Neuroses – como é isso

Reações Neuróticas são maneiras anormais de se responder às vivências, uma desproporção entre causas e efeitos.

O termo Neurose foi abolido a partir do DSM-5 e acertadamente substituído por Transtorno …., Transtornos Depressivos, Transtornos de Ansiedade, Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Relacionados, Transtornos Relacionados a Trauma e Estressores, Transtornos Dissociativos, Transtornos de Sintomas Somáticos e Relacionados, Transtornos Alimentares.

Não obstante, será imperioso aprender conceitos tradicionais sobre a fisiopatologia e psicopatologia relacionados ao que se entende por neuroses. Depois de compreendido essa fisiologia psíquica pode-se atribuir a denominação de Transtornos, politicamente mais correta e mais consoante ao modelo dimensional de diagnostico (veja mais adiante).

Qualquer que seja um fato ou acontecimento introduzido na consciência, receberá sempre uma maquiagem pessoal fornecida pela afetividade, dando ao fato um significado bastante pessoal. Portanto, os fatos da vida, sejam eles presentes, passados ou perspectivas futuras, serão sempre coloridos pela afetividade.

Os fatos e acontecimentos apreendidos pela consciência e coloridos pela afetividade são chamados de vivências, portanto, essas vivências têm sempre um caráter individual e particular para cada pessoa, de acordo com as particularidades dos traços afetivos. Dessa forma, os fatos podem ser os mesmos para várias pessoas, mas as vivências desses fatos serão sempre diferentes.

Tais vivências são sempre capazes de determinar uma resposta emocional sob a forma de sentimento e os sentimentos produzidos pelas vivências são as Reações Vivenciais, tal como são as reações alérgicas determinadas pela imunidade diante de um objeto alérgeno. Compreender a Reação Neurótica exige entender, a partir das vivências, a Reação Vivencial. Para que uma Reação Vivencial possa ser considerada normal ela deve ter 3 elementos.

1- uma relação causal;
2- uma relação proporcional;
3- uma relação temporal.

A complexidade do ser humano propicia o fato de que nem sempre um estímulo determina uma reação previsível e pré-estabelecida. Cada pessoa comporta uma sensibilidade individual aos fatos vividos, de tal forma que a valorização da vida seja sempre concordante com a sensibilidade afetiva. Como a sensibilidade afetiva é um atributo da personalidade, os valores dos fatos dependerão sempre e invariavelmente da personalidade de cada um, mais que dos fatos em si.

Portanto, para compreender as reações vivenciais aos fatos vividos, é indispensável a ideia segundo a qual cada pessoa reage exclusivamente à sua maneira diante da realidade dos fatos. Para compreender bem as reações humanas, é indispensável termos a ideia segundo a qual cada um reage exclusivamente à sua maneira diante da realidade dos fatos.

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O termo neurose foi criado pelo médico escocês William Cullen (1712-1790) para descrever afecções nervosas inespecíficas que ele julgava serem de natureza orgânicas. A expressão acabou se popularizando com as teorias de Freud e Jung através da descrição de quadros psicopatológicos.

O termo conceituado como neurose até o final do século 20 está hoje diluído em várias outras denominações, como por exemplo, “Transtorno”.

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As Vivências, origem das Reações Vivenciais
Para as outras pessoas aquilo que nos acontece são apenas FATOS, enquanto, para nós tratam-se de VIVÊNCIAS. Esperar uma solidariedade fiel aos nossos sentimentos por parte das pes­soas que nos ouvem pode ser decepcionante pois, por mais íntimas que sejam essas pessoas e por melhor boa vontade que queiram ter, dificilmente conseguirão experimentar, como nós, os devidos sentimen­tos aos nossos problemas. As pessoas que nos gostam, evidentemen­te, podem aborrecer-se diante de nosso aborrecimento e alegrar-se com nossa alegria, entretanto, como dissemos, muito raramente conseguirão associar às nossas VIVÊNCIAS o mesmo afeto que nós mesmos associamos, nem a mes­ma dor ou mesma alegria que sentimos.

As VIVÊNCIAS, por não se manterem isoladas nem estáticas na consciência e por se integrarem ao dinamismo psíquico estarão, continuamente, se associando a outras VIVÊNCIAS anteriores e a todo patrimônio consciente e inconsciente do indivíduo. Desta maneira, uma determinada VIVÊNCIA pode completar uma outra mais antiga, atenu­ar um sentimento sofrível, convocar novos sofrimentos, determinar lembranças angustiosas, trazer bem-estar, enfim, acrescentar um novo ingrediente ao tempero existencial que cada um traz em si.

Uma moça estuprada numa viela escura, por exemplo, poderá ter esta VIVÊNCIA associada à outros lugares escuros e sentir-se mal nestas circunstâncias, da mesma forma como uma grande angústia sofrida na infância poderá refletir-se em certas situações simi­lares na idade adulta. É assim que, por exemplo, um dia de natal infeliz poderá ocasionar futuros natais tristes. A VIVÊNCIA natalina atual se associaria às VIVÊNCIAS natalinas do passado. Por isso dissemos que as VIVÊNCIAS sempre se associam à outras, passadas ou presentes.

As pessoas manifestam sempre uma emoção reativa às suas VIVÊNCIAS. Da mesma forma como um corpo estranho pode determinar uma reação alérgica em nosso organismo, também as VIVÊNCIAS determinam uma reação emocional chamada REAÇÃO VIVENCIAL.

Como no exemplo acima, perder o emprego pode ter sido o mesmo FATO para muitas pessoas diferentes, entretanto, será uma VIVÊNCIA particular para cada uma delas. É claro que cada uma dessas pessoas reagirá diferentemente à este mesmo FATO, ou seja, cada uma manifestará um tipo específico de REAÇÃO VIVENCIAL. As pessoas poderão manifestar alegria, depressão, angústia, indiferença e assim por diante. Essas são as Reações Vivenciais diante do fato de serem demitidas.

Visto assim, podemos reafirmar mais uma vez que nossos sentimentos e emoções não decorrem exclusivamente dos FATOS mas sim das VIVÊNCIAS que os representam. E estas reações serão sempre proporcionais ao nosso AFETO, mais do que aos FATOS, propriamente ditos.

Os FATOS são importantes, mas sua importância é relativa e não absoluta. Desta forma, nós estamos sempre expe­rimentando e sentindo nossa vida através de nossas VIVÊNCIAS e não exclusivamente através dos FATOS, colocados diante de nós pelas mais variadas circunstâncias.

Se uma mãe se encontra diante do FATO de seu filho estar com febre alta, sendo este evento introjetado em sua consciência, passará a ser sua VIVÊNCIA e, diante disso ela deverá manifestar uma REAÇÃO VIVENCIAL. Neste caso a reação será por conta da ansiedade, apreensão, angústia ou outro sentimento esperado para a circunstância.

De acordo com essa Reação Vivencial, essa mãe poderá desempenhar uma ação: agitação, inquietação, irritabilidade, agressividade, passividade, desespero e assim por diante. Poderá, portanto, manter-se serena ou descabelar-se toda, dependendo mais do significado atribuído pe­los seus sentimentos à essa VIVÊNCIA de ter seu filho com febre do que pela febre propriamente dita.

A – Reação (Neurótica) Aguda
Uma analogia didática para diferenciar a Reação Neurótica Aguda da Personalidade Neurótica seria, por exemplo, o caso da alergia. Há pessoas que, em contato com um determinado objeto capaz de produzir um alérgeno, como por exemplo o mofo, reagem alergicamente espirrando, com coriza e lacrimejando. Trata-se de uma reação alérgica ao mofo.

Depois de algum tempo e já distante do alérgeno, tudo volta ao normal. Desaparece a reação alérgica. Por outro lado, há pessoas que vivem cronicamente com alergia e de maneira inespecífica, ou seja, manifestam reação alérgica não apenas ao mofo, mas à muitos outros alérgenos. Essas pessoas são alérgicas, estão sempre com coriza, espirrando ou lacrimejando.

No primeiro caso temos um exemplo da Reação Aguda e no segundo de determinada configuração da Personalidade. A primeira pessoa ESTÁ com alergia, a outra É alérgica. Pois bem. O conceito atual de Neurose, nos manuais de classificação, fala em doenças da personalidade tal como um estado permanente e duradouro. Assim, será fácil deduzir que a chamada neurose seria, na realidade, uma personalidade neurótica.

Por outro lado, a Reação Neurótica Aguda pode ser entendida como um tropeço emocional passageiro na vida da pessoa. As classificações atuais de doenças emocionais não utilizam o termo Neurótico com a mesma assiduidade que usavam as classificações anteriores. A tendência é localizar as reações neuróticas como transtornos: Transtornos de Ajustamento, Transtornos Fóbico-Ansiosos, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, Transtornos de Adaptação, Transtornos de Ansiedade, e assim por diante.

Ainda falando em classificações e reações, existem três situações clínicas englobadas pelo quadro de Reação a Estresse Grave e Transtorno de Ajustamento:

CLASSIFICAÇÃO CID-10 CLASSIFICAÇÃO DSM-5
Capítulo – Reações ao estresse grave e transtornos de adaptação Capítulo – Transtorno Relacionados a Trauma e Estressores
Reação Aguda a Estresse Transtorno de Estresse Agudo
Transtorno de Estresse Pós-Traumático Transtorno de Estresse Pós-Traumático
Transtornos de Ajustamento Transtornos de Adaptação

Na Reação Aguda ao Estresse ou Transtorno de Estresse Agudo os sintomas emocionais aparecem dentro de minutos ou horas depois da vivência causadora e desaparecem, também, em questão de alguns dias ou mesmo horas. Há uma espécie de atordoamento, diminuição da atenção, incapacidade para integrar todos os estímulos e até um estado de desorientação.

Para que se caracterize uma Reação Aguda ao Estresse, é indispensável haver uma conexão temporal entre os sintomas emocionais e o impacto do estressor psicossocial. Nesta espécie de choque psíquico pode haver, concomitante ao atordoamento e desorientação, um quadro de depressão, angústia, ansiedade, raiva e desespero.

Quanto ao Transtorno de Estresse pós-Traumático, a resposta é mais tardia ou protraída a um evento ou situação estressante. Poderá ser de longa ou curta duração. Há, aqui, um certo embotamento emocional, afastamento social, sonhos frequentes com a situação causadora, diminuição do interesse para com o ambiente, diminuição do prazer ou sua abolição total (anedonia) e evitação de situações recordativas do trauma. Com freqüência há também uma hiperexitação, hipervigilância e insônia, ansiedade e depressão. Como complicação podemos encontrar, nestes casos, um abuso excessivo de bebidas alcoólicas.

Para o diagnóstico do Transtorno de Estresse pós-Traumático há necessidade de que o quadro tenha surgido dentro de até 6 meses após um evento traumático de excepcional gravidade. O curso deste transtorno é flutuante, porém, seu prognóstico costuma ser favorável para a grande maioria dos casos.

O Transtorno de Ajustamento ou Transtorno de Adaptação, por sua vez, é cogitado quando existe uma angústia ou perturbação emocional interferindo com o funcionamento e desempenho sociais, a qual tenha surgido como consequência aos esforços adaptativos a uma mudança significativa na vida da pessoa.

A característica essencial de um Transtorno de Ajustamento ou Adaptação é o desenvolvimento de um quadro psicoemocional significativo em resposta a um ou mais estressores psicossociais identificáveis. No Transtorno de Ajustamento os sintomas desenvolvem-se, normalmente, dentro de um período de 3 meses após o início do estressor ou estressores.

A reação vivencial no Transtorno de Ajustamento é caracterizada por um acentuado sofrimento, o qual excede o que seria estatisticamente esperado pela natureza do estressor e resulta em prejuízo significativo no funcionamento social ou profissional. Os sintomas principais são: humor deprimido, ansiedade, preocupação, sentimentos de incapacidade em adaptar-se, sensação de perspectivas sombrias do futuro, dificuldade no desempenho da rotina diária. Em crianças podemos observar comportamentos regressivos.

Os sintomas podem persistir por um período de até mais de 6 meses, principalmente se são em resposta a um estressor crônico, como por exemplo, uma doença crônica ou a um estressor breve mas de consequências prolongadas, como por exemplo as dificuldades sociais, financeiras, separações conjugais, etc.

O estressor pode ainda ser um evento único (por ex., fim de um relacionamento romântico) ou pode haver múltiplos estressores (por ex., dificuldades acentuadas nos negócios e problemas conjugais). Os estressores podem ser recorrentes (por ex., associados com crises profissionais cíclicas) ou contínuos (por ex., viver em uma área de alta criminalidade).

Os estressores podem afetar um único indivíduo, toda uma família, um grupo maior ou uma comunidade (por ex., em um desastre natural). Alguns estressores podem acompanhar eventos evolutivos específicos (por ex., ingresso na escola, deixar a casa paterna, casar-se, tornar-se pai/mãe, fracasso em atingir objetivos profissionais, aposentadoria).

A resposta emocional no Transtorno de Ajustamento ou Adaptação é mal adaptativa porque existe um prejuízo no funcionamento social e ocupacional, ou porque os sintomas e comportamentos excedem a resposta normal esperada para tal estressor. São tão comuns estes Transtornos de Ajustamento que Kaplan refere uma incidência de 5% em todas admissões hospitalares estudadas num período de três anos.

A organização da personalidade e os valores culturais do grupo contribuem para respostas desproporcionais, assim como também podem advir de uma somatória de pequenos estressores menos importantes. Como exemplo disso citamos um relacionamento familiar conflitivo, o qual, depois de algum tempo, poderá comprometer progressivamente o limiar de tolerância da pessoa tornando-a mais vulnerável às solicitações existenciais, ou seja, reagindo neuroticamente às vivências que antes não desencadeariam tais respostas.

Se na Reação Aguda ao Estresse os sintomas emocionais aparecem dentro de minutos ou horas após a vivência causadora e desaparecem, também, em questão de alguns dias, e se no Transtorno de Estresse Pós-Traumático a resposta é mais tardia e o quadro tenha surgido dentro de até 6 meses após um evento traumático, ou se no Transtorno de Ajustamento tudo acontece dentro de um período de 3 meses após o início do estressor, isso tudo só terá valor prático quanto à duração do tratamento. Na realidade, o fenômeno psicopatológico pode muito bem ser o mesmo em todas essas situações.

B – Personalidade Neurótica
Entender a Personalidade Neurótica implica, antes, no entendimento da Personalidade como um todo, normal ou alterada, apta a responder harmonicamente à vida ou claudicar por dificuldades imanentes ao seu modo de ser. É fundamental compreender as Disposições Pessoais, o arranjo peculiar dos Traços no interior do eu, a modelagem afetiva no desenvolvimento da personalidade, a história biológica e existencial do indivíduo e as exigências adaptativas que a vida solicita.

O indivíduo, do jeito que se encontra aqui e agora, com a específica disposição para com a vida, só pode ser compreendido como resultado daquilo que ele trouxe para a vida, através de sua natureza constitucional, com aquilo que a vida trouxe para ele, através de seu destino existencial.

Podemos dizer que o indivíduo possui uma Personalidade Neurótica quando ele reage neuroticamente diante dos eventos de uma forma habitual e isto passa a caracterizar sua maneira de existir. Podemos dizer ainda que é neurótico quando sucumbe cronicamente diante de seus conflitos, sucumbe não apenas aos conflitos atuais mas, também e sobretudo, aos conflitos remanescentes do passado.

Podemos ainda arriscar a considerar neurótico quando suas pulsões inconscientes dominam suas atitudes conscientes, quando constatamos uma falha crônica em seus mecanismos de defesa, enfim, quando sua adaptação emocional à vida é constantemente problemática.

Sempre que as Reações Vivenciais Anormais ou os Distúrbios Adaptativos, ou ainda e também sinônimo, as Reações de Ajustamento não são acontecimentos fortuitos e ocasionais, mas constituem uma maneira perene e constante de relacionar-se com a realidade, estamos diante de uma Personalidade Neurótica.

É tênue e as vezes impossível, clinicamente, delimitar precisamente aquilo que se entende como Transtornos da Personalidade da Personalidade Neurótica. A grosso modo pode-se dizer, se for imprescindível a distinção entre essas duas colocações, que o Transtorno da Personalidade é um pré-requisito constitucional para a Personalidade Neurótica e que esta aparece apenas como uma evidência clinicamente estabelecida daquela.

Arriscamos, sem receio de errar, que a diferença entre uma e outra é a mesma constatada entre uma miopia de meio grau e uma miopia de três graus. Ou seja, com meio grau o indivíduo ainda se conduz na vida sem auxílio de óculos, embora não tenha uma visão tão fiel da realidade, com três, entretanto, apresenta uma dificuldade de adaptação muito maior.

O conceito de Personalidade, seja referente à Personalidade Neurótica ou normal, diz respeito à modalidade do relacionamento do sujeito com o objeto. Os critérios de avaliação destas relações objectuais normalmente são estabelecidos pelo conjunto normativo de um sistema cultural, o que corresponde a dizer que, se todos integrantes de um mesmo sistema tiverem meio grau de miopia, esta será a norma.

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Há em biologia uma fórmula significativa de validade indiscutível: FENÓTIPO = GENÓTIPO + AMBIENTE. Entende-se por Fenótipo o estado atual no qual se encontra o indivíduo aqui e agora, por Genótipo seu patrimônio genético e, por Ambiente, as influências do destino existencial sobre o desenvolvimento do ser.

Em geral, o estado em que se apresenta a pessoa em um dado momento é uma conjugação entre seu patrimônio genético e a influência ambiental a que se submeteu. Em outras palavras, uma somatória daquilo que ele trouxe para a vida e aquilo que a vida lhe deu. Assim, considera-se a personalidade composta de elementos constitucionais ou genotípicos e de elemento ambientais ou paratípicos. O resultado final, tal como a pessoa se encontra no momento atual, será o seu fenótipo.

A discussão sobre a predominância do ambiente ou da constituição na formação da personalidade é antiga, acirrada, infindável e inconclusiva. A tendência moderna e politicamente correta é entender o sujeito como resultado da influência preponderante do meio, porém, como o politicamente correto nem sempre é cientificamente correto, com visível tendência à demagogia e ao modismo, melhor seria uma concepção mais sensata.

DSM e CID
Antes das principais classificações de doenças mentais a difusão de critérios para o diagnóstico psiquiátrico não era precisa. Isso significava uma grande divergência entre especialistas sobre determinado diagnóstico e, obviamente, divergiam também quanto ao tratamento e prognóstico. Essa foi uma das premissas que levaram a Associação Americana de Psiquiatria (APA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) a desenvolverem manuais de classificação e diagnóstico para os distúrbios mentais mais parcimoniosos e consensuais. O diagnóstico dos chamados Transtornos de Personalidade, por exemplo, foi um dos grandes beneficiados

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais (DSM) e o sistema de Classificação Internacional de Doenças (CID) foram criados, respectivamente, pela APA e a OMS, em uma tentativa de catalogar uma série de doenças mentais identificadas, clinicamente descritas e sistematizadas.

Categorial x Dimensional
A mudança no modelo diagnóstico é a principal inovação do DSM-5. A nova revisão introduziu o conceito de “dimensão”. O diagnóstico no modelo dimensional considera a doença mental como uma disfunção única, sem fronteiras claramente demarcadas entre as diversas doenças. Isso favorece o surgimento do conceito de “espectro” em que a rigidez das categorias diagnósticas mais herméticas e rigidamente delimitadas desaparece.

Desta forma o transtorno mental é descrito como uma dimensão única que se expressa de forma variada. A depressão e a ansiedade, por exemplo, são agora consideradas expressões extremas de uma mesma e única patologia. Este tipo de classificação considera a intensidade e gravidade dos sintomas, indicadores de sofrimento subjetivos e o grau de prejuízo associado como, por exemplo, o risco de suicídio.

C – Classificação das Neuroses – Modelos Dimensional e Categorial
Reconhecer que o indivíduo é um neurótico implica numa visão conceitual, estatística e valorativa, onde o relacionamento sujeito-objeto (pessoa-mundo) está prejudicado e o observador, quase intuitivamente, percebe esta não-normalidade até sem muita dificuldade e mesmo não sendo especializado em saúde mental.

Classificar este tipo de relacionamento neurótico, entretanto, exige uma atitude clínica criteriosa. Os procedimentos de diagnóstico, cada vez mais internacionalizados, favorecem maior homogeneidade classificatória e maior especificidade de diagnóstico nosográfico.

A tendência classificatória anterior e ainda muito utilizada para descrições clínicas, especifica minuciosamente cada expressão sintomática, proporcionando uma visão mais abrangente de estados mórbido básicos. Divide assim as patologias em categorias. Era o modelo categorial.

Outro modelo diagnóstico, principal inovação do DSM-5, introduziu o conceito de “dimensão”. O diagnóstico dimensional apreende a doença mental como uma disfunção única, situada no extremo de um “continuum”, onde não há fronteiras claramente demarcadas entre as doenças. Isso cria o útil conceito de espectro em que a rigidez das categorias desaparece, como por exemplo, Doenças do Espectro Obsessivo, Doenças do Espectro Histriônico, etc.

Assim, o transtorno mental passa a ser descrito como uma dimensão única que se expressa de forma variada. A depressão e a ansiedade, por exemplo, são agora consideradas expressões extremas (continuum) de uma mesma e única patologia. Este tipo de classificação dimensional considera a intensidade e gravidade dos sintomas, indicadores de sofrimento subjetivos e o grau de prejuízo associado. Pela dimensão avaliada das patologias pode-se, por exempli, estabelecer um determinado o risco de suicídio, ou risco de psicose.

Vejamos a questão da ansiedade, por exemplo, considerada uma ocorrência psíquica universalmente experimentada pelos seres humanos. Do ponto de vista clínico e psicopatológico, não interessa muito saber se o indivíduo experimenta ansiedade ou não, mas sobretudo, o que ele faz exatamente com sua ansiedade, ou seja, se ele apresenta sintomas de pânico, se seu distúrbio é fóbico, generalizado, somatizado e assim por diante. Além disso, ao invés de pensarmos em comorbidade entre a Síndrome do Pânico e a Depressão, por exemplo, veríamos os dois estados como pertencentes à mesma patologia.

As crescentes sistematizações propostas pela psiquiatria e psicopatologia modernas não dispensam, em absoluto, os conhecimentos conceituais e as linhas gerais de conhecimento psicopatológico propostas pelos grandes tratadistas. Podemos fazer uma analogia com as novas concepções dos carros modernos, os quais, apesar dos muitos recursos tecnológicos que facilitam a segurança, a dirigibilidade, etc., foram concebidos à partir dos modelos antigos, sem os quais nada seria possível. Também em relação aos usuários, não há necessidade de aprender a dirigir novamente cada novo modelo de carro lançado no mercado; servem-se, pois, dos conhecimentos anteriormente adquiridos.

O conceito de neurose, apesar da substituição desejável deste termo por transtorno e apesar da complexa classificação atual, deve permanecer solidamente alicerçada em conhecimentos psicopatológicos tradicionais, de forma a fornecer a base de entendimento necessária para todos eventuais avanços de classificação futuros. Seria muito difícil compreender o significado do termo AGORAFOBIA SEM DISTÚRBIO DO PÂNICO, se não se conhecesse antes as concepções tradicionais do acontecimento neurótico concebidas progressivamente pela psiquiatria formal.

As chamadas “Neuroses” das classificações anteriores foram diluídas nas denominações de “Transtornos” da classificação DSM-5

Transtornos Depressivos 1.    Transtorno Disruptivo de Desregulação do Humor (infância)
2.    Transtorno Depressivo Maior
3.    Transtorno Depressivo Persistente (distimia e ciclotimia)
4.    Transtorno Disfórico Pré-menstrual

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Transtornos de Ansiedade 1.    Ansiedade de separação (infância)
2.    Mutismo Seletivo (infância)
3.    Fobia Específica
4.    Ansiedade Social (Fobia Social)
5.    Transtorno do Pânico
6.    Agorafobia
7.    Transtorno de Ansiedade Generalizada
8.    Ansiedade induzida por medicamento

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Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Relacionados 1.    Transtorno Obsessivo-Compulsivo
2.    Transtorno Dismórfico Corporal
3.    Transtorno de Acumulação
4.    Tricotilomania (arrancar cabelos)
5.    Transtorno de Escoriação

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Transtornos Relacionados a Trauma e Estressores 1.    Transtorno de Apego Reativo (infância)
2.    Transtorno de Interação Social Desinibida (infância)
3.    Transtorno de Estresse Pós-traumático
4.    Transtorno de Estresse Agudo
5.    Transtorno de Adaptação

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Transtornos Dissociativos 1.    Transtorno Dissociativo de Identidade
2.    Amnésia Dissociativa
3.    Transtorno de Despersonalização

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Transtornos de Sintomas Somáticos e Relacionados 1.    Transtorno de Sintomas Somáticos
2.    Transtorno de Ansiedade de Doença
3.    Transtorno Conversivo (Sintomas Neurológicos Funcionais)
4.    Transtorno Factício

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Transtornos Alimentares 1.    Pica
2.    Transtorno de Ruminação
3.    Transtorno Restritivo/Evitativo (infância)
4.    Anorexia Nervosa
5.    Bulimia Nervosa
6.    – Compulsão Alimentar

para referir:
Ballone GJ Sintomas do Estresse – in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2015.