Esgotamento físico e emoções

Não há no organismo um sentimento sequer que não tenha uma correspondência orgânica. Aqui vemos as Emoções e o Esgotamento físico, notadamente o envolvimento emocional do sistema endócrino.

A natureza foi sabiamente generosa ao dotar os animais superiores em geral, e ser humano em particular, do recurso da ansiedade ou estresse como valiosos mecanismos de adaptação e sobrevivência das espécies. Trata-se, grosso modo, de um esforço adaptativo eficaz e praticamente automático que lançamos mão continuamente. Entretanto, não havendo um tempo suficiente para a recuperação desse esforço psíquico, ou seja, persistindo continuadamente os agentes estressores que desencadeiam a ansiedade, os recursos para a adaptação acabam se esgotando. Assim é o conceito de esgotamento, segundo o próprio nome um estado onde nossas reservas de recursos para a adaptação se acabam.

Organicamente, no esgotamento há alterações endócrinas significativas, principalmente nas glândulas suprarrenais produtoras de adrenalina e cortisol, vindo daí as dificuldades no controle da pressão arterial, alterações do ritmo cardíaco, alterações no sistema imunológico, dos níveis de glicose do sangue, entre muitas outras anomalias. Psiquicamente a ansiedade crônica ou esgotamento leva à um estado de apatia, desinteresse, desânimo, irritabilidade e de pessimismo em relação a tudo.

As emoções têm como um dos pontos de partida no Sistema Nervoso Central uma região chamada Hipotálamo. O Hipotálamo é uma área cerebral nobre e intimamente relacionada fisiologicamente e anatomicamente às emoções. Ele ativa a glândula Hipófise e todo o Sistema Nervoso Autônomo, gerando assim respostas físicas e psicológicas em todo organismo. Desta forma podemos dizer que todo sistema endócrino é mobilizado a partir do Hipotálamo, vindo daí a expressão Eixo-Hipotálamo-Hipófise-Suprarrenal.

Para ilustrar o Eixo Hipotálamo-Hipófise-Suprarenal, lembramos que o cortisol (um corticoide fabricado no próprio organismo), participante ativo das defesas orgânicas, do controle das reações alérgicas e do equilíbrio do sal e da água, é sintetizado a partir do colesterol na córtex da glândula Suprarrenal. Para as suprarrenais liberarem o cortisol, o principal corticoide naturalmente produzido no ser humano, é necessário que elas sejam estimuladas por um outro hormônio secretado no cérebro, mais precisamente, na hipófise. Esse hormônio é o Hormônio Corticotrófico (Corticotrofina ou, simplesmente, ACTH).

No cérebro, mais precisamente na hipófise, para que seja produzido o ACTH que irá estimular as suprarrenais, há necessidade do estímulo de um outro hormônio, chamado Hormônio Liberador da Corticotrofina (corticotropin-releasing hormone, CRH) que é sintetizado no núcleo paraventricular, no hipotálamo.

A secreção do CRH no hipotálamo, que é onde toda mobilização orgânica começa, é controlada por, pelo menos, dois tipos de estímulos: o estresse e o relógio biológico, responsável por todo ritmo circadiano do organismo. Pois bem. Esse nosso relógio biológico faz com que a secreção noturna de ACTH e de cortisol se faça de modo pulsátil, alcançando seu nível mais baixo na primeira metade da noite, aumentando rapidamente ao aproximar-se o despertar, quando sua secreção é máxima (entre as 6 e as 10 horas da manhã).

Para o controle desse teatro de liberação-inibição hormonal existe um mecanismo chamado de biofeed-back, ou seja, o próprio nível elevado de cortisol na circulação proporciona a inibição da liberação de CRH e de ACTH que, finalmente, resultará na inibição do próprio cortisol.

hipofise1

Acima – Ilustração de parte do Hipotálamo e Hipófise. Ao lado, ilustração da localização dessas estruturas cerebrais

Se a base de liberação hormonal está situada no cérebro, então as questões cerebrais interferem diretamente na secreção de hormônios, ou seja, o estresse e a ansiedade influem diretamente nos níveis e secreção dos hormônios, ainda que estes sejam sintetizados em glândulas fora do cérebro, porém, comandadas por ele. Estamos falando aqui do eixo que liga o hipotálamo (núcleos da base), a hipófise e as suprarrenais. Mas existem outros eixos, como por exemplo o Eixo Hipotálamo-Hipófise-Tireóide.

hipófise2

Acima, ilustração da localização cerebral do hipotálamo e hipófise

As Suprarrenais estão intimamente relacionadas à chamada Síndrome Geral de Adaptação, a qual constitui um conjunto de reações inespecíficas desencadeadas quando o organismo é solicitado a se adaptar a algum estímulo ameaçador ou adverso. Segundo as pesquisas iniciais de Hans Selye, essas alterações se processam em três fases:

1 – Fase de Alarme: durante esta fase, por conta da ativação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal, há liberação de ACTH pela Hipófise. Este hormônio, por sua vez, estimulará a atividade das Suprarrenais, que no estresse agudo, através de sua medula, lançará seus hormônios na corrente sangüínea, Adrenalina e Noradrenalina.

 2 – Fase de Resistência: essa fase ocorre no caso do estresse ser duradouro e crônico. Aqui, a atividade principal são as Suprarrenais, através da secreção contínua de glicocorticóides. Esse aumento da atividade do córtex da Suprarrenal pode ocasionar atrofia do baço, de estruturas do sistema linfático, produção aumentada de leucocitose, diminuição dos eosinófilos e ulceras digestivas. Persistindo o estado de estresse, o organismo parte para a terceira fase.

3 – Fase de Esgotamento: Aqui há uma volta à Fase de Alarme e as reações orgânicas se generalizam por conta de mais adrenalina e cortisol, os quais, por excesso acabam causando efeitos indesejáveis, como doenças cardiocirculatórias, alterações imunológicas, e toda sorte de transtornos físicos, eventualmente indo até a morte.

hipofise

EMOÇÕES e EIXO HIPOTÁLAMO-HIPOFISÁRIO-SUPRARRENAL
As emoções compreendem nossos sentimentos e estados de ânimo, bem como sua expressão em condutas motoras e as respostas do Sistema Nervoso Autônomo e Endócrino.

Portanto, as emoções compreendem tanto as experiências subjetivas, como também as alterações fisiológicas concomitantes. Habitualmente as emoções são classificadas de acordo com o sentimento que determinam, ou seja, como agradáveis, desagradáveis ou neutras.

A expressão orgânica das emoções está baseada, principalmente, nas reações neurovegetativas ou, como preferem alguns, autonômicas (do Sistema Nervoso Autônomo).

Essas reações neurovegetativas são, em boa parte, inatas, hereditárias e típicas da espécie. Outras vezes podem ser adquiridas.

As reações emocionais neurovegetativas inatas são próprias da espécie e têm uma importante função adaptativa.

As reações emocionais neurovegetativas adquiridasresultam das primeiras experiências e necessidades de adaptação dos recém nascidos em sua inter-relação com o meio.

 

As alterações hormonais podem, de fato, induzir alterações emocionais importantes e vice-versa. O excesso ou a falta de corticóides, por exemplo, pode produzir ansiedade, depressão e estados confusionais como se fossem verdadeiras psicoses. Os sintomas psicológicos decorrentes de disfunções hormonais ocorrem através de, pelo menos, 3 tipos de mecanismos:

1 – alterações no hipotálamo, na hipófise ou no córtex pré-frontal.
2 – ação dos hormônios sobre os receptores específicos do cérebro.
3 – alterações metabólicas periféricas.

Portanto, os hormônios estão implicados na ativação, inibição ou modulação dos mecanismos centrais do Sistema Nervoso Central relacionados com padrões de conduta e emoções específicas. Os hormônios hipotalâmicos, por exemplo, atuam direta ou indiretamente na regulação das emoções negativas. A ação desses hormônios, que se deve à existência de receptores específicos no Sistema Nervoso Central, podem influir na memória, na aprendizagem, na conduta sexual, na conduta maternal, na afetividade, etc.

As reações primárias do Eixo Hipotálamo-Hipófise-Suprarrenal são moduladas pelo Sistema Nervoso Central, principalmente pela amígdala e pelo córtex pré-frontal. Em caso de reações emocionais o Eixo Hipotálamo-Hipófise-Suprarrenal é mobilizado para equilibrar o organismo, porém, quando tais reações emocionais são muito intensas, quando a atuação desse eixo não é adequada, as alterações da cortisona (elevação dos17-OHCS) são muito marcantes, e de tal forma que a dosagem desse hormônio é considerado um índice sensível e objetivo do estado emocional da pessoa.

O Cortisol
Os corticóides e os hormônios androgênicos são as sustâncias mais relacionadas com o estresse. O cortisol é o corticóide mais abundante no organismo e o chamado DHEA é o que melhor representa os hormônios androgênicos.

Os níveis de cortisol variam segundo o ciclo circadiano, como vimos, e exerce efeitos importantes sobre o metabolismo das proteínas, carboidratos e lipídeos, sobre a tonicidade dos músculos e outros tecidos, sobre a integridade do miocárdio e sobre as respostas antiinflamatórias. O cortisol influi também na conservação da glicose, na síntese de proteínas, na regulação de ácidos graxos em nos tecidos adiposos. A relação entre o cortisol e o sistema imune se comprova pela sua influência sobre os Linfócitos T, sobre o IL-2 e sobre o interferom.

suprarrenais1

Transtornos mentais e disfunção do Eixo Hipotálamo-Hipófise-Suprarrenal

1 – HIPERCORTISONISMO (Síndrome de Cushing)
O hiperfuncionamento da córtex Suprarrenal pode ter sua causas fora da própria suprarrenal, ou seja, da alteração na secreção de ACTH na hipófise (p. ex., devido a um tumor hipofisário, um tumor extrahipofisário, pela administração química de ACTH, etc). O hiperfuncionamento suprarrenal pode ainda ter sua causa relacionada à esta própria glândula, como por exemplo, um adenoma ou carcinoma da córtex suprarrenal.

A chamada Doença de Cushing é conseqüência da hipersecreção de ACTH hipofisária, comumente devido a algum tumor (adenoma basófilo ou cromófobo). Esse aumento do ACTH provoca uma hiperfunção das glândulas suprarrenais com conseqüente aumento de seu tamanho (hiperplasia bilateral de as glândulas suprarrenais).

Sintomatologia Psiquiátrica
O hiperfuncionamento da córtex Suprarrenal pode provocar Depressão, Transtorno Ansioso com ou sem ataques de pânico, Alteração da Personalidade, ou mesmo, dependendo do grau, de uma Síndrome Delirante com alucinações (auditivas e visuais) e/ou estado confusional.

A depressão está, de fato, presente em cerca de 75% dos pacientes com Síndrome de Cushing, o que a coloca como sintoma pertencente ao quadro clínico dessa endocrinopatia. Tal quadro depressivo pode ser classificado como Distimia nos casos mais leves e por Depressão Grave com Sintomas Psicóticos, nos mais graves.

Por outro lado, os Episódios Maníacos ou Hipomaníacos são excepcionais nas disfunções suprarrenais, entretanto, podem aparecer como complicação do tratamento, principalmente quando este se dá com altas doses de medicamentos corticoesteróides.

Aliás, por falar em medicamentos corticoides, é bom lembrar que em altas doses eles podem produzir estados confusionais, assim como graves depressões quando há interrupção abrupta.

O hiperfuncionamento da córtex suprarrenal pode provocar também dificuldades de concentração e déficits da memória, os quais são compatíveis com a alteração no funcionamento do hipocampo e, como sabemos, há forte correlação entre o volume do hipocampo (aumentado no hipercotisonismo) e a diminuição da cognição.

Sinais e Sintomas
A hiperfunção da suprarrenal tem características anatômicas. O rosto do paciente tem um aspecto arredondado, existe obesidade predominantemente no tronco (pernas mais finas) com depósito de gordura atrás do pescoço. A pele é fina com facilidade de formar equimoses e estrias (no abdome).

Na face formam-se pelos (hipertricose). A hipertensão arterial é uma complicação freqüente, assim como a formação de cálculos renais, osteoporose, intolerância à glicose.

Uma das causas de hiperfunção da suprarrenal é o quadro conhecido por Hiperplasia Suprarrenal Congênita. Não há, na hiperfunção devido à Hiperplasia Suprarrenal Congênita, superprodução de hormônios androgênicos (DHEA e androstenodiona), portanto, não ocorre o fenômeno chamado virilização. Mesmo assim, em mulheres com este problema não ocorrem menstruações devido à deficiência de hormônios estrogênicos.

Outra causa de hiperfunção da suprarrenal são os tumores virilizantes dessas glândulas. Os tumores virilizantes da suprarrenal são raros, felizmente, com uma incidência estimada 1 caso por 1,7 milhões de pessoas. Nestes casos haveria virilização com puberdade precoce.

Na Síndrome de Cushing, os níveis sanguíneos de cortisol são sempre altos, já que as Suprarrenais estão hiperfuncionantes e, ao contrários das pessoas normais, nesta síndrome não se pode observar variação nesses níveis entre o sangue colhido de manhã e durante o dia.

Para o diagnóstico laboratorial existem 2 testes úteis; a inibição do ACTH e do cortisol por injeção de dexametasona (um corticóide sintético) e o teste de estimulação do ACTH e de 11-desoxicortisol mediante a metirapona (que bloqueia a ll-hidroxilação de os precursores do cortisol).

Estes dois testes permitem determinar se a hiperfunção Suprarrenal é produzida por alguma alteração dela própria (primária), ou se é originada no Sistema Nervoso Central (secundária).

2 – HIPOCORTISONISMO
A hipofunção das glândulas suprarrenais também, como a hiperfunção, pode ser de origem primária (Doença de Addison) ou secundária. Na sua forma secundária é conseqüência de uma hipofunção da hipófise, a qual pode ser ocasionada por lesão da própria hipófise ou do hipotálamo (onde se situa a hipófise).

Normalmente essas lesões se dão por necrose isquêmica dessa região cerebral ou por excesso de corticoterapia. Na grande maioria das vezes a hipofunção é de origem primária, na própria suprarrenal e, em 70% dos casos, não se sabe a causa. Inúmeros casos são causados por razões auto-imunes.

Sintomatologia psiquiátrica
A maioria dos pacientes com Insuficiência Suprarrenal (hipofunção) apresenta algum transtorno emocional discreto, tal como apatia, astenia ou irritabilidade. Há, com freqüência, queixas somatizadas de dores pelo corpo, notadamente nas pernas.

Na metade dos casos existe uma depressão leve ou moderada com comorbidade para ansiedade. Sem dúvida, a característica principal de uma insuficiência suprarrenal gira em torno da fadiga crônica, insônia e anorexia, geralmente levando à perda de peso.

Sinais e Sintomas
A insuficiência Suprarrenal é acompanhada sempre de fatiga, anorexia, perda de peso, náuseas, vômitos, dores abdominais ou de estômago, diarréia, dores nas juntas, hipotensão arterial e hiperpigmentação da pele (pele escura), exceto nos casos secundários.

Para o diagnóstico da insuficiência Suprarrenal primária (Doença de Addison), a dosagem de cortisona no sangue é baixa, porém, os níveis de ACTH são altos. Observa-se ausência de estimulação da Suprarrenal quando se administra ACTH (teste para diagnóstico).

Por outro lado, quando a insuficiência Suprarrenal é conseqüência de uma insuficiência da hipófise, as concentrações sangüíneas de ACTH e de cortisol são baixas e existe uma resposta da glândula quando se administra ACTH.

Sintomas:
Debilidade, fadiga, perda de peso.
Anorexia, náuseas, vômito, fome pelo sal.
Diarréia, dor abdominal.
Alterações pigmentárias da pele.
Desidratação, hipotensão arterial ortostática.
Hipoglicemia com períodos de confusão mental
Vitiligo(10%)
Artralgias, mialgias, rigidez muscular.
Alterações emocionais, ansiedade, irritabilidade.
Coração menor
Hiperplasia do tecido linfóide
Poucos pelos axilares e púbicos
Amenorréia e diminuição da libido

SUPRARRENAIS E DESENVOLVIMENTO INFANTIL
Dentro da visão moderna sobre o desenvolvimento da personalidade o modelo bio-psico-social é o mais sensato e atual, quer dizer, o desenvolvimento como resultado de uma interação entre o biológico, o psicológico e o social.

A medicina, por sua vez, tem se ocupado da questão procurando identificar complicados mecanismos pelos quais os fatores psicológicos e sociais se entrelaçam ao longo do desenvolvimento biológico infantil, tornando cada pessoa um reflexo de sua constituição, moldada por suas vivências emocionais e pelas circunstâncias ambientais.

Na formação (boa ou não) da personalidade os primeiros meses de vida são de importância vital, principalmente quando consideramos a formação do Temperamento e a qualidade do Apego. A psiquiatria biológica desenvolve interessantes trabalhos que relacionam o desenvolvimento do Temperamento com a função do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal, que é o principal representante biológico dos mecanismos de adaptação.

Muitos trabalhos mostram alterações na função do Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal e, consequentemente, com a secreção de cortisol aumentada que ocorre quando a criança é submetida a estímulos estressores, bem como alterações desse eixo mais comuns em crianças emocionalmente problemáticas.

A avaliação da atividade da glândula Suprarrenal implica na avaliação do Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal, um dos sistemas neuroendócrinos mais importantes para a resposta fisiológica ao estresse. Portanto, relacionar as variações no nível do cortisol com as circunstâncias vividas pela pessoa, pode sugerir se essas vivências estão sendo estressantes para a pessoa e, também, se esta pessoa está tendo uma mobilização orgânica para adaptar-se a elas.

apego

Suporte Afetivo da Criança (Teoria do Apego), Estresse e Personalidade
A Teoria do Apego (John Bowlby) diz respeito à interação entre a pessoa que cuida, geralmente a mãe, e a criança, constituindo uma das condições mais importantes na formação das respostas da criança aos estímulos estressores, não só nas fases precoces do desenvolvimento mas, sobretudo, com repercussões na formação futura do temperamento. Por isso, a Teoria do Apego é também chamada Teoria da Regulação do Afeto, de acordo com Feeney, Noller e Patty.

A parte da personalidade entendida como Temperamento representa a maneira como a pessoa lida com os estressores, enfim, de que forma a pessoa reage à vida (através do afeto ou humor). O Temperamento é uma parte constitucional da personalidade, ou seja, ela faz parte do potencial biológico da pessoa e se desenvolve com ela como, por exemplo, sua estatura. A despeito da estatura ser constitucional, por exemplo, ela sofre influências (limitadas) do meio, tal como ocorre com o Temperamento. Imaginemos que uma criança tenha potencial hereditário de ser alta, mas, num determinado momento de seu desenvolvimento, faltou-lhe proteínas suficientes, resultando em um indivíduo não tão alto quanto poderia. Isso é a influência do meio sobre um determinante constitucional.

Apego e Temperamento no bebê sempre foram objetos de pesquisas. Rothbart define o temperamento como “as diferenças individuais constitucionais de reatividade e autoregulação”, entendendo-se como “constitucionais” as bases orgânicas da personalidade, determinadas pela hereditariedade e influenciadas pelo desenvolvimento e pela experiência.

O Temperamento da criança tanto influencia como é influenciado pela formação do Apego, assim como também, o Apego é influenciado pelo temperamento da pessoa que cuida da criança. Assim sendo, tanto o Temperamento constitucional da criança quanto o Temperamento de quem cuida dela influenciarão as respostas desta criança diante do estresse.

No desenvolvimento precoce da criança, portanto, a mãe (ou quem cuida) “empresta” a função de regulador de emoções à criança, contribuindo para a formação da parte ambiental do temperamento (já que outra parte é constitucional).

Segundo a hipótese da Teoria do Apego, a partir de repetidas experiências as crianças desenvolvem expectativas a respeito das interações entre ela e o mundo (incluindo e principalmente a figura do apego). Por exemplo, a repetida experiência de ser alimentada cada vez que sentir fome, leva à expectativa de ter esse tipo de sofrimento prontamente atendido e assim por diante.

Estudos em roedores e primatas sugerem que a função do Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal do indivíduo adulto pode ser modulada por experiências sociais durante o desenvolvimento precoce. Gunnar estudou a sensibilidade dos níveis de cortisol à qualidade dos cuidados aos bebês e crianças, evidenciando também que as crianças mais temperamentais ou emocionalmente problemáticas são aquelas que exibiam maiores elevações no nível de cortisol sob circunstâncias de cuidados insatisfatórios.

Tal constatação nos remete à dúvida do “ovo ou a galinha?” ou seja, da dúvida em saber se as crianças submetidas à cuidados precoces insatisfatórios ou negligentes desenvolvem uma resposta exagerada do Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal, com isso tornando-se emocionalmente problemáticas ou, ao contrário, se essa alteração no Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal seria uma causa fisiológica e orgânica (hereditária ou não) das crianças emocionalmente problemáticas, agravadas quando elas fossem submetidas à cuidados insatisfatórios.

Essa questão é ainda bastante controversa: se o temperamento da criança influi sobre a qualidade do Apego, ou, ao contrário, se é a atitude do cuidador (mãe) e o tipo de Apegodisso decorrente que influem sobre o Temperamento da criança.

Em uma de suas muitas pesquisas, Gunnar avaliou também as respostas Suprarrenais de crianças em diferentes situações de estresse, tentando verificar as alterações hormonais, de conduta e emocionais provocado pela separação da mãe, substituída por uma babá. Os resultados demonstraram que os bebês reagem à separação das mães conforme o comportamento das babás.

Os bebês que foram cuidados por babás afetuosas apresentaram alterações de cortisol salivar menores que as demais, bem como uma menor freqüência de afetos negativos. Isso pode sugerir que as diferenças individuais e constitucionais no Temperamento emocional da criança não devem ser o único fator que determina as reações da criança diante das separações, e que a qualidade do cuidador substituto pode ter importante papel (Escosteguy).

estresse3

As Suprarrenais estão intimamente relacionadas à chamada Síndrome Geral de Adaptação, a qual constitui um conjunto de reações inespecíficas desencadeadas quando o organismo é solicitado a se adaptar a algum estímulo ameaçador ou adverso. Segundo as pesquisas iniciais de Hans Selye, essas alterações se processam em três fases:

1 – Fase de Alarme: durante esta fase, por conta da ativação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal, há liberação de ACTH pela Hipófise. Este hormônio, por sua vez, estimulará a atividade das Suprarrenais, que no estresse agudo, através de sua medula, lançará seus hormônios na corrente sangüínea, Adrenalina e Noradrenalina.

Cannon também pesquisava a Síndrome Geral de Adaptação, ressaltando a descarga de catecolaminas e glicocorticóides na corrente sanguínea e seus variados efeitos em todo organismo através do Sistema Nervoso Autônomo Simpático.

2 – Fase de Resistência: essa fase ocorre no caso do estresse ser duradouro e crônico. Aqui, a atividade principal são as Suprarrenais, através da secreção contínua de glicocorticóides. Esse aumento da atividade do córtex da Suprarrenal pode ocasionar atrofia do baço, de estruturas do sistema linfático, produção aumentada de leucocitose, diminuição dos eosinófilos e ulceras digestivas. Persistindo o estado de estresse, o organismo parte para a terceira fase.

3 – Fase de Esgotamento: Aqui há uma volta à Fase de Alarme e as reações orgânicas se generalizam por conta de mais adrenalina e cortisol, os quais, por excesso acabam causando efeitos indesejáveis, como doenças cardiocirculatórias, alterações imunológicas, e toda sorte de transtornos físicos, eventualmente indo até a morte.

O que se vê em algumas pesquisas é que as crianças hiperativas, impulsivas e com problemas de atenção apresentam níveis de cortisol maiores que as outras, sugerindo maiores dificuldades adaptativas, maiores solicitações orgânicas diante das circunstâncias. Vê-se também que, em idade precoce, as dificuldades no vínculo (afetivo) entre a criança e o cuidador (seja a mãe, avó, instituição, etc) repercutem na atividade do Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal, quiçá configurando precocemente uma maneira da pessoa reagir à vida que perdurará por muito tempo.

O estresse experimentado pela criança é uma das mais importantes variáveis biológicas no desenvolvimento infantil, por isso os níveis sangüíneos de cortisol, relacionado diretamente ao estresse, têm sido bastante pesquisado em crianças. Um dos meios de pesquisar o Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal em relação ao estresse é através da dosagem de cortisol na saliva, pois, como se sabe, cerca de 30 minutos após algum estímulo adequado como, p. ex., o medo, susto, variação brusca de temperatura, etc, ocorrem alterações do cortisol evidenciadas pelo exame da saliva (Escosteguy).

Bruce, Davis e Gunnar pesquisaram os níveis de cortisol na saliva de 35 crianças que iniciaram o curso escolar, colhendo amostras no primeiro dia de aula, considerado mais estressante, no quinto dia e nos finais de semana.

Verificaram que o cortisol do sangue é bastante mais elevado no primeiro dia de aula, como indício de um esforço adaptativo maior e consequente mobilização orgânica através do Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal. No quinto dia e no final de semana o nível desse hormônio não se mostrava mais elevado, sugerindo assim adaptação da criança à circunstância vivida.

Um dado interessante dessa pesquisa foi a constatação de que as crianças mais impulsivas, hiperativas e inquietas apresentavam o cortisol aumentado ainda no quinto dia, refletindo assim alguma dificuldade adaptativa maior ou mais durável.

Em outra pesquisa Gunnar mostrou que crianças pré-escolares socialmente competentes apresentam atividade das suprarrenais elevada no início do ano escolar, normalizando no final do ano, entretanto, as crianças com maiores dificuldades de adaptação escolar mostraram alta atividade das suprarrenais tanto no início quanto no final do ano.

Esses resultados podem sugerir relações entre temperamento, competência social e reação neuro-endócrina ao estresse.

Para se ter uma idéia da importância do Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal na atividade infantil, Watamura analisou os níveis de cortisol em crianças de creche antes do momento do repouso e durante o repouso (sesta). O cortisol estava elevado em 91% das crianças durante as atividades do dia e antes do repouso, mas 75% delas tiveram os níveis diminuídos durante o repouso.

Davis, Bruce e Gunnar (idem) estudaram outras 58 crianças, com 6 anos de idade, com o propósito de avaliar a relação entre a capacidade dessas crianças controlarem o comportamento e a atenção, com a secreção aumentada de cortisol.

Na realidade tratou-se da confirmação de uma hipótese anterior (Posner e Rothbart), que atribuía à ação de uma área cerebral (o córtex pré-frontal) responsável pela atenção e controle das reações emocionais, o desempenho do Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal.

Considerando, então, que o controle das reações emocionais e da atenção são elementos fundamentais para a socialização da criança, o desempenho do Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal é igualmente importante para esse aspecto do desenvolvimento infantil.

As crianças mais estressadas mobilizam muito mais Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal e secretam, pois, mais cortisol. Tenta-se assim, estabelecer uma relação entre a secreção de cortisol aumentada com alterações infantis de atenção e comportamento.

para referir:
Ballone GJEsgotamento físico e emoções, in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2018.

Referências Bibliográficas
1. Bruce J, Davis EP, Gunnar MR
Individual differences in children s cortisol response to the beginning of a new school year. Psychoneuroendocrinology. 2002 Aug;27(6):635-50
2. Davis EP, Bruce J, Gunnar MRThe anterior attention network: associations with temperament and neuroendocrine activity in 6-year-old children. Dev Psychobiol. 2002 Jan;40(1):43-56.
3. Escosteguy NU Adrenocortical responses in children to a stress-situation (relation with observation of behavior and interaction with caregivers, considering variables “temperament and attachment”, Internet, disponível em www.revistapsiqrs.org.br
4. Feeney JA, Noller P, Patty J.- Adolescents interactions with the opposite sex: influence of attachment style and gender. J Adolesc. 1993 Jun;16(2):169-86.
5. Gunnar MR, Donzella BSocial regulation of the cortisol levels in early human development. Psychoneuroendocrinology. 2002 Jan-Feb;27(1-2):199-220.
6. Gunnar MR, Larson MC, Hertsgaard L, Harris ML, Brodersen LThe stressfulness of separation among nine-month-old infants: effects of social context variables and infant temperament. Child Dev. 1992 Apr;63(2):290-303
7. Gunnar MR, Tout K, de Haan M, Pierce S, Stansbury K.Temperament, social competence, and adrenocortical activity in preschoolers. Dev Psychobiol. 1997 Jul;31(1):65-85.
8. Rothbart MK, Ahadi SA, Evans DETemperament and personality: origins and outcomes. J Pers Soc Psychol. 2000 Jan; 78(1):122-35.
9. Rothbart MK, Ahadi SA, Hershey KL, Fisher P.Investigations of temperament at three to seven years: the Children s Behavior Questionnaire. Child Dev. 2001
Sep-Oct;72(5):1394-408.
10. Watamura SE, Sebanc AM, Gunnar MRRising cortisol at childcare: relations with nap, rest, and temperament. Dev Psychobiol. 2002 Jan;40(1):33-42.