fatores ambientais, alimentares, genéticos, imunológicos, infecciosos e raciais têm sido exaustivamente investigados como possíveis causadores da patologia. Portanto, não se conhece a causa da Doença de Crohn e são muitas as teorias sobre o que poderia causá-la. Uma das teorias mais populares é a imunológica. De acordo com essa idéia, o sistema imunológico do organismo reagiria exageradamente a algum vírus ou bactéria, causando inflamação contínua do intestino.

Embora as pessoas com a Doença de Crohn tendam a ter anormalidades do sistema imunológico, tal como na Retocolite Ulcerativa, não se sabe se estas anormalidades são causa ou conseqüência da doença.

A influência da genética na Doença de Crohn é complexa. Uma das dificuldades é a constatação de que a vasta maioria dos filhos de pacientes com Doença de Crohn não desenvolve a doença. Em segundo lugar, 90% das pessoas com Doença de Crohn ou não têm parentes com a doença. Apesar disso, há fortes evidências da participação de elementos genéticos na Doença de Crohn, como por exemplo, as diferenças na frequência da doença entre vários grupos étnicos, incluindo aí os judeus. O risco para a Doença de Crohn diminui progressivamente em caucasianos não-judeus, em afro-americanos, hispânicos e asiáticos.

Na Retocolite Ulcerativa o risco para um parente em primeiro grau judeu é de 4,5%, contra 1,6% para um parente em primeiro grau não-judeu. O risco para a Doença de Crohn é de 7,8% contra 5,2%. Mas, provavelmente, será necessária a presença de muitos genes predisponentes num indivíduo para o desenvolvimento de Doença de Crohn.

Ballone GJ – Aparelho Digestivo e Emoções – in. PsiqWeb, Internet – disponível emwww.psiqweb.med.br, revisto em 2019

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